Na crise, os problemas do Rio dificultam combate ao coronavírus

Bruno Alfano e Célia Costa
1 / 3

87492694_RI---Rio-de-Janeiro---RJ---13-03-2020---Personagem-Luciene-de-Assis

Luciene de Assis Braga, moradora da comunidade da Rocinha

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que demonstrou preocupação com o Rio, tem razão para ficar com a cabeça quente por conta da disseminação do coronavírus na cidade, que tem 16 casos da Covid-19. Essa é a avaliação de especialistas sanitaristas, que apontam cinco problemas: a posição muito colada das casas dentro da comunidades; um sistema de saúde funcionando no limite; a umidade do clima; a grande quantidade de idosos em algumas áreas da cidade e a expressiva circulação de turistas.

— A gente precisaria ter uma rede de atendimento médico mais estruturada — avalia Ligia Bahia, médica sanitarista e professora da UFRJ.

As redes estadual e municipal de Saúde do Rio sofreram com redução de leitos nos últimos anos. Os hospitais do governo do estado tinham 3.771 em 2014 e, este ano, funciona com 2.959. Já os da prefeitura caíram de 3.881, em 2017, para 3.527 este ano.

A rede de atenção básica da prefeitura também vem sofrendo. Um levantamento de novembro de 2019 aponta que a capacidade de atendimento da rede de saúde da família do Rio caiu 17%. E a cobertura que era de 70% da cidade passou 53%. A secretaria nega a informação e alega que inaugurou nove unidades.

No entanto, a cidade passa por um momento de transição na gestão das unidades: saem as organizações sociais e entra a Rio Saúde, empresa pública da prefeitura. Com isso, 3.900 profissionais da saúde (médicos, enfermeiros e técnicos) foram demitidos e terão que ser recontratados. Destes, 800 ainda não foram. Segundo a secretária municipal de Saúde, Ana Beatriz Busch, todos os quadros só devem estar completos com os profissionais treinados, no início de abril.

— Os contratos com as OSs tinham problemas, como falta de médicos e muita reclamação — afirma.

Enquanto isso, a população teme o coronavírus.

— Se tiver caso na Rocinha, será um desespero. Não tem médico — disse Isaura dos Santos, moradora de 70 anos da maior favela carioca.

No plano de contingência da Secretaria estadual de Saúde para combater o novo coronavírus, há a previsão de três hospitais de campanha — sendo um do governo estadual, um do Exército e outro da Aeronáutica, no caso de a doença atingir o nível mais alto de disseminação.

Já o município prevê 150 leitos da rede municipal destinados a casos graves de coronavírus. A prefeitura determinou ainda que o Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, passe a ser a unidade de referência para tratamento da Covid-19.

Os estados e municípios também estão contando, em caso de crescimento , com a ajuda do governo federal. O Ministério da Saúde abriu uma licitação para a contratar até 2 mil leitos de UTI “para atendimento a situação de emergência gerada em função da Covid-19”. Eles serão direcionados para os locais que mais precisarem.

Vão ser ainda alugados equipamentos hospitalares, como monitores, ventiladores pulmonares, camas motorizadas com elevação e desfibriladores/cardioversores, entre outros aparelhos.

O ministério também comprará aventais hospitalares, 10 milhões de máscaras cirúrgicas com três camadas e 4 milhões de máscaras do tipo N95. A pasta também anunciou a convocação de 5 mil profissionais pelo programa Mais Médicos para repor vagas abertas.

Falta luz e sobra viela

A maneira desordenada da ocupação dos morros da cidade é uma preocupação. Isso porque a proximidade das residências favorece o contágio. E não são poucos habitantes nessa situação: 22% dos moradores da cidade (que corresponde a 1,5 milhão de pessoas) vivem em favelas — o dobro do percentual de São Paulo, de acordo com o Censo de 2010, o dado mais recente disponível.

Cheia de becos, residências pequenas, sem entrada de luz solar ou circulação de ar, as favelas conhecem bem a proliferação de doenças respiratórias. A Rocinha, por exemplo, já registrou a maior incidência de tuberculose no Rio. Em 2015, eram 372 casos por 100 mil habitantes — 11 vezes maior que a média nacional.

Luciene de Assis Braga, de 39 anos, mora em uma casa de apenas um cômodo com duas filhas adolescentes. Nascida na Rocinha, ela lembra dos casos de tuberculose que assombravam os moradores.

— Tínhamos muitos casos de tuberculose. Os médicos diziam as condições precárias de moradia e de saneamento eram as principais causas existir tantas pessoas doentes na Rocinha. Os anos passaram, mas as condições de moradia continuam quase as mesmas. Moro numa casa muito pequena. Se alguém ficar doente, todos ficam. Não tem como fazer isolamento de um ou dois — ressaltou Luciene.

De acordo com os dados da Secretaria municipal de Saúde, houve significativa melhora no número de casos da Rocinha. Em 2018, a taxa de incidência de tuberculose na Rocinha foi de 279,72 por 100 mil habitantes. Em 2019, a taxa caiu para 201,86 por 100 mil — com isso, a comunidade saiu do grupo dos dez lugares com maiores incidências.