Na esteira do caso Henry, 629 mil agressões contra crianças e jovens foram registradas no Brasil em 10 anos

Melissa Duarte
·2 minuto de leitura

BRASÍLIA — Tapas, chutes, ameaças, maus-tratos, e até mesmo tortura: o rol de agressões contra crianças e adolescentes inclui uma série de violências que pode prejudicar o desenvolvimento físico, psíquico e cognitivo. Foi assim com o menino Henry Borel, que teve a vida interrompida aos 4 anos após sofrer diversas lesões por espancamento. A série histórica de 2010 a 2019 mostra que o total acumulado chega a 629.526 registros. Na média, equivale a 172 notificações por dia.

Os números obtidos pelo GLOBO foram computados pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) a partir do Sistema Nacional de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde. Outro levantamento divulgado pela entidade revelou que 103.149 crianças e adolescentes, de 0 a 19 anos, morreram em decorrência de agressões de janeiro de 2010 a agosto de 2020. Mesmo com os altos índices, a questão esconde um abismo ainda mais profundo. Segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS), para cada notificação de violência, cerca de 10 a 20 não chegam a ser contabilizadas.

Leia também:

— Nenhuma criança precisa sentir dor para aprender. Mas existe esse mito na nossa sociedade, por isso a subnotificação é tão grande. (...) A maioria dos casos que chegam a hospitais por trauma, por espancamentos não chegam porque (as crianças e jovens) foram espancados. Os agressores levam dizendo que a criança caiu, por exemplo. Então é o diagnóstico médico que leva a isso (aos registros), além de denúncias de vizinhos e da escola — analisa a pediatra, psicanalista e secretária do Departamento Científico de Segurança da SBP, Luci Pfeiffer.

Do total, 435.866 casos foram de violência física, 175.115 de psicológica e 18.545 de tortura. Só na faixa etária de Henry, assassinado em 8 de março, foram 51.336 registros ao longo da série histórica. Ao considerar os adolescentes de 15 a 19 anos, as notificações sextuplicam e alcançam 316.075 casos no período. De acordo com o levantamento, 60% dos casos ocorreram em casa ou foram praticados pelos pais ou responsáveis. 

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) define que todos os casos confirmados ou suspeitos de violência devem obrigatoriamente ser comunicados ao Conselho Tutelar. Profissionais como médicos e professores cometem infração administrativa Se souberem e não reportarem os casos.

— A responsabilidade da notificação é de todos, porque a maioria das agressões na infância e na adolescência começa dentro de casa. Pais e responsáveis são os maiores agressores. Eles (crianças e jovens) são reféns dos agressores. Mas o resto das pessoas (do círculo de convívio) sabe e acaba sendo conivente — completa Pfeiffer.