Na esteira do sucesso do K-pop, livros YA de autores de origem coreana viram febre no Brasil

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“Durante um bom tempo, eu não me permitia escrever personagens que se parecessem comigo porque eu estava tão acostumado a ser invisível que eu não fazia”, desabafou o autor de livros jovens adultos coreano-americano David Yoon em entrevista ao GLOBO.

Passado o bloqueio de Yoon, nasceu o bestseller “Frank e o amor” — considerado pela revista Time um dos cem melhores livros YA de todos os tempos — e o lançamento “Amor, mentiras e rock&roll”. Ambos os livros, publicados no Brasil pela Seguinte, colocam no centro das questões adolescentes personagens coreanos. Entre 2019 e 2021 foram publicados, no Brasil, pelo menos dez livros YA escritos por coreanos ou com personagens principais desta nacionalidade e a tendência é que esse número não pare de crescer.

— Eu quero escrever personagens que se pareçam comigo e com os amigos com quem cresci porque isso é verdadeiro para mim e mostra que pessoas de cor são como todas as outras, a gente se apaixona, comete erros bobos, somos divertidos e seres humanos como qualquer outro e eles não querem dizer nada, eles apenas são — diz Yoon, que completa — Quando eu estava estudando, os professores me perguntavam porque o meu personagem principal era coreano-americano. É como se eles dissessem “por que você é você?”. Precisamos de livros diversos, está acontecendo esse movimento, isso é muito bom.

De acordo com o diretor de projetos da ARA Cultural, agência focada em literatura coreana, Luis Girão, até 2105, a exportação de literatura coreana era focada apenas no segmento adulto ou infantil e um dos motivos pelo qual o movimento da literatura pop jovem coreana começou foram as fanfics publicadas em fóruns baseadas no universo do K-pop.

— Esse pessoal (que lia e escrevia fanfics) queria consumir coisas relacionadas à Ásia oficialmente e aí começaram a escrever. Muitos autores estrearam com histórias envolvendo o K-pop e os dramas coreanos e isso atrai o público brasileiro porque já é um público interessado. Então, a chegada desses livros olha para o universo que os fãs de K-pop e de cultura asiática olham — explica.

De fato, entre os livros publicados pela Seguinte, pela Alt e pela Intrínseca estão histórias diretamente ligadas ao universo da música e dos programas de TV coreanos com tramas que retratam ou fazem referência ao mundo do entretenimento pop, com títulos como, “Um lugar só nosso” e “Isso que a gente chama de amor”, da Maurene Goo, “K-pop confidencial”, de Stephan Lee, a coleção “It’s okay to not be okay”, da Jo Yong e “Shine: Uma chance de brilhar”, da ex-integrante do grupo feminino de K-pop Girls’ Generation, Jessica Jung.

Além de escritores e personagens, os ídols (como são chamados os cantores de K-pop) tornam-se influenciadores para os jovens. Luis Girão conta que, esse ano, a USP, em parceria com o Instituto de Tradução Literária da Coreia, realizou o quarto workshop de tradução literária focado no livro “Amêndoas”, de Sohn Won-pyung, que será lançado pela Rocco. O curioso é que a história veio para o Brasil porque, em 2019, os integrantes do grupos BTS leram o livro e ele explodiu no mundo, sendo traduzido para treze línguas.

Assim como “Amêndoas”, que não trata do universo da cultura pop coreana, mas sobre um adolescente solitário que nasce com uma condição rara que o impede de sentir emoções, há outros títulos no Brasil que passam por outros enredos — questões de identidade, amorosas, choque cultural, gordofobia, heróis aventureiros — como os livros do David Yoon, “Inverno em Sokcho”, da Elisa Shua e “A história de Hong Gildong”, de Heo Gyun. Para a editora de livros do segmento jovem adulto da Editora Globo, Paula Drummond, a entrada desses livros no mercado se dá por uma abertura a autores não brancos, tanto por parte das editoras quanto dos leitores.

— As histórias que estão sendo publicadas aqui se relacionam com o mundo que o jovem está vivendo hoje e a cultura sul coreana se expandiu pelo mundo, sendo importante para as narrativas. Foi uma demanda que o mercado editorial soube ouvir. Eu estou lendo bastante coisa e espero ter novidades em breve para a Alt — diz Paula.

A editora de aquisições de livros jovens da Intrínseca, Talitha Perissé, conta que a equipe começou a perceber um mercado que não era atendido e que tinha um espaço que precisava-se ocupar enquanto literatura.

— Estamos dando voz a um eixo que não estava sendo dado voz e é bom ter esse intercâmbio de culturas. É algo em que estamos investindo e vamos investir cada vez mais, estamos vendo um retorno muito legal, tanto de vendas quanto dos leitores. Existe um público sedento por essas histórias, não só que acompanha k-pop ou dramas coreanos, mas que quer histórias diferentes. Eu posso dizer que tem muitas coisas programadas e encaminhadas — explica Talitha.

Gabriela Tonelli, editora da Seguinte, concorda quanto ao interesse dos jovens pelas narrativas e adianta que mais títulos estão sendo negociados no selo.

— Os jovens não querem ler mais as mesmas histórias de sempre e buscam narrativas com mais representatividade em que possam conhecer outras culturas e outros pontos de vista. Ao mesmo tempo, essas histórias trazem alguns elementos narrativos que costumam fazer sucesso, como romance, dramas familiares, descoberta da identidade e outras questões jovens — opina.

David Yoon comemora o interesse pela cultura coreana:

— É estranho para mim porque, quando eu era criança, eu acho que ser coreano era a coisa menos legal possível e de repente se tornou o máximo, fico até meio desorientado. É encorajador ver que pessoas de várias culturas diferentes estão interessadas na cultura das outras — celebra.

A autora dos sucessos “Isso que a gente chama de amor” (com referências ao k-drama) e “Um lugar só nosso” (com referências ao k-pop), Maurene Goo, publicados no Brasil pela Seguinte, diz que agora ela se sente sortuda de a mídia coreana estar tão popularizada no mundo.

— Acho importante que eu mostre a cultura coreana nos meus livros porque é a realidade dos meus personagens e fala sobre a vida deles de uma forma mais profunda. É parte integrante de quem eles são, mesmo que não falem sobre isso o tempo todo — conta.

Além do interesse pelas narrativas coreanas, o público jovem é o que mais lê atualmente no Brasil. Segundo a última pesquisa “Retratos da leitura no Brasil” divulgada este ano, a faixa etária com maior número de leitores está entre os onze e treze anos, com 81 milhões, seguida dos quatorze aos dezessete, com 67 milhões.

Coreanos-americanos e tradução

Apesar de os coreanos estarem no centro das narrativas, muitos dos autores são descendentes, que nasceram nos Estados Unidos, ou nasceram na Coreia e foram morar em outros países fazendo com que as narrativas acabem se ocidentalizando, o que facilita o consumo brasileiro e a aquisição dessas histórias. De acordo com Angel Bojadsen diretor editorial da Estação Liberdade — que conta com três títulos coreanos, entre eles um clássico YA do século 17, “ A história de Hong Gildong”, de Heo Gyun, considerado o “Robin Hood coreano”, e é uma das editoras mais tradicionais no que diz respeito à publicações asiáticas — é preciso formar mais tradutores de coreano.

— Os coreanos hoje estão muito abertos para o mundo, e vários autores estão traduzidos para línguas ocidentais, facilitando o acesso. E eles têm um invejável sistema de informação de suas publicações dirigido ao exterior, o que ajuda muito. Precisamos formar mais tradutores, como tivemos que fazer para o japonês alguns anos atrás. Não deixa de ser um gargalo — explica.

Ainda segundo Bojadsen, esse ano a editora deve fechar mais um contrato.

Foi justamente com o objetivo de formar tradutores de coreano que Luis Girão, ao lado da coordenadora do curso de coreano da USP, Yun Jung Im, criaram a ARA Cultural há um ano.

— Temos o intuito de formar tradutores para trazermos literatura direto da Coreia mesmo, sem ter esse intermédio do inglês, que é muito importante que tenha pela diversidade, mas queremos facilitar isso — diz Girão.

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