Na fila para cirurgia há um ano e meio, idosa sofre com dores e faz vaquinha para custear operação

Diego Amorim e Felipe Grinberg
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Quando a aposentada Maria Inez Balbino Barra, de 65 anos, esteve no Centro Municipal de Saúde (CMS) Heitor Beltrão, na Tijuca, Zona Norte do Rio, em agosto de 2019, a previsão que lhe deram era de 90 dias até a cirurgia de retirada da vesícula. Mas os três meses já viraram um ano e meio. Apesar do “risco amarelo” de urgência assinalado pela médica na ocasião, até hoje a idosa não foi operada. Descrente no SUS, a família de Maria Inez organizou uma vaquinha para arrecadar R$ 8,3 mil e custear o procedimento na rede privada.

— É o cúmulo do absurdo essa situação. Eu já não aguento mais, não estou bem — conta a aposentada, que sofre com dores abdominais e vômitos.

Maria Inez faz parte de uma preocupante estatística. Um levantamento feito pela Prefeitura do Rio e obtido pelo EXTRA mostra que a cidade do Rio fechou o ano de 2020 com 340.551 pessoas na fila do Sisreg aguardando uma cirurgia ou exame, mais que o dobro de quatro anos antes, já que, em janeiro de 2017, estavam à espera 143 mil pessoas. Um paciente que procura hoje a rede municipal de Saúde da cidade do Rio com um problema na retina, e, após uma primeira análise, é orientado pelo oftalmologista a fazer o exame de “retinografia fluorescente” tem o nome inserido no Sistema de Regulação (Sisreg) da Prefeitura do Rio. A partir daí, ele poderá ficar até 636 dias, ou quase dois anos, na fila, esperando ser chamado.

No caso de Maria Inez, mesmo a primeira consulta levou meses desde que foi agendada, em 2018, após sentir fortes dores. Segundo ela, nem os exames foram feitos na rede pública. Para tentar agilizar o processo, ela pediu dinheiro emprestado e até se endividou para realizá-los em clínicas particulares. A paciente calcula um gasto de R$ 3,5 mil.

— Não consigo me alimentar direito, e minha família não tem condições de me ajudar. A vaquinha foi a solução que encontramos para tentar me manter viva — desabafa a idosa.

Também na fila desde agosto de 2019, o auxiliar de serviços gerais Israel Reis Santana, de 32 anos, convive com a dor há quase três anos, desde que deslocou o ombro esquerdo numa queda em junho de 2017. Num primeiro momento, o médico o reposicionou. Mas a luxação regrediu e, oito meses depois, ele precisou voltar à Clínica da Família Souza Marques, em Campinho, Zona Norte. Foram indicadas sessões de fisioterapia. Nova espera: seis meses até o primeiro atendimento. Mas, sem ter o problema resolvido, foi incluído na fila do Sisreg para cirurgia no ombro em agosto de 2019 e aguarda desde então.

— As dores estão piores a cada dia. Qualquer movimento, seja para abrir uma porta ou pegar um objeto, meu ombro sai do lugar. E minha profissão muitas vezes exige esforço físico. Não posso deixar de trabalhar — diz ele, que pesquisou o custo na rede privada, mas esbarrou nos altos valores: — O mais em conta foi R$ 16 mil. Não tenho dinheiro para isso.

Em relação a 2019, a fila do Sisreg até foi reduzida em 15 mil pacientes, mas o ritmo não deu conta de compensar os quatro anos em que vinha crescendo. Com o cenário que piorou por causa da pandemia, a prefeitura determinou, na segunda-feira, a retomada de cirurgias eletivas e atividades ambulatoriais em hospitais municipais.

Oferta reduzida

O levantamento feito pela Secretaria Municipal de Saúde revela que, em diversos procedimentos, a oferta mensal de atendimentos foi reduzida desde 2017, como a histeroscopia diagnóstica, um exame ginecológico indicado em caso de sangramentos uterinos anormais. De uma oferta mensal de 208 procedimentos anteriormente, em janeiro deste ano eram marcadas somente 93, o que fez o tempo de espera saltar de 89 para 132 dias.

No caso do paciente que precisa de uma retinografia fluorescente, o médico oftalmologista André Cechinel, membro da Sociedade Brasileira de Oftalmologia e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, explica que a demora pode ser causada pela falta dos aparelhos ou de um profissional habilitado para interpretar o exame. Atualmente há oferta de 190 exames mensais desse tipo na rede municipal do Rio:

— Não é um exame de alta complexidade. Você injeta um corante e consegue enxergar o fundo do olho na retina. Mas é um exame importante, com o qual você pode diagnosticar doenças oftalmológicas da retina ou até metabólicas. Você pode identificar mais precisamente em que estágio a diabete está com esse exame, por exemplo — explica.

Em alguns procedimentos, a oferta mensal aumentou desde 2017, mas em alguns casos esse aumento não acompanhou o crescimento da fila. O exame de densitometria óssea, por exemplo, tinha só uma vaga por mês e, agora, o Sisreg oferece 223 atendimentos mensais. Mesmo assim, o tempo médio da fila aumentou de 95 para 204 dias, porque em 2017 havia 37 pacientes aguardando esse procedimento, enquanto hoje há 3.920 pessoas à espera do exame.

Promessa de mudança

Segundo o secretario municipal de Saúde Daniel Soranz, o atual sistema de consulta on-line ao sistema de regulação (Sisreg) é pouco transparente, e é preciso realizar uma limpeza nos dados para dar maior previsibilidade ao cidadão.

— Está entre as meta dos 100 dias da nova gestão, uma nova plataforma para dar maior previsibilidade, para o paciente saber quando será atendido. Mas com a retomada dos exames e das cirurgias eletivas vamos conseguir fazer essa fila andar — explica Soranz.

Ao EXTRA, Soranz já havia dito que para zerar hoje toda a fila do Sisreg seriam necessários R$ 2,5 bilhões. Com poucos recursos em caixa, a Prefeitura do Rio vai realizar as cirurgias conforme a capacidade das unidades e os quantitativos físicos e financeiros já previstos nos orçamentos.

Mensagem por SMS

Segundo a Secretaria municipal de Saúde, o paciente receberá uma mensagem de texto por SMS sobre a marcação e será comunicado pela sua equipe de referência da Atenção Primária à Saúde.

Na ocasião, Soranz também contou que uma das suas principais preocupações era com o passivo de pacientes que não foram atendidos por causa da pandemia. Na rede municipal, de dezembro até a última segunda-feira, quando um decreto determinou a retomada, os procedimentos e cirurgias eletivas estavam suspensos:

— A pandemia é gravíssima, muitos estão morrendo de Covid-19. Mas foi um ano em que fizemos menos exames de câncer de mama, colo de útero (...) A fila do sistema de regulação cresceu absurdamente. Hospitais passaram a atender apenas Covid. Há muita pendência de outras doenças. No ano passado, deixaram de ser atendidos cerca de 150 mil pacientes. É muita gente — afirmou o secretário na ocasião.