Na guerra virtual da campanha, piores momentos de Bolsonaro vieram do fogo amigo

Passava pouco da zero hora de 16 de outubro quando Jair Bolsonaro surgiu transtornado diante das câmeras, na live aberta tão às pressas que o intérprete de libras só chegaria cinco minutos depois.

“Que vergonha é essa?! Que falta de respeito é essa?! Sempre combati a pedofilia! Sempre fui contra o regime venezuelano! Acompanho com dor e com sofrimento as famílias que fogem da Venezuela para o Brasil. Fogem da fome e da violência e de um regime apoiado por Lula! Agora pega um pedaço e inverte tudo isso?!”

Por dez minutos, o presidente da República esbravejou contra o PT, que no dia anterior tinha disseminado vídeos com o trecho de uma entrevista em que ele dizia que “pintou um clima” com refugiadas venezuelanas de 14, 15 anos — e que ao entrar na casa das garotas, constatou que elas estavam “arrumadas para ganhar a vida”. Na verdade, as jovens participavam de um projeto social que oferecia curso de estética e maquiagem.

Nas redes sociais, hashtags como “Bolsonaro pedófilo” se multiplicaram. A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, chamou Bolsonaro de “depravado” e “criminoso”. O partido também explorou a cena no horário eleitoral, numa peça em que a locutora perguntava: “Pintou um clima? Com uma garota de 14 anos? É esse homem que diz defender a família?”

Estava aberta a primeira crise séria da campanha de Bolsonaro no segundo turno. E ela havia sido gerada online. Não foi o primeiro ataque do PT nas redes, mas foi o primeiro que abalou a confiança do presidente em seu próprio taco virtual.

De manhã, os assessores estavam em polvorosa nos grupos de WhatsApp. Todos concordavam que era preciso reagir logo, mas ninguém tinha certeza do que fazer. Cogitou-se uma visita surpresa de Bolsonaro à comunidade, mas as venezuelanas resistiam. Depois, um convite para irem ao Palácio do Alvorada tirar uma foto. Não deu. Assessores de Michelle Bolsonaro então passaram a procurar as lideranças comunitárias locais para dizer que a primeira-dama queria fazer uma visita. Nada feito.

O debate com Lula na Band se daria em poucas horas, e se não surgisse algum antídoto ou factoide para desviar a atenção, o assunto fatalmente viraria o tema central.

A solução veio de onde menos se esperava. No final da tarde, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Alexandre de Moraes, mandou o PT retirar do ar os vídeos do “pintou um clima” e ordenou que suas lideranças se “abstivessem” de falar no assunto.

O debate, afinal, não produziu o dano temido. Mas uma constatação preocupava a campanha. Com a guerra virtual do neolulista André Janones, o PT parecia ter encontrado um flanco incômodo para Bolsonaro.

Em tese, o presidente não era um alvo frágil, pelo contrário. Seu campo ideológico sempre foi mais poderoso nas redes. Uma medição feita pela consultoria Bites em 180 sites de notícias e 150 canais no YouTube mostrava que a direita soma 61 milhões de visitas, contra 35,5 milhões da esquerda. Os canais, 75 milhões de inscritos na direita contra 60 milhões da esquerda.

Outro indicador, o Índice de Popularidade Digital da Quaest, que pondera cinco tipos de métricas do mundo virtual, também mostrava que desde setembro Bolsonaro vinha mantendo popularidade maior ou mais ou menos no mesmo nível da de Lula.

Os dois momentos em que caíra um pouco mais do que o petista tinham sido logo após a fake news que o associava à maçonaria e agora, com o caso do “pintou um clima”.

Para seus aliados, porém, o problema não era de alcance ou de popularidade, e sim de método. Com suas postagens em caixa alta apregoando que Bolsonaro ia acabar com o Auxílio Brasil, nomearia Fernando Collor ministro ou era da maçonaria, Janones havia demonstrado fluência na linguagem que o bolsonarismo domina, e deixara o presidente e seus ministros irritados.

Um dos atingidos era o ministro das Comunicações, Fábio Faria, que Janones apelidou de "gigolô da Jequiti", em referência à marca de produtos de beleza vendida no canal de TV de seu sogro, Silvio Santos. A um ministro do Supremo, Faria reclamou do apelido e das fake news. Ouviu uma resposta irônica: "Muito me espanta que logo vocês estejam reclamando de fake news."

que reclamou com um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e ouviu uma resposta irônica: “Muito me espanta que logo vocês estejam reclamando de fake news.”

Não que Bolsonaro não estivesse lançando suas próprias notícias falsas sobre o outro lado. O boato de que Lula fecharia igrejas, a montagem sugerindo uma comemoração em um presídio pela liderança de Lula no primeiro turno, ou a história de que o petista tinha sido escoltado por traficantes no Complexo do Alemão, por exemplo. Um dos aliados na disseminação desses conteúdos era o deputado federal eleito Nikolas Ferreira, que reúne, só em duas contas no Instagram, mais de sete milhões de seguidores.

Até então, porém, prevalecia o diagnóstico do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, para quem Bolsonaro havia conseguido pautar a eleição em torno dos temas que lhe interessavam, como os costumes e a corrupção — e não economia, como Lula queria.

Mas esse quadro logo mudou completamente. No dia 19, a Folha de S. Paulo publicou detalhes de um plano em gestação no ministério da Economia para deixar de reajustar o salário mínimo pela inflação do ano anterior e fazê-lo pela meta de inflação do ano seguinte.

Isso poderia levar a reajustes menores do que as perdas acumuladas, o que fez Janones amanhecer na porta do ministério, em Brasília, fazendo uma live para dizer que “Paulo Guedes acaba de anunciar que vai reduzir o valor do salário mínimo e das aposentadorias”. “Senta o dedo e compartilha essa live, denuncia para o país inteiro!”, berrava Janones. De noite, o deputado ainda fez uma live com Lula no Facebook, em que o petista prometia aumentar o salário mínimo todo ano de acordo com o crescimento da economia.

No dia seguinte, as pesquisas internas da campanha indicavam que as intenções de voto de Bolsonaro tinham caído três pontos percentuais.

O QG ligou o alerta máximo. O presidente gravou vídeos e deu entrevistas negando ter intenção de reduzir salários. Paulo Guedes fez o mesmo. O estrago, porém, estava feito. O jurídico da campanha levou quatro dias para conseguir uma liminar de Alexandre de Moraes determinando a remoção dos conteúdos de Janones das redes e tanto Bolsonaro como Guedes passaram o resto da campanha tendo que se explicar. Pela primeira vez, Lula e o PT conseguiram impor a pauta da economia.

Na ação em que pediu a remoção dos vídeos, o jurídico de Bolsonaro argumentou que a estratégia digital de Janones visava a “indução de efeitos psicológicos negativos” no presidente.

Não contavam, claro, com os “efeitos psicológicos negativos” provocados por um aliado, o ex-deputado federal Roberto Jefferson. Em 23 de outubro, ao atacar com granadas e tiros de fuzil policiais federais que tinham ido à sua casa cumprir uma ordem de prisão, Jefferson implodiu também o último esforço de Bolsonaro para parecer moderado. Dali em diante, o presidente passou os dias tentando sair das cordas — primeiro negando que Jefferson fosse coordenador de sua campanha, outra fake news de Janones, e depois chamando o ex-aliado de bandido.

Como não adiantou, a saída foi tentar criar um factoide: a denúncia de que uma fraude orquestrada pelo PT teria feito sumir milhares de inserções de rádios do Norte e do Nordeste.

Feita contra a vontade do núcleo político da campanha e ridicularizada internamente por figuras como Valdemar Costa Netto e Ciro Nogueira, a denúncia logo foi desmontada e acabou perdendo a credibilidade antes mesmo de virar um movimento sólido na internet. Morreu depois que o próprio Faria admitiu que parte das inserções não tinha sido exibida por erro do próprio PL e ainda afirmou que tinha se arrependido.

Faltava, então, apenas um dia para a eleição. O Índice de Popularidade Digital de Bolsonaro da Quaest caíra significativamente e se distanciara de Lula desde o “Jefferson Day”. Até agora, não voltou a se recuperar. Na guerra suja da campanha, a arma que mais feriu Bolsonaro foi disparada por um amigo.