Na pandemia, aluno de escola pública tem uma hora a menos de aula por dia, diz pesquisa

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SÃO PAULO — Às vésperas das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), uma pesquisa feita pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e pelo VoxPopuli, com apoio do Fundo Malala, revela que os estudantes das escolas públicas chegarão às provas em condições ainda mais desiguais em relação aos da rede privada.

O ensino à distância durante a pandemia gerou dificuldades para os adolescentes de 15 a 19 anos acompanharem as aulas. Em média, os alunos de escolas públicas estudaram cerca de uma hora a menos por dia — 3,18 horas por dia, ante 4,29 nas escolas particulares. Se considerado o ano letivo, a diferença é de 200 horas a menos.

A dificuldade de acessar o conteúdo ajuda a explicar a diferença. Mais da metade dos alunos de escolas públicas tiveram apenas celular para acessar material didático ou aulas, dos quais 6,9% precisaram compartilhar o aparelho com outras pessoas, atrapalhando o estudo. Do total, 4,2% não tiveram nenhum equipamento — e essa proporção foi maior entre os pretos (8,2%) do que entre os brancos (3,4%).

Na rede privada, 54% têm computador ou notebook de uso exclusivo e 92,3% têm celular ou tablet.

A facilidade de conexão à internet foi também um empecilho. Enquanto 92,1% dos alunos de escolas particulares disseram ter acesso à banda larga para estudar, entre os da rede pública o percentual cai para 75,8%. Outro dado alarmante é que apenas 7,4% dos estudantes de escolas públicas disseram que seus pacotes de dados duram o mês inteiro.

Em todo o país, apenas 13,4% dos estudantes disseram ter recebido do poder público equipamentos para o ensino à distância e 23% receberam pacotes de dados de internet.

— Não é à toa que essa edição do Enem tem o menor número de inscritos em quase duas décadas. As mazelas reforçam as desigualdades históricas que já conhecemos e isso pode afetar uma geração inteira de adolescentes, que terá mais dificuldade para ingressar numa universidade pública ou conseguir trabalho — afirma a pesquisadora Cleo Manhas, do Inesc.

Foi complicado também tirar dúvidas sobre o conteúdo das aulas ou de material recebido. Apenas 41% dos alunos de escolas públicas disseram ter tudo acesso a algum tipo de suporte deste tipo — os maiores percentuais foram nas regiões Nordeste (42,2%) e Sudeste (40,4%).

Trabalho e falta de recursos afastam alunos

Entre os alunos da rede pública, 54,4% informaram ter conseguido concluir o terceiro ano do Ensino Médio durante a pandemia, contra 97% dos matriculados na rede privada.

Entre os alunos de escolas públicas que deixaram de estudar, 14,6% afirmaram que precisaram trabalhar e 12,6% citaram falta de recursos, sejam os equipamentos necessários ou recursos para a sobrevivência.

Manhas lembra que o Brasil convive com desigualdades raciais, regionais, de gênero e de renda e que todas elas foram acentuadas durante a pandemia.

Mais da metade dos estudantes da rede pública teve de assumir outras tarefas durante a pandemia. Enquanto apenas 19,3% dos adolescentes do sexo masculino disseram ter assumido tarefas domésticas, entre as meninas o percentual subiu para 31,7%. Uma quantidade maior de meninos, porém, teve de trabalhar fora (19,8%, contra 11,2% das meninas). Parte teve de fazer as duas coisas — trabalhar fora e assumir tarefas domésticas — e, neste caso, o percentual de meninas com dupla responsabilidade foi maior: 11,2%, ante 9,6%.

— A população de baixa renda nunca parou de trabalhar de trabalhar e isso acontece também com os adolescentes — diz ela.

A pesquisadora avalia ainda que há diferença também no tipo de trabalho doméstico não especificada na pesquisa. Enquanto nas famílias de renda mais alta assumir tarefa doméstica pode significar apenas ajudar a mãe a lavar a louça, nas famílias de baixa renda pode ser cuidar dos irmãos mais novos, por exemplo.

Um quarto dos estudantes relata abalo emocional

Do total de alunos, independentemente do tipo de escola, 25% disseram ter ficado emocionalmente abalados durante a pandemia e que isso atrapalhou muito os estudos. Os dados por gênero, porém, mostram que as meninas foram mais afetadas. Enquanto 17,9% dos meninos disseram terem sido muito afetados, entre as meninas essa resposta foi quase o dobro: 33,7%.

— Mais da metade das meninas teve de desempenhar alguma tarefa além de estudar e isso pode em parte explicar porque elas foram mais afetadas emocionalmente. Elas também estão mais vulneráveis a violência e abuso dentro de casa — diz Manhas.

Outro dado que chama a atenção dos pesquisadores é que no momento da pesquisa, em julho passado, 272 mil meninas não estudavam. Mesmo considerando que cerca da metade concluiu o terceiro ano do Ensino Médio em 2020, mais de 130 mil meninas abandonaram os estudos e 78,7% delas são pardas ou pretas.

A pesquisa ouviu em julho passado 2.003 estudantes, com idades entre 15 e 19 anos, que estavam cursando o Ensino Médio; haviam abandonado ou parado de estudar em 2020 e haviam finalizado o 3º ano em 2020. A amostra é proporcionalmente distribuída nas cinco regiões do País e entre alunos da rede pública (1.485 casos) e alunos da rede privada (518 casos). O intervalo de confiança estimado é de 95% e a margem de erro máxima estimada é de 2,5 pontos percentuais, para mais ou para menos, sobre os resultados encontrados na amostra da rede pública, e 4,3 pontos percentuais para a amostra da rede privada.

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