Na pandemia, colombianas desempregadas voltam ao lar

Diego LEGRAND
·4 minuto de leitura

Na Colômbia, as mulheres pagam um preço mais alto pela pandemia do que os homens. Para cada homem desempregado, há duas mulheres. Elizabeth, María Edilma e Jackeline perderam o trabalho, devido ao coronavírus, e carregam sozinhas a carga das funções "do lar".

Este ano o desemprego atingiu máximos históricos, perto de 25%, mas as mulheres foram as mais castigadas neste país de 50 milhões de habitantes onde a informalidade chega a 47%.

O novo coronavírus empurrou 2,5 milhões de mulheres para o desemprego.

"As mulheres empregadas passaram de 9,2 milhões no segundo trimestre de 2019 para 6,7 milhões no mesmo trimestre de 2020", afirma o Departamento Administrativo Nacional de Estatística (DANE).

Elizabeth, María Edilma e Jackeline fazem parte deste drama que permeia as principais cidades do país. Com um acréscimo ainda mais embaraçoso: um número indeterminado de mulheres expulsas do mercado de trabalho retornou ao trabalho doméstico e ao cuidado dos filhos. Estatisticamente, elas entraram na "inatividade".

O DANE alertou sobre a tendência, nos lares, de substituir "atividades de cuidado remunerado por atividades não remuneradas".

- Sacrifício -

Há 20 anos, a violência deslocou Elizabeth Mosquera. Morava em Chocó, um departamento de maioria negra e o mais pobre do país. Chegou a Medellín, onde se dedicou ao trabalho doméstico.

Quando a pandemia estourou, sua empregadora, com medo do contágio, disse-lhe que para manter o emprego ela deveria passar a dormir no trabalho. Isso a forçou a deixar seus seis filhos entre 12 e 21 anos sozinhos.

Em 26 de julho, ela teve que abrir mão do trabalho para cuidar de sua família.

"Eu sabia que, se ficasse sem emprego, íamos ter trabalho, passaríamos fome. Mas eu disse 'não, primeiro são meus filhos'", afirma Elizabeth, de 40 anos.

Com a pandemia, o pai de seus filhos perdeu o emprego e parou de lhe enviar dinheiro. Hoje, ela cruza os dedos para que os serviços básicos não sejam cortados por falta de pagamento.

- Privação -

Quando o salão de beleza onde trabalhava como manicure fechou, María Edilma Aguilar foi obrigada a deixar o apartamento que alugou para ela e seus filhos de 17 e 20 anos, no sul de Bogotá. À época, ela também estudava para se tornar esteticista e abrir seu próprio negócio.

María Edilma se mudou com os dois adolescentes e dois gatos para um pequeno quarto dentro de uma casa, que divide com outras 17 pessoas.

Esta mãe solteira, de 35 anos, luta para garantir comida. Mas há dias que o que ela consegue mal dá para uma refeição diária, lamenta.

Logo cedo, ela cuida dos filhos e depois sai, de porta em porta, para oferecer seus serviços de "limpeza, manicure, lavagem de louça" ou "o que der".

María Edilma teme acabar se tornando um "peso" para os filhos. Seus estudos agora estão suspensos por tempo indeterminado.

Este ano deixa uma das maiores disparidades de gênero "em 20 anos da história recente" em termos de acesso ao emprego, afirma o diretor da Fundação para a Educação Superior e o Desenvolvimento, Luis Fernando Mejía.

- Incerteza -

No meio da pandemia, Jackeline Ardave, uma estilista de 36 anos que cobrava por serviço prestado, perdeu sua única renda.

A fábrica têxtil, com a qual ela trabalhava em Cali, terceira maior cidade da Colômbia, decidiu manter uma empresa de corte de funcionários terceirizados.

Na volta para casa, Jackeline teve de assumir as "tarefas domésticas" e cuidar do filho de sete anos, uma tarefa até então assumida pela sogra.

Ao mesmo tempo, ela e o marido se arriscaram a montar, com dinheiro emprestado, uma pequena oficina de roupas esportivas e cintas para mulheres com câncer de mama. O negócio ainda é incerto, mas as dívidas começaram a apertar há alguns meses.

"Não dizia nada, mas, às vezes, de madrugada, eu me levantava chorando, preocupada", desabafa Jackeline, que diz sentir que sua saúde está-se deteriorando.

Os setores onde os empregos foram mais destruídos são aqueles com maior participação feminina, como serviços domésticos, assistência social, tratamentos estéticos, ou ensino fundamental.

Se o Estado não levar adiante políticas trabalhistas com uma abordagem de gênero, esse retrocesso, que já é "muito grave", pode ser pior, acrescenta o diretor do Observatório do Mercado de Trabalho da Universidade Externado, Stefano Farné.

dl/jss/vel/lv/yow/tt