Na pior fase da pandemia, cidade de SP bate recorde diário e mensal de enterros

DHIEGO MAIA
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em nenhum outro momento da história, a cidade de São Paulo realizou tantos enterros em um único dia e mês. Puxado pela pior fase da pandemia de Covid-19, março vai terminar com mais de 9.000 corpos sepultados nas necrópoles paulistanas -com as cremações incluídas. O número exato alcançado nesta terça-feira (30) é de 9.350 enterros. Também foi neste dia que a metrópole bateu o maior número de sepultamentos diários: 415, e ultrapassa com folga a marca anterior, de 392 enterros, obtida no último domingo (28). O recorde mensal ainda deve aumentar porque os dados desta quarta-feira (31), último dia do mês, só serão conhecidos em 1º de abril. O número já é 54% maior em relação a março de 2020, mês em que a Covid-19 já tinha status de pandemia e foram sepultados 6.056 corpos. O pico anterior de enterros havia sido atingido em maio de 2020, com 8.368 sepultamentos. Os três primeiros meses de 2021 também já representam uma alta de 28% de enterros em relação ao mesmo período do ano passado. Por trás dos números estão pessoas que não conseguiram uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) a tempo ou morreram em leitos improvisados diante de um coronavírus que tem se mostrado mais forte e letal. Os problemas, porém, não terminam quando o coronavírus vence a batalha e provoca o óbito. A gestão da morte também já era uma pedra no meio do caminho na administração do prefeito Bruno Covas (PSDB) bem antes da pandemia de Covid-19. Covas e o seu antecessor, o hoje governador tucano João Doria, tentaram passar a gestão dos 22 cemitérios municipais para a iniciativa privada, mas nunca conseguiram. Em fevereiro deste ano, o edital de concessão dos espaços foi suspenso pelo Tribunal de Contas do Município por causa de irregularidades no certame, como aumento abusivo dos custos de cremação. Ao longo da pandemia, o Serviço Funerário Municipal continuou a fazer a manutenção, a conservação e a limpeza das necrópoles, apesar de o número cada vez mais reduzido de trabalhadores em diferentes áreas da autarquia -do administrativo ao sepultamento dos corpos. Levantamento realizado pelo Sindicato dos Servidores Municipais aponta que a autarquia contava em janeiro de 2001 com 2.337 trabalhadores. No mesmo mês de 2018 (ano mais atual dos dados) eram 1.020, uma redução de 56% da força de trabalho. No pior momento da pandemia, o Serviço Funerário contratou 35 sepultadores que se somaram aos 173 profissionais efetivos ativos e aos 150 terceirizados. A maior cidade do país tem 348 funcionários para as funções de enterrar e exumar restos mortais. "Isso não é nada para o tamanho da demanda que temos", diz João Batista Gomes, representante dos sepultadores no sindicato dos servidores. Faltam servidores e também espaço nas necrópoles. Desde esta quarta, nenhum sepultamento tem sido realizado nas quadras gerais do cemitério de Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte da capital paulista, porque não há lugar para abertura de novas covas. As quadras gerais são onde os sepultadores abrem as valas comuns diretamente no solo. Por lá, só estão sendo feitos enterros de quem possui um túmulo ou de corpos de crianças. Agora, a maior parte dos sepultadores do Cachoeirinha se concentração apenas na exumação de ao menos 1.056 restos mortais para o cemitério voltar a receber os enterros em massa. O Vila Nova Cachoeirinha só ficou atrás dos cemitérios de Vila Formosa, na zona leste, e do São Luiz, na zona sul, em número absoluto de enterros realizados nos dois primeiros meses deste ano. Mesmo sabendo que a capacidade da necrópole poderia se esgotar, o Serviço Funerário estendeu o funcionamento do Cachoeirinha para o período noturno, a medida mais recente colocada em prática para impedir um possível colapso na logística dos sepultamentos. Os enterros noturnos têm sido realizados desde a semana passada e integram o plano emergencial do setor para dar vazão aos cerca de 400 enterros por dia. Os enterros após as 18h são iluminados por torres móveis contratadas pela Era Técnica Engenharia para os quatro maiores cemitérios da cidade. A mesma empresa também ofereceu o menor preço e acabou abocanhando um contrato emergencial de R$ 1,7 milhão para fornecer por um mês 50 vans escolares adaptadas para o transporte dos corpos do necrotério dos hospitais até os cemitérios. Em entrevista à reportagem, Alexandre Modonezi, o titular da Secretaria de Subprefeituras, disse nesta segunda-feira (29) que a maior cidade do país está organizada para atender "o aumento da demanda nunca antes vista" e que não vai faltar área para enterros. Ele citou duas grandes áreas, nunca utilizadas, no cemitério de Itaquera, na zona leste, que serviriam de escape para desafogar os cemitérios mais demandados. Modonezi tem a palavra final nas decisões da área, mas quem faz a gestão do serviço funerário paulistano há menos de duas semanas é o advogado Pedro Henrique Dias Barbieri. Barbieri deixou a chefia de gabinete da autarquia e virou superintendente do serviço no lugar de Dário José Barreto, nomeado por Covas para assumir a subprefeitura de Santana/Tucuruvi. Reportagem do jornal Folha de S.Paulo, de 2018, mostrou que Barbieri entrou no serviço público paulistano por ter sido colega da turma de faculdade do braço direito de Covas, Gustavo Garcia Pires. Barbieri integra os quadros da prefeitura desde 2017 e, de lá para cá, já recebeu promoções e aumentos salariais. É um militante do PSDB, partido de Covas.