Na primeira entrevista após deixar o cargo, Angela Merkel defende suas políticas para a Rússia

A chanceler que comandou a Alemanha por 16 anos e se tornou uma das principais líderes da Europa no século XXI, Angela Merkel, deu sua primeira entrevista depois de deixar o poder, em dezembro do ano passado, e disse não se arrepender de suas posições como chefe de governo, inclusive em relação à Rússia.

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Na entrevista, realizada pela revista Der Spiegel no teatro Berliner Ensemble, em Berlim, Merkel condenou a invasão da Ucrânia, afirmando que foi um “ataque brutal que viola o direito internacional, para o qual não há desculpa”, e que a decisão de lançar uma guerra foi um “grande erro por parte da Rússia”.

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Nos meses que antecederam o conflito, quando a Rússia acumulava milhares de soldados ao longo da fronteira com a Ucrânia, Merkel foi criticada por buscar uma via diplomática para resolver o impasse, sem cortar os laços da Alemanha com Moscou — hoje, ela disse que por vezes se pergunta se poderia ter feito algo que mudasse o rumo dos acontecimentos.

Merkel afirmou que sabia da ameaça que o presidente russo, Vladimir Putin, representava para a Ucrânia, assim como dos sentimentos dele em relação ao Ocidente e à União Europeia — para ele, apontou, o bloco funcionava como um “precursor” da Otan, a aliança militar liderada pelos EUA.

— O ódio de Putin, a hostilidade de Putin, temos que dizer, são contra o modelo democrático ocidental — afirmou.

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Mesmo assim, Merkel considerou necessário para a Alemanha “encontrar uma maneira de convivência com a Rússia para não nos encontrarmos em um estado de guerra" e para que os dois países fossem capazes "de coexistir apesar de todas as nossas diferenças". Ela disse que “não vai se desculpar” por ter seguido essa linha, e ressaltou a importância de manter relações ao menos comerciais com Moscou.

Por décadas, começando ainda nos anos 1970, com a União Soviética, a Alemanha praticou uma política de “mão estendida” em relação a Moscou, acreditando, segundo alguns analistas, que o comércio evitaria um confronto com o país. Merkel disse acreditar que, como vizinha da Europa, a Rússia não poderia ser ignorada. Neste pacote, estava incluído o fornecimento de energia russa para os alemães, questão que hoje está no centro de um grande debate no país e na União Europeia.

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Muitos acusam a ex-chanceler de aumentar a dependência alemã e europeia do gás russo, por meio de acordos bilaterais e da construção de dois gasodutos, o Nord Stream 1, inaugurado em 2011, e o mais controverso deles, o Nord Stream 2, já concluído e que deveria estar em operação, mas que dificilmente será usado a médio ou longo prazo, já que seu licenciamento foi suspenso por Berlim após a invasão da Ucrânia.

A obra, que, assim como a linha 1, liga a Rússia à Alemanha através do Mar Báltico, era vista por alguns parceiros europeus e pelos EUA como uma ferramenta de pressão de Moscou sobre a Europa, potencialmente privando países do Leste, como a própria Ucrânia, das verbas que arrecadam com a passagem do gás russo por seus territórios.

Antes do conflito, o Nord Stream 2 foi alvo de sanções dos EUA, que atrasaram a obra e chegaram a ser suspensas no ano passado pelo governo de Joe Biden. Merkel disse que as sanções contra o Nord Stream 2 a “incomodaram”, e afirmou que “isso se faz contra um país como o Irã”, e não contra um aliado.

— Basicamente, eles aplicaram sanções contra aliados por causa de uma opinião política diferente — declarou, dizendo ter agradecido a Biden pela suspensão das medidas.

Na entrevista, durante a qual foi várias vezes aplaudida pela plateia, a ex-chanceler voltou a defender suas posições contrárias ao ingresso da Ucrânia na Otan — em abril, o presidente Volodymyr Zelensky atacou o que chamou de “política de concessões” da Europa em relação à Rússia, e mencionou a reunião de cúpula da aliança de Bucareste, em 2008, quando o governo de Merkel, ao lado dos de França e Reino Unido, foi contra uma proposta para que Kiev se juntasse à organização.

Segundo Merkel, a Ucrânia “não era um país democraticamente estável”, e a entrada na aliança poderia precipitar represálias contra Kiev.

— O presidente Zelensky está bravamente lutando contra a corrupção mas, naquele momento, a Ucrânia era um país governado por oligarcas, e você não pode simplesmente dizer "ok, amanhã vamos botá-los na Otan" — disse Merkel. — Não era a Ucrânia que conhecemos hoje. Era uma Ucrânia dividida politicamente. Não era uma democracia estável. E quando você aceita um país na Otan, você tem que saber que estaremos preparados para defender aquele país em caso de ataque.

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