Na reta final, Covas esbarra em jovens; e Boulos, entre pobres e desempregados

THIAGO AMÂNCIO
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SÃO PAULO, SP, 21.11.2020: ELEIÇÕES-BOULOS-SP - O candidato do PSOL à prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, faz caminhada no bairro de Heliópolis, na zona sul da capital paulista, neste sábado (21). Luiza Erundina, vice na chapa de Boulos, participa da campanha num automóvel chamado
SÃO PAULO, SP, 21.11.2020: ELEIÇÕES-BOULOS-SP - O candidato do PSOL à prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, faz caminhada no bairro de Heliópolis, na zona sul da capital paulista, neste sábado (21). Luiza Erundina, vice na chapa de Boulos, participa da campanha num automóvel chamado

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A cadeira está lá, no 5º andar do Edifício Matarazzo, no centro de São Paulo, mas quem quiser ocupá-la a partir de 1º de janeiro do ano que vem ainda precisa transpor algumas barreiras.

A pouco mais de uma semana do segundo turno, Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL) precisam furar algumas bolhas e reforçar algumas vidraças na disputa para o cargo de prefeito.

Pesquisa Datafolha aponta qu, em votos válidos (que excluem brancos e nulos), Covas tem 58% e Boulos, 42%. Mostra também que Boulos, por exemplo, ainda não rompeu a barreira da parcela da população que promete focar.

Ele tem menos de metade da preferência entre quem estudou apenas até o ensino fundamental do que seu adversário, Bruno Covas (PSDB).

A pesquisa mostra que 59% de quem tem esse nível de escolaridade diz votar em Covas, e 28%, em Boulos (a margem de erro nessa faixa é de 6 pontos percentuais).

O tucano tem performance melhor também entre os que ganham até dois salários mínimos --50% dizem votar nele e 34%, no adversário (margem de erro de 5 pontos).

Boulos vai melhor e empata com o adversário (dentro da margem de erro) entre os mais escolarizados e os mais ricos.

A pesquisa mostra que o psolista, que começou a carreira política no movimento sem-teto, tem tido dificuldade de furar a bolha progressista que o levou ao segundo turno.

O atual prefeito e candidato à reeleição Bruno Covas, por outro lado, fica numericamente atrás do adversário entre os mais jovens, com até 24 anos (46% a 31%) e os que têm entre 25 e 34 anos (44% a 38%).

O prefeito precisa correr para conquistar essa parcela do eleitorado. Sua vantagem maior se dá entre os mais velhos, com 60 anos ou mais (65% a 23%), faixa que, por fazer parte do grupo de risco da Covid-19, pode ter mais resistência a sair de casa para votar em meio à pandemia.

Além de furar suas bolhas eleitorais, os candidatos ainda têm calos que devem ser mais apertados nessa reta final.

Nesta semana, Covas voltou a ser atacado pela escolha de seu candidato a vice, o vereador Ricardo Nunes (MDB), nome da bancada religiosa da Câmara escolhido em uma articulação do governador João Doria (PSDB), que busca apoio do MDB para uma candidatura à Presidência em 2022.

Reportagens da Folha de S.Paulo revelaram que Nunes, de base eleitoral na zona sul, mantém uma teia de influência sobre administradoras de creches terceirizadas na região e é alvo de inquérito da polícia sobre a relação de políticos com essas entidades gestoras.

A Folha de S.Paulo também revelou que ele foi acusado pela esposa de violência doméstica, ameaça e injúria em 2011. Ela prestou queixa mas não seguiu com o processo. Os dois continuam casados e hoje ela nega ter sido agredida.

Os casos têm sido explorado por Boulos e seus partidários na internet, em entrevistas e no debate da Band. Covas tem defendido o vice dizendo que ele não responde a nenhum processo, que não há indício de favorecimento a ele e que sua proximidade com empresas na região é natural do cargo de vereador.

Outra quebradiça vidraça de Covas é seu padrinho político João Doria. O Datafolha aponta que 60% dos paulistanos dizem que jamais votariam em alguém apoiado pelo governador. Covas só virou prefeito porque entrou em uma chapa como vice de Doria, que deixou o cargo após 15 meses para disputar o governo.

Doria ficou escondido no primeiro turno da campanha e foi ignorado na propaganda de TV, o que foi questionado por todos os adversários do prefeito --ele se defendeu dizendo que Doria não poderia largar a funções de governador para entrar na campanha.

Como resposta às críticas, no entanto, Doria estava ao lado de Covas no primeiro discurso após o resultado do primeiro turno, no domingo (15).

A ligação com Doria se tornou mais desconfortável agora que Boulos tem explorado o BolsoDoria, slogan que o governador usou para se eleger em 2018, quando se colocou como representante do bolsonarismo em São Paulo.

Boulos tem recuperado esses momentos, e seus partidários resgataram foto que o prefeito tirou ao lado de Bolsonaro. Na quinta, o prefeito reagiu e afirmou: "Bolsonaro que trate do Rio de Janeiro, não tem nada que se envolver aqui em São Paulo, não tem candidato aqui que seja alinhado ideologicamente a ele".

O candidato do PSOL, por sua vez, também tem sido atacado pelo apoio que recebeu de Lula, condenado por corrupção, e do PT.

O Datafolha aponta que 54% dos paulistanos não votariam em um candidato apoiado pelo ex-presidente, de quem Boulos se aproximou especialmente nas mobilizações contra a prisão do petista em 2018 --isso tem sido usado por Covas, que já afirmou não ter subido no palanque para defender Bolsonaro da prisão.

O apoio do PT também jogou no colo de Boulos questionamentos sobre a gestão do partido no governo federal e sobre a administração Fernando Haddad (2013-2016) na prefeitura, usados por Covas no debate da Band.

O tucano questionou o psolista sobre por que o PT acabou com o programa Mãe Paulistana e disse que Boulos poderia "retroceder para o jeito de governar do PT", que criou 40 estatais no governo federal.

O prefeito criticou ainda a falta de menções do programa de Boulos à Operação Delegada, da Polícia Militar --espécie de bico oficial feito por convênio com a prefeitura, em que agentes patrulham as ruas mesmo na folga. Segundo Covas, a única menção à PM é para chamá-la de genocida.

Outra vidraça do psolista é a atuação do MTST em protestos, que por vezes acabaram em depredações --como à sede da Fiesp em ato contra a PEC do teto dos gastos, em 2016. Além disso, o próprio Boulos é réu sob acusação de vandalismo na desocupação do Pinheirinho, terreno em São José dos Campos, em 2012.