Na reta final da campanha na Câmara, ministros de Bolsonaro tentam interferir no DEM em prol de Lira

DANIEL CARVALHO
·4 minuto de leitura

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Na reta final da disputa pelo comando da Câmara, ministros do governo Jair Bolsonaro estão tentando interferir no DEM para levar votos de indecisos e de apoiadores de Baleia Rossi (MDB-SP) para o candidato do Palácio do Planalto, Arthur Lira (PP-AL). Estão nesta missão o articulador político do governo, ministro Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), e Onyx Lorenzoni (Cidadania), que foi exonerado nesta sexta-feira (29), junto com a ministra Tereza Cristina (Agricultura), para participar da eleição da próxima segunda-feira (1º). Os dois exonerados são deputados do DEM. "Estou, sim, conversando com meus colegas para que a gente mude esta condição que o DEM tem hoje. Acho que o DEM deve, sim, se alinhar ao presidente Bolsonaro. Trabalho isso desde 2017", disse Onyx à reportagem. "Eu tenho uma posição clara, que é a favor do Arthur. Eu acho que é um absurdo o DEM estar no mesmo grupo onde está o PT e os partidos de esquerda. Acho que isso é inaceitável", afirmou o ministro da Cidadania licenciado. Um aliado de Baleia no DEM compartilhou com a reportagem um áudio atribuído a Onyx em que uma voz masculina pede que se assine a lista de adesão ao bloco de Lira para que o partido fique com a primeira secretaria da Câmara, responsável pela ratificação das despesas da Casa. "O Elmar [Nascimento, deputado do DEM-BA] abriu, combinado com todos nós esta página aí no Infoleg para que todos nós possamos assinar para levar a nossa bancada e garantir a primeira secretaria no bloco do Arthur", diz a voz. Onyx negou que seja ele no áudio. "Eu não gravei áudio nenhum, não mandei áudio nenhum para deputado nenhum. Isso que tu tem aí não é minha voz, eu não fiz isso", afirmou. A reportagem procurou Elmar Nascimento por telefone e por mensagem, mas não obteve retorno até a publicação deste texto. O deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) disse ter sido procurado pelo ministro Ramos por volta das 11h desta quinta-feira (28), por telefone. "O general Ramos me ligou ontem [quinta-feira] sobre a lista, se poderia assinar a lista para aderir ao bloco do Lira", disse o deputado. Sóstenes afirmou que considera natural o telefonema do ministro, já que ele é o responsável pela articulação política do governo e estava acompanhado de outros parlamentares do DEM. O DEM hoje está rachado e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), tenta ao menos manter formalmente a sigla no bloco do presidente do MDB. Cálculos da cúpula do DEM indicam que, dos atuais 31 deputados da legenda, 14 estão com Baleia, 13 com Lira e há outros 4 indecisos. Na última terça-feira (26), Maia telefonou para Ramos para reclamar da interferência do Palácio do Planalto em seu partido. Segundo relatos feitos ao jornal Folha de S.Paulo por parlamentares governistas, em uma conversa exaltada Maia disse a Ramos que estava incomodado com o movimento do governo federal para gerar defecções no DEM. Maia ressaltou ainda que não aceitava interferência em uma disputa legislativa e salientou que as investidas do governo Bolsonaro sobre deputados federais precisavam ter um fim. Como resposta, de acordo com um assessor do governo, Ramos negou que o Planalto tenha interferido no DEM. Ele disse ao deputado que o Executivo tem mantido distância da disputa, já que Lira tem coordenado sua própria campanha. Na quarta-feira (27), Bolsonaro admitiu interferência na eleição e disse que "se Deus quiser" ele vai influir na presidência da Câmara. Para tentar eleger o líder do centrão o Planalto tem, desde o final do ano passado, acenado com cargos e emendas e ameaçado retirar de funções na máquina federal indicados políticos de deputados federais de siglas como MDB e DEM. "Viemos fazer uma reunião aí com 30 parlamentares do PSL e vamos, se Deus quiser, participar, influir na presidência da Câmara, com estes parlamentares, de modo que possamos ter um relacionamento pacífico e produtivo para o nosso Brasil", disse Bolsonaro na quarta-feira. A declaração foi feita quando o presidente participava de live promovida pela deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), na entrada do Palácio da Alvorada. Ela foi realizada após café da manhã de Bolsonaro com parte da bancada federal do PSL, partido pelo qual ele se elegeu presidente em 2018.