Na reta final da eleição, petistas e bolsonaristas encaram a saga do 'vira-voto'

A dois dias do segundo turno da eleição presidencial, virar voto se tornou quase uma missão de vida para os eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL). A difícil tarefa de converter indecisos e até os que estão do “outro lado” da força ganhou o reforço das redes sociais, onde usuários compartilham manuais de "vira-voto" e relatam as experiências, nem sempre bem-sucedidas, de convencer colegas e familiares a mudarem de opinião.

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Em alguns casos, o esforço para ajudar o candidato escolhido envolve até estatística. O site “onde virar voto” se inspirou no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) para criar o "Índice de Vira-Voto" a favor de Lula. O IVV usa os resultados de votação em cada bairro do país para mostrar quais lugares há mais eleitores que não votaram no petista no primeiro turno, mas que podem ser convencidos agora.

O cálculo é feito a partir de bairros do país inteiro que reúnem quatro características simultâneas: grande número de votos registrados no primeiro turno, alto percentual de eleitores da terceira via e de eleitores de Lula e pequeno percentual de eleitores de Bolsonaro. Os que buscam virar votos para o petista selecionam no site o estado e cidade onde moram para achar os bairros com o IVV mais próximo ao número um — onde, portanto, mais valeria a pena fazer campanha para Lula. Em São Paulo, por exemplo, a Consolação é apontada como a mais apropriada para o vira-voto dos petistas: tem um IVV de 0,93. No Rio, Laranjeiras é o mais estratégico.

O índice ajudou o Progressismo Fartura a organizar uma passeata no último sábado. O grupo suprapartidário tenta reverter a derrota de Lula em Fartura, município próximo à divisa com o estado do Paraná. O movimento criou até um comitê virtual, por onde organiza ações no ambiente digital e in loco. Entre elas, a produção de vídeos elencando motivos para votar em Lula, uma carta denominada “Todos Pela Democracia” e a distribuição de panfletos pela cidade:

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— Nos últimos dias, o foco tem sido mais virtual, mas também fizemos uma passeata para pedir votos. A estratégia foi seguir pelos bairros mais populares da cidade. A recepção foi boa, fui hostilizado apenas uma vez. Teve uma senhora que começou falando que gostava do tempo da ditadura e saiu dizendo: "Não era da ditadura que eu gostava, eu gostava era de um salário mínimo bom”. Esse foi um voto virado — diz o professor Henrique Mendes Lucarelli, um dos 148 colaboradores do grupo.

Lucarelli se guiou pelo manual “Tira Voto do Jair”, divulgado nas redes sociais por apoiadores de Lula, para convencer eleitores a votarem no petista. O documento elenca uma série de dicas para virar voto, incluindo sugestões de temas para abordar e as melhores palavras-chaves para usar.

— Recebi o manual pelas redes. A parte que ele fala de quais palavras usar foi importante. Exemplo: não era para usar "genocida", mas "desumano". O manual também reforça que é para trazer para uma experiência pessoal, e não ser generalista ou ficar apenas em números. Diz, ainda, para ser mais intimista e menos professoral — relata o professor.

Na saga do vira-voto, há, ainda, quem prefira mostrar como se faz na prática. O engenheiro Lucas Rosário já soma mais de três milhões de visualizações num vídeo de três minutos chamado “missão vira-voto”, em que ele convence uma eleitora do ex-presidente Lula a votar em Bolsonaro.

— Foi uma iniciativa minha com um único objetivo: ajudar a conquistar os eleitores indecisos. Ou até mesmo aquele eleitor do Lula que não sabia por que tinha decidido votar no Lula — afirma Rosário, que diz fazer esse trabalho de convencimento diariamente: — Onde abasteço, onde almoço ou janto, onde moro. Em todo lugar.

Neste segundo turno, a campanha de Bolsonaro apostou no apoio de influenciadores digitais e celebridades como principal estratégia para virar votos. Um dos eventos foi uma live de 22 horas que contou com a participação de nomes como o cantor Gusttavo Lima e o jogador de futebol Neymar.

Nas redes, porém, os apoiadores de Lula despontam com mais estratégias espontâneas do que os bolsonaristas, que se fazem mais presentes nas ruas, em atividades de panfletagem e "adesivaços".

O "Viravoto Brasil", fundado por Debora Baldin, Sabrina Fernandes e Gabrielle Nascimento, é outro exemplo: as três organizaram uma série de grupos de WhatsApp nos estados para compartilhamento de materiais pró-Lula de interesse regional e organização de ações de rua para o segundo turno. Os grupos reúnem mais de 17 mil pessoas. A iniciativa conta até com voluntários como designers e especialistas em estratégia paras redes.

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— Temos grupos de debate de estratégia, em que as pessoas conversam sobre determinados pontos de divergências que elas estejam buscando dar conta de cada grupo que estão buscando (virar voto). Há grupos nos estados que estão ali para dividir material regional e organizar panfletagem. E temos o canal principal, que transmite conteúdo para todo mundo — diz Debora Baldin: — Nossa articulação é de tarefas e a partir de pessoas que estão fora de partidos políticos e que não têm essa experiência (de virar voto). A gente tenta, transmitindo conteúdo através das redes, preparar minimamente essas pessoas para a batalha das ruas e das redes. A função desses grupos não é que essas pessoas sejam replicadoras. É organizar esse povo para militar, trocar ideia.

Quando a tentativa vira meme

A difícil saga do vira-voto também tem gerado memes nas redes sociais, com relatos de eleitores que não tiveram uma tentativa bem-sucedida. "Expectativa: vira-voto Realidade: espanta voto", escreveu um usuário do Twitter. Veja outras reações abaixo: