Na reta final, Russomanno, Boulos e França calibram estratégias em SP

JOELMIR TAVARES E CAROLINA LINHARES
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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 16.10.2020 - Celso Russomanno,  candidato do Republicanos à Prefeitura de São Paulo. (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 16.10.2020 - Celso Russomanno, candidato do Republicanos à Prefeitura de São Paulo. (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Marcada pela pandemia, pela ausência de debates na TV e pela míngua nos atos de rua, a campanha eleitoral deste ano para a Prefeitura de São Paulo terá uma reta final ainda mais decisiva do que em outros anos, com uma elevação na temperatura depois de semanas consideradas mornas.

A avaliação, compartilhada por estrategistas das principais candidaturas, é a de que esta semana será determinante para Celso Russomanno (Republicanos), Guilherme Boulos (PSOL) e Márcio França (PSB), que, com intenções de voto em torno dos 15%, estão empatados no segundo lugar, segundo o Datafolha.

Líder na pesquisa, com 28%, o candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB), está confiante em sua permanência na dianteira e deve assistir de longe à guerra entre os três por uma vaga no segundo turno.

Adiadas de outubro para novembro por causa da crise do coronavírus, as eleições só agora passam a receber atenção maior do eleitor. Na pesquisa espontânea do Datafolha, 30% dos entrevistados ainda respondem que não sabem em quem votarão --no levantamento anterior, eram 36%.

Entre os que respondem já ter candidato para a votação do próximo domingo (15), há uma cobiçada fatia de 42% que dizem que seu voto ainda pode mudar.

Como mostrou o jornal Folha de S.Paulo, no caso de Russomanno continuar em tendência de queda, os candidatos que mais se beneficiam como a segunda opção são Covas e França, que herdam votos do deputado.

"As pessoas estão pensando mais agora em quem vão votar, já que a eleição ficou muito em segundo plano, em função de tudo o que está acontecendo no país", diz Chico Malfitani, marqueteiro de Boulos, que busca romper a estagnação --ele teve 14% nas duas pesquisas mais recentes.

O esforço nos últimos dias da campanha no primeiro turno inclui tornar o líder de movimentos de moradia mais conhecido para tentar angariar apoios especialmente na periferia, onde tenta abrir espaço e disputa terreno com Jilmar Tatto (PT), escolhido por 6%.

Com apenas 17 segundos no horário eleitoral, o candidato do PSOL intensificará os giros pela capital e a associação ao nome de sua vice, a ex-prefeita Luiza Erundina (PSOL), 85. "É como diz o ditado: água morro abaixo e fogo morro acima, ninguém segura", diz Malfitani.

Mais conhecido das classes altas e dos jovens, Boulos tem usado a vice como cartão de visita nos extremos da cidade. Antes distante da campanha de rua por ser do grupo de risco da Covid-19, a ex-prefeita passou a sair de casa, envolta por um acrílico, na caçamba de uma caminhonete.

"Isso [reforçar nossa presença na periferia] já está aumentando nossa taxa de conhecimento, nossa votação", diz Boulos.

A decisão das principais emissoras de cancelarem os debates, usando como justificativa as restrições impostas pela pandemia e o excesso de candidatos (hoje 13, depois da desistência de Filipe Sabará, do Novo), prejudicou Boulos na intenção de se projetar a partir dos embates na TV.

A medida também afetou o planejamento de França, que pretendia evocar seus confrontos na campanha estadual 2018 contra o hoje governador João Doria (PSDB).

Três debates estão marcados para esta semana: um do jornal O Estado de S. Paulo, nesta terça-feira (10), o da Folha de S.Paulo e do UOL, na quarta (11), e o da TV Cultura, na quinta (12).

"Na última semana, o eleitor vai prestar mais atenção ao horário eleitoral. Vai ter mais audiência", calcula o marqueteiro de França, Raul Cruz Lima. Ele apostará até quinta-feira (12), último dia de propaganda na TV e rádio, no que chama de recapitulação dos eixos da campanha do ex-governador.

Com 13% no Datafolha (alta de 3 pontos percentuais na comparação com o levantamento anterior), o representante do PSB vai repetir suas propostas e explorar novamente pontos de sua biografia.

"O mais importante são as tendências, e há uma tendência nossa de crescimento no final", diz França. Segundo ele, só agora eleitores começam a associar o nome à pessoa e a se recordar do antagonismo com Doria, que o levou a ter na capital quase 1 milhão de votos a mais que o tucano em 2018.

Tanto Boulos quanto França tentam passar numericamente Russomanno, que tem 16%, muito menos que os 29% registrados pelo deputado federal e apresentador de TV no início da campanha, em 21 e 22 de setembro.

Às voltas com um derretimento semelhante ao que o acometeu nas eleições de 2012 e 2016 --nas quais perdeu o fôlego inicial e acabou em terceiro lugar--, o nome do Republicanos se agarra desta vez ao apoio do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

No entorno do candidato, a ordem é dobrar a aposta na associação ao padrinho, de quem Russomanno depende para cumprir algumas de suas promessas, como a criação do auxílio paulistano.

"Agora é rua. Vamos revisitar a periferia na última semana, consolidando o público que Russomanno já tem", afirma o marqueteiro da campanha, Elsinho Mouco.

Correndo pela lateral, Covas poupa energia --e petardos-- para o segundo turno. Em sua última semana de campanha, de acordo com auxiliares, manterá o tom propositivo, sem ataques aos concorrentes. É, nas palavras de um dos estrategistas, a lógica do "não se mexe em time que está ganhando".

Historicamente, a semana que precede a votação é marcada em São Paulo por disputas voto a voto e registra viradas importantes. Em 2016, quando Doria disputava a prefeitura, a vitória dele em primeiro turno só começou a ser vislumbrada na noite do sábado anterior ao pleito.

A diferença neste ano, na visão de membros das campanhas, é que o eleitorado pareceu se envolver mais tarde com a eleição, que ficou emparedada entre o noticiário da pandemia, o desânimo generalizado com a política e os efeitos da crise econômica.

Em meados de setembro, logo após a definição dos postulantes, a taxa dos paulistanos que diziam ter grande interesse na eleição municipal era de 30%, de acordo com o Datafolha. O índice subiu um pouco na primeira semana de outubro e chegou a 37%.