Na véspera dos 80 anos de Roberto Carlos, autor de 'Negro gato' diz: 'Estava endividado e ele regravou canção para me salvar'

Danilo Perelló
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Para ter uma vida transformada, a companhia de um rei — antes mesmo de ele ser coroado — pode ser determinante. Uma prova disso é a trajetória do percussionista Dedé Marquez. Hoje o mais antigo da banda RC9, ele bem que pode se considerar cofundador do fenômeno que se tornou Roberto Carlos, amanhã um homem de 80 anos completos (Viva!). Isso porque eles se conheceram quando namoravam duas irmãs, e Dedé dava carona para o amigo nas idas e vindas para a casa das moças. Depois, o carro que ele pegava emprestado do pai passou a servir para ambos percorrerem rádios com disco na mão e carregarem equipamentos para shows, nas lonas dos circos onde tocavam.

— Eu não era músico ainda. Aprendi a tocar para acompanhá-lo. Fizemos muito show assim: só eu na bateria e ele na guitarra. Foi bem difícil até chegar ao sucesso. E Roberto sempre foi um cara fiel. A banda está parada, mas ele preserva os músicos e dá uma ajuda de custo na pandemia. Foi coisa de Deus eu ter me juntado a ele. Não sei o que seria de mim, talvez hoje fosse só um velho aposentado — avalia Dedé, que em quase 60 anos ao lado do Rei, já passou por bons perrengues: — Em 1965, estávamos num avião monomotor para ir tocar em São Paulo. Nós dois e o piloto. Até que o único motor parou. Ficamos com medo, até o piloto conseguir fazer pegar de novo.

Com medo ou com coragem, na alegria ou na tristeza, cercar-se de amigos parece ter sido a tônica de Roberto desde o início.

— Se o simples fosse fácil, há muito tempo já teriam feito outro “Parabéns pra você”. Com versos simples, você conseguiu fazer uma obra-prima, um hino ao amor. Uma música da qual sou fã. Fico à vontade de falar porque não é com minha parceria — diz o principal parceiro, Erasmo Carlos, sobre “Como é grande o meu amor por você”.

A dedicatória do Tremendão foi enviada para a Canal Extra num vídeo especial em que ele canta a música para o amigo de fé.

Além da simplicidade destacada por “seu irmão camarada” , a generosidade marcou a vida de Roberto e é lembrada por amigos menos conhecidos do público, mas que também foram importantes nos recortes da colagem que formou esse reinado.

— Costumo compará-lo ao Rei Midas, porque tudo que ele toca dá certo — avalia o compositor Getúlio Côrtes, amigo de Roberto há 60 anos e que foi gravado por ele várias vezes. Entre as canções, está “Negro gato”, versão para “Three cool cats”, do grupo The Coasters.

Com o passar do tempo, o poder de transformar tudo em ouro só aumentou. Em 2010, a cantora Paula Fernandes foi seu feliz alvo, ao ser convidada para o especial de Natal da Globo daquele ano. No show que foi transmitido ao vivo da Praia de Copacabana, Roberto Carlos cantou um compilado de sucessos com ela e depois saiu do palco, para deixá-la encantar a plateia sozinha com o clássico sertanejo “Tocando em frente”, de Almir Sater.

— Depois daquilo, meu DVD vendeu mais de 2,5 milhões de cópias, vieram muitos prêmios e várias músicas tocando na rádio ao mesmo tempo. Minha voz já vinha sendo ouvida, como nas novelas “América” e “Paraíso”, mas naquele palco apareceu o meu rosto, fui apresentada ao Brasil, que abraçou aquela menina — recorda Paula.

Anos antes, outra mudança de rumo se deu na história de um compositor marcante na carreira de Roberto. Luiz Ayrão era um jovem que morava a poucas quadras do Rei no bairro Lins de Vasconcelos. Foram apresentados por amigos em comum, que afirmavam: eles precisavam se conhecer. Roberto chegou a gravar uma música dele, “Só por amor”, no álbum “Splish Splash”, de 1963. Mas os dois iriam tomar um caminho único apenas em 1966, quando RC decidiu gravar “Nossa canção”, conhecida por ter inaugurado o estilo romântico do Rei.

— Já tinha mostrado algumas que ele não gostou. Então o telefone tocou e fiquei cantando baixinho “Nossa canção” enquanto ele atendia a ligação a uns 6 metros de mim, falando naquele tijolão. Aí ele tapou a boca do aparelho e disse: “Essa aí. Essa eu gravo” — recorda Ayrão.

No estúdio, Roberto percebeu que a música estava curta e pediu ao compositor que fizesse uma segunda parte.

— Eu não poderia ir no dia seguinte, mas não queria deixar brecha para outra pessoa entrar no meu lugar. Resolvi fazer ali na hora mesmo. Enquanto eles foram lanchar, compus “Você partiu e me deixou” em dez minutos. Quando Roberto voltou, já mostrei e ele gostou. Este homem foi um instrumento de carne e osso no meu caminho — constata Ayrão, já que o álbum daquele ano foi um estouro tão grande de vendas, que o sucesso da música o fez se lançar também como cantor profissional.

Se Roberto esbanja sensibilidade na escolha do repertório, o mesmo costuma acontecer quando lida com os convidados de seus especiais de fim de ano na Globo. Quando a atriz Sophie Charlotte se preparava para entrar no palco do programa de 2014, o cantor sentiu que ela precisava de ajuda.

— Eu estava com a boca seca de tanto nervosismo. Foi a adrenalina mais forte que eu já experimentei nesta existência. Nem montanha russa, nem evento de qualquer nível se comparou àquela emoção. Até que o Roberto me perguntou algo sobre a minha história, sobre o meu avô. Isso me conectou absolutamente. Olhar pra ele transformou tudo em tranquilidade e harmonia. Foi o que me permitiu aproveitar o que estava acontecendo. Então posso dizer que consegui desfrutar de cada milésimo de segundo da companhia do Roberto naquele palco. Tenho a memória física, emocional e espiritual daquele momento. Pareciam instantes em suspenso de pura emoção — conta a atriz que cantou “Sua estupidez”, canção que havia interpretado também naquele ano na novela das 11 “O rebu”.

E assim o Rei vai colecionando novos e antigos “súditos”. Outro componente da banda de Roberto, Luiz Carlos Ismail está a seu lado desde antes de qualquer sucesso. Hoje, ele faz parte do coro real da RC9, mas no início trabalhava como secretário do cantor. De qualquer forma, o chefe queria mesmo o amigo envolvido com música.

— Comecei a fazer backing vocal. Gravei muito na TV e com artistas bons, além dos meus álbuns. Até que em 1978 ele me chamou para entrar na banda. Lá no começo, éramos vizinhos de prédio, mas morávamos praticamente juntos, pelo tempo que passávamos um com o outro — diz Ismail.

Agora, os componentes da banda passam o seu maior período afastados. Estão isolados, tal como Roberto, que vem seguindo à risca os protocolos sanitários das autoridades de saúde. Foi visto recentemente apenas quando foi se vacinar contra a Covid-19. Nem para votar nas últimas eleições ele saiu de casa, o que não quer dizer que não tenha sido visto. Tudo obra do cantor Carlos Evanney, cover do Rei.

— Depois que votei, fui na seção eleitoral dele na Urca, para ver se dava um tchau de longe. Quando cheguei, veio uma multidão atrás de mim. E os mesários já começaram a folhear os livros para procurar o nome dele. Um cara botou um som. Fui dando tchau. Naquela altura eu não podia dizer que não era ele. A cena foi parar no YouTube como se eu fosse mesmo o Roberto. Tiveram que me esconder e saí pelos fundos — diz Evanney, que tem feito lives em homenagem aos 80 anos do mestre.

Quem também sente falta de aglomerar com o ídolo é Tiago Abravanel, que já participava havia quatro anos do projeto Emoções, nos tradicionais cruzeiros do cantor. A história deles começou quando Tiago interpretou Tim Maia no teatro.

— Roberto foi assistir e me chamou para ir a um show que faria na semana seguinte em São Paulo. Fui, me atrasei e fiquei desesperado, porque não ia conseguir chegar a tempo. Mas ele tinha dito à produção que, enquanto eu não chegasse, não começaria. Fiquei numa mesa bem lá na frentona, ele me jogou uma rosa e me homenageou. Pouco depois, chegou o convite para participar do especial de fim de ano e aí quase morri — exagera Tiago, que cantou “Não quero dinheiro” e “Negro gato”.

Naquele palco, as duas músicas combinaram no dueto, mas, na vida real, o verdadeiro Negro Gato precisou de dinheiro, sim. Compositor da canção, Getúlio Côrtes diz que Roberto já tinha gravado uma música dele apenas para ajudá-lo financeiramente, quase nos anos 70. Mas a dose se repetiu em 1995.

— Aconteceu um milagre. Roberto estava em Nova York com o Mauro Motta (compositor). Aí passou um negão parecido comigo e ele perguntou sobre mim. Mauro contou que eu estava cheio de dívidas. Roberto me ligou dos Estados Unidos e disse que tinha regravado a minha música — recorda Getúlio sobre “Quase fui lhe procurar”, que o Rei já tinha gravado em 1968.

Naquele ano, Rafa Gomes estava longe de nascer. A finalista da primeira temporada do “The voice kids”, em 2016, encantou a plateia e foi cantar no especial de Roberto.

— O maestro Eduardo Lages veio aqui em Curitiba para ensaiar comigo. Minha mãe perguntou quem eram os outros convidados. Ele respondeu: “Marisa Monte, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Zeca Pagodinho”. Eu achava que iria fazer uma apresentação com outras crianças do “The voice”, mas cantei três músicas com ele — recorda Rafa.

Aliás, o especial de Natal fez parte de mais da metade desses 80 anos comemorados pelo Rei, já que começou em 1974. E vem emocionando mesmo quem já é experiente, como Alexandre Nero, que acaba de retornar ao ar em “Império”.

— Eu soube, na época (2014), que o Roberto gostava da novela e que era fã do José Alfredo. Acho que a nossa conexão começou ali, quando cantamos “Mulher de 40” — diz o Comendador sobre o Rei de 80 .

Se há dúvida de que estar no palco com o Roberto transforma, a atriz Dira Paes confirma. Em 2009, quando fez sucesso como a Norminha de “Caminho das Índias”, ela cantou “Cama e mesa” no especial de fim de ano.

— Eu nunca vou esquecer que quando eu pisei no palco, eu falei : “Roberto, hoje é um dos dias mais felizes da minha vida”. E foi.

Por mais dias felizes assim para o Rei e seus súditos!