Na véspera do primeiro turno, candidatos do Rio trocam críticas enquanto buscam votos de última hora

Luiz Ernesto Magalhães, Felipe Grinberg, Alice Cravo e Jan Niklas
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RIO - Os quatro candidatos mais bem posicionados nas pesquisas de intenção de voto para a prefeitura do Rio de Janeiro percorreram a cidade neste sábado em busca de apoios de última hora rumo à eleição de amanhã, em primeiro turno. Entre percursos feitos em carreatas e caminhadas, Eduardo Paes (DEM), Marcelo Crivella (Republicanos), Martha Rocha (PDT) e Benedita da Silva (PT) não pouparam críticas uns aos outros, ainda que o dia tenha sido marcado por um encontro não programado e cordial entre as duas últimas.

Enquanto Paes repetiu a menção aos principais cabos eleitorais dos adversários, reafirmando-se como um candidato sem "padrinhos políticos", Martha o criticou ao falar em "baixarias" na campanha: uma insatisfação com as críticas que vem recebendo do ex-prefeito. Crivella, na busca pela reeleição, repetiu ataques a partidos de esquerda — entre eles, os de Martha e Benedita — em mais um aceno a apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Benedita, que vinha mirando apenas a atual gestão de Crivella, publicou na internet uma fala com potencial para respingar negativamente na delegada Martha: criticou indiretamente a eleição de políticos com patentes.

Também houve espaço na reta final para comentários sobre possíveis apoios num segundo turno e um balanço sobre o caminho trilhado pelas campanhas desde 27 de setembro, quando a corrida pelo Palácio da Cidade teve início.

Paes encerrou a campanha do primeiro turno na manhã deste sábado em Jardim Maravilha, no bairro de Guaratiba. O ex-prefeito estava acompanhado do filho, Bernardo, de 16 anos. O compromisso ao lado do jovem marcou o aniversário de 51 anos do candidato, comemorado neste sábado. Durante a agenda, Paes reiterou que, numa eventual ida para o segundo turno, não pretende nacionalizar o debate da campanha. A declaração, que já havia sido feita em redes sociais, sucede a publicação de uma matéria pela revista "Veja", na qual consta a informação de que o ex-prefeito seria apoiado adiante por Jair Bolsonaro caso Crivella, aliado do presidente, não obtenha êxito na votação deste domingo.

— Não é que não queira apoio. Meu desejo é discutir o Rio. Essa não é uma eleição para ficar discutindo Lula, Bolsonaro, Ciro Gomes. Estamos em uma cidade cheia de problemas. Fiz questão de não ter padrinho em Brasília nesta eleição. Tá claro que o candidato do Bolsonaro é o Crivella. Do Lula é a Benedita. Do Ciro é a Martha. Da Marina Silva é o Bandeira (de Mello, candidato da Rede). Eu sou candidato do Rio, quero cuidar da minha cidade. O presidente é o Bolsonaro e o governador é o Cláudio Castro. Eu vou me relacionar bem com eles — afirmou Paes.

Assim como fez ao longo da campanha, o candidato discursou para agradar eleitores das Zonas Oeste (onde fica Guaratiba) e Norte. Nas gestões dele, o Jardim Maravilha recebeu obras que resultaram em escolas e Clínicas da Família. Parte do bairro, porém, sofre até hoje com enchentes constantes por causa do transbordamento do Rio Piraquê. Na gestão Crivella, houve uma promessa de solução que ficou apenas no papel. Paes prometeu hoje que, caso eleito, irá implantar um parque na região para ajudar no escoamento da água.

— Caminhando durante a campanha, vimos uma cidade muito abandonada. A Zona Oeste vai ser uma prioridade. E as favelas da Zona Norte. São áreas muito abandonadas, as pessoas estão sofrendo muito com a ausência dos serviços públicos — disse o ex-prefeito.

m partidos de esquerda. PDT, PSB, PT, PCdoB, PSOL e Rede, representantes desse segmento, cogitaram a formação de uma frente única contra o prefeito, mas não obtiveram êxito na articulação. A crítica às siglas repete o aceno que o candidato tem feito à base do Jair Bolsonaro: presidente e apoiadores são críticos frequentes da esquerda.

— Penso em passar pro segundo turno em primeiro lugar. Vou pedir apoio de todos. Apoio a gente precisa, precisaremos de apoio. Aliança com a esquerda é impossível porque eles pensam em ideologia de gênero, são contra a família e pensam em um estado superpoderoso que tire a liberdade das pessoas. No mundo inteiro é assim. Aliança com a esquerda não é possível, mas vou pedir apoio de todos que queiram se aliar ao nosso programa de governo em defesa da família, da vida e contra a corrupção — afirmou Crivella.

Ainda sobre a possível chegada ao segundo turno, Crivella disse que está "guardando a força maior" para o final da corrida eleitoral ao comentar que conseguiu o apoio de toda a família Bolsonaro. Apesar da afirmação, os filhos do presidente (Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro, todos parlamentares) não fizeram declarações públicas nessa direção. Tentando a reeleição como vereador do Rio, Carlos, que é correligionário do prefeito, não o menciona em seu material de campanha.

— O material que o partido fez para o Carlos foi com o Crivella e estamos sempre juntos no programa de TV. Mas estamos guardando a força maior para o segundo turno, que tem que ser diferente do primeiro — disse Crivella.

Martha Rocha, que também disputa uma vaga no segundo turno, participou de uma carreata iniciada na Ilha do Governador em direção a diversos bairros da Zona Norte, entre eles a Penha, bairro onde a candidata morava antes de entrar para a política e onde está sua família. Ela também passou por Cachambi, Olaria, Bonsucesso, Higienópolis, Del Castilho, Maria da Graça, Engenho Novo, Méier, entre outros bairros, e as comunidades de Manguinhos e Mangueira. O destino final foi a Tijuca, bairro em que Martha vive há vinte anos.

A candidata fez um balanço da campanha, afirmando que sua atuação não envolveu "baixarias". Ela se tornou alvo de propagandas elaboradas por adversários para o horário eleitoral gratuito na TV e no rádio, com destaque para as de Paes e Luiz Lima, candidato pelo PSL. Sua atuação na Polícia Civil e na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) foram tema das peças. Num eventual segundo turno, avalia Martha, pode ser mais fácil responder críticas e ataques.

— Fizemos uma campanha de proposta, sem baixaria. Os meus adversários, principalmente o ex-prefeito, que tem medo de me encontrar no segundo turno, perdeu boa parte do tempo fazendo fake news. No segundo turno, teremos tempo igual na TV e vamos estar em igualdade de condição para apresentar as propostas. Tenho convicção que vou estar no segundo turno. Trabalhamos pra isso e vejo como sou recebida na rua — disse Martha.

Durante a passagem pelo Cachambi, o carro de som em que Martha estava cruzou com a carreata de Benedita da Silva e sua vice, a deputada estadual Enfermeira Rejane (PCdoB). Ambas cumprimentaram Martha, que se aproximou ao meio fio do calçadão da Avenida Dom Hélder Câmara para cumprimentar as adversárias. Ao microfone, Rejane lembrou que é companheira de Alerj de Martha e que elas atuaram juntas na CPI do Feminicídio e na Comissão de Saúde. Benedita acenou e desejou boa sorte à concorrente.

Sobre o encontro, Martha reafirmou o respeito à candidatura de Benedita e mencionou a importância das seis candidaturas femininas inscritas para o pleito municipal. Ela também reforçou o discurso do "voto útil", no qual tem investido com o objetivo de catalisar em seu próprio favor a rejeição de Crivella.

— Com todo respeito a todas as candidaturas, mas a minha é a que tem chance de tirar Crivella do segundo turno. Política é feita com diálogo, jamais rivalizaria com a candidatura de uma mulher. Estamos hoje todas aqui como resultado de lutas importante no passado, não podemos esquecer disso — declarou Martha.

Apesar da cordialidade na rua, Benedita divulgou na sexta-feira um vídeo destinado a eleitores indecisos com uma crítica indireta que respinga em Martha, cujo cargo de delegada da Polícia Civil foi escolhido como marca da campanha.

— O país já elegeu um capitão para presidente. O Rio elegeu um juiz governador. Fala sério! Agora é a vez do povo — disse Benedita no vídeo.

Em entrevista ao GLOBO, Martha afirmou anteriormente que não contava com um gesto de apoio do PT no segundo turno: o núcleo carioca do partido participou dos governos de Paes no município. Nas agendas deste sábado, a candidata estava acompanhada de seu candidato a vice, Anderson Quack (PSB); do ex-ministro Carlos Lupi, presidente nacional do PDT e de outros membros do partido.

Na tentativa de conquistar votos de última hora para disputar uma vaga no segundo turno, Benedita da Silva participou de uma carreata por bairros das Zonas Norte e Oeste da cidade. Em cima de um carro aberto, ao lado de sua vice, a petista passou por bairros como Bonsucesso, Ramos, Olaria, Irajá e Jacarezinho, bem como comunidades do Complexo do Alemão. Uma comitiva com cerca de 40 carros e motos acompanharam a candidata. Antes de iniciar o compromisso, a deputada federal conversou rapidamente com a imprensa:

— Quem vai me colocar no segundo turno vão ser as favelas e as pessoas que querem ver a cidade do Rio unida, as pessoas que querem combater a desigualdade social — disse Benedita.

Ao longo do evento de campanha a candidata não falou ao microfone e não desceu do carro para conversar diretamente com eleitores. O objetivo era não promover aglomerações. Além do encontro com Martha Rocha no Cachambi, Benedita também cruzou com carreatas de candidatos a vereador que disputavam a atenção das pessoas nas ruas. A agenda foi encerrada no início da tarde, quando a candidata seguiu para Realengo, na Zona Oeste, em busca de mais apoios na reta final.

Benedita foi acompanhada por dois colegas de partido: o candidato a vereador Lindbergh Faria (PT), que recorre de uma decisão que o deixou inelegível na última quinta-feira, e de Indianare Siqueira, que também tenta uma vaga na Câmara dos Vereadores.