Na volta da Bundesliga, protestos silenciosos e um novo modo de torcer

Estéfane Padilha, especial para O GLOBO
Torcedores do Colônia ao redor do estádio

COLÔNIA - “Folge dem #Effzeh”: a placa no setor norte do estádio RheinEnergie diz para seguir o Colônia, time da cidade. Poucos, porém, passaram pelo aviso antes da partida do time contra o Mainz, a primeira do retorno da Bundesliga. Apenas 322 profissionais podem estar presentes nos jogos da Bundesliga durante a pandemia do Coronavírus, incluindo jogadores das duas equipes e comissão técnica. Nenhum torcedor é permitido - pelo menos não assumindo tal papel. Os mais fanáticos tiveram outras opções para cumprir o pedido estampado na faixa - fosse acompanhando relativamente de perto ou mais de longe. Em campo, o time parecia igualmente empenhado e até abriu vantagem de 2 a 0, mas deixou os rivais empataram no fim: 2 a 2.

Dentro do estádio, alguns assentos foram cobertos com camisas do clube e até ursos de pelúcia.

Ao longo da semana, a promessa era de temperaturas mais amenas para o domingo, mas desde sexta-feira o sol abriu e aumentou as expectativas para a volta do futebol alemão com dias mais quentes. Até quem não acompanha o esporte alegava: “Só se fala nisso”. No grande dia para o Colônia, 19° com sol brilhando. Para alguns, foi impossível não sair de casa, mesmo com as recomendações da política local e do próprio clube. Na manhã antes do confronto, já se fazia o apelo nas redes sociais: “Nunca se joga sozinho. Apoie o FC de casa. Não venham para o estádio e não se juntem para ver futebol”. Mas nenhuma grande aglomeração foi registrada e, assim, não houve qualquer problema.

No entorno do estádio, alguns grupos se reuniram, mas com distância uns dos outros. A grande área verde em volta do RheinEnergie, já era, afinal, usado como espaço para lazer e prática de esporte mesmo antes da volta do Campeonato Alemão. E foi este o local escolhido por Fabian Rodert e os amigos no domingo de manhã. Antes de ir para um bar por perto acompanhar o jogo pela TV, eles aproveitaram o dia ensolarado em frente ao estádio.

- Queríamos pelo menos ter um pouco o sentimento de estar perto do time. A pessoa se sente melhor quando pode ter esse clima do estádio, que em casa sempre falta - explicou.

O objetivo dos jovens foi alcançado: minutos antes do jogo, as caixas de som do estádio entoavam o hino do clube em volume alto o suficiente para todos ouvirem do lado de fora. Durante a partida, a transmissão na TV também captava sons reproduzindo a torcida - com direito a aplausos e gritos de suporte, ou mesmo vaias, caso algum lance não fosse benéfico para os donos da casa. E até um mosaico foi montado com itens pessoais enviados por torcedores: xales, ursinhos, camisas e souvenires formaram um “FC” ocupando cerca de mil cadeiras. Para os próximos confrontos em casa, contra Fortuna Düsseldorf, RB Leipzig, Union Berlin e Eintracht Frankfurt, os objetos permanecem e ao fim da temporada serão devolvidos a todos, como explicou Marcel Esser, voluntário do Colônia:

- Não pudemos estar presentes nos jogos, arrumamos tudo um dia antes e documentamos quem deu cada item para que todos recebam de volta. Nos últimos dias, foi uma sensação muito especial estar tão sozinho. Era incomum, mas para nós voluntários era bom ter uma amostra da atmosfera.

Mas o clima no domingo não era apenas de um bom convívio. Nem todos pensam igual e alguns torcedores saíram de casa não para mostrar apoio, e sim insatisfação com a Bundesliga. Logo na saída da estação de trem que dá acesso ao estádio, faixas tinham dizeres como “parem as ligas aqui e agora” ou “nosso dinheiro vale mais que a sua saúde: Bundesliga a qualquer preço”. O mesmo podia ser visto no centro da cidade.

Fora ou em casa: todos se sentem seguros

Os bares também estavam movimentados, mas dentro das recomendações de segurança e higiene impostas. Ingo Göbbels aprovou a situação e a possibilidade de ver o time do coração, mas sempre com ressalvas sobre o cuidado a mais que no momento é necessário - ele preferiu até ficar em uma mesa do lado de fora, com mais espaço e menos gente ao redor:

- Não estamos mesmo no bar, então não tem problema (risos). E os jogadores também têm um trabalho e precisam voltar, então acho essa situação toda aceitável. Enquanto for seguro, eles devem, sim, continuar.

Claro que muitos não saíram. Para Ingrid Rey, o mais prudente foi ficar em casa e aproveitar o jogo com o marido. Segundo ela, já era lucro poder acompanhar o time novamente:

- Eu também não teria tido problemas se a temporada tivesse sido cancelada. Como fã de futebol, é melhor que haja jogos, mesmo seja diferente, sem espectadores. Eu posso viver com isso. A saúde é a coisa mais importante.

Alegrias e decepções em campo

O empenho dos torcedores refletiu no começo do confronto. Logo aos seis minutos, Mark Uth abriu o placar, de pênalti. No segundo tempo, Florian Kainz também foi rápido e marcou, aos nove. Mas os visitantes descontaram com Taiwo Awoniyi e Pierre Kunde Malong, aos 16 e 25 da etapa final. Talvez a chamada “partida fantasma” tenha afetado o elenco, afinal.

- Faltou a energia, a atmosfera dos fãs, o que é importante para o futebol - lembra Roder.