Nacionalismo da vacina leva governos a investir para produzir em casa

Caroline Copley e Andreas Rinke
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Funcionário de fábrica de vacina alemã IDT Biologika segura ampola em Dessau

Por Caroline Copley e Andreas Rinke

DESSAU, Alemanha (Reuters) - Na cidade alemã de Dessau, um dos berços da escola de arte Bauhaus, um instituto foi criado em 1921 para a produção em massa de vacinas que mais tarde ajudou a fortalecer a Alemanha Oriental. Exatos 100 anos mais tarde, o local está se preparando para concentrar a produção de vacinas contra Covid-19 para a reação alemã à pandemia.

Trata-se de somente um exemplo de uma série de esforços de governos de todo o mundo para ter acesso a uma produção própria de vacinas, depois que contratempos técnicos privaram membros da União Europeia de imunizantes feitos em seu próprio solo neste ano.

Da Austrália à Tailândia, passando pelo Brasil, países que planejam fábricas de vacina stão começando a reformular o setor.

A empreitada alemã tem apoio do governo regional, parte de um empenho nacional para obter suprimentos e acrescentar vacinas às exportações da Alemanha. O premiê de Saxônia-Anhalt, Reiner Haseloff, disse acreditar que o país pode se tornar um produtor preferencial de vacinas, da mesma maneira que empresas de energia mantêm a capacidade para momentos de grande procura.

"No final das contas, isto é comparável ao setor energético, já que o Estado também paga para manter as usinas de energia em reserva", disse Haseloff à Reuters.

À diferença dos Estados Unidos, onde a Operação Warp Speed do governo começou a financiar a ampliação e a modernização de instalações de fabricação farmacêutica no início da pandemia, poucos países do mundo têm a opção de recrutar fábricas.

A unidade alemã é uma de mais de meia dúzia de governos de todo o planeta que evitam uma escassez apoiando a produção local de farmacêuticas.

Alguns, como Austrália, Brasil, Japão e Tailândia, estão criando parcerias de fabricação com a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca. Já a Itália prometeu apoio estatal a um centro de produção de vacina público-privado, enquanto Áustria, Dinamarca e Israel planejam um fundo conjunto de pesquisa e desenvolvimento e estudarão se produzirão as próximas gerações de suas próprias vacinas.

O acordo brasileiro com a AstraZeneca prevê a produção de doses pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e o Brasil também tem acordo, por meio do Instituto Butantan, com a chinesa Sinovac para a produção em território brasileiro da CoronaVac. Em ambos os casos foram construídas ou reformadas unidades dos institutos para a fabricação dos imunizantes.

No cenário global, a Índia desempenha um papel considerável na produção global de vacinas, e EUA, Japão e Austrália também pretendem ajudar a financiar a capacidade de produção de vacinas em solo indiano, disse uma autoridade norte-americana de alto escalão à Reuters.

As medidas visam enfrentar uma carência global de doses. Como as vacinas são essenciais para se reativar as economias, alguns países têm acordos de pré-compra para garantir seus suprimentos.

A escassez de vacinas na Europa mostra que países que dependem de remessas de multinacionais podem ser vulneráveis. Em janeiro, a AstraZeneca reduziu os suprimentos ao bloco em mais da metade para o primeiro e o segundo trimestres e disse a Bruxelas que não podia desviar remédios feitos na Bélgica que foram separados para o Reino Unido.

O corte elevou as tensões entre Reino Unido e UE, e levou líderes europeus a determinarem limites às exportações de vacinas feitas na UE já neste mês, quando a Itália impediu exportações da vacina da AstraZeneca.

Globalmente, vacinas são fabricadas através das redes existentes de laboratórios e muitas vezes precisam passar por vários países --em diferentes continentes-- para chegar às pessoas. Só dentro da UE, mais de 30 fábricas da Suécia à Espanha estão envolvidas na produção de vacinas contra a Covid-19.

(Por Caroline Copley, em Berlim; Andreas Rinke, em Dessau; e Allison Martell, em Ottawa; Reportagem adicional de Ludwig Burger, em Frankfurt; Douglas Busvine, em Berlim; e Polina Nikolskaya, em Moscou)