Nanini vive João de Deus em série: 'Há personagens com os quais me envolvo. Desse, decidi me afastar'

Numa das cenas mais difíceis de “Os últimos dias em Abadiânia” — série inédita sobre João de Deus —, o autoproclamado médium abusa sexualmente de uma criança. Marco Nanini, a quem coube interpretar esse papel, afirma que foi uma “depressão” rodar sequências do tipo, cautelosamente dirigidas por Marina Person a fim de proteger os atores e atrizes mais jovens.

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— Foi um problema, porque ele é um personagem pesado — ressalta Nanini, protagonista da primeira coprodução internacional do Canal Brasil, uma série em três episódios com previsão de estreia para o segundo semestre. — Há personagens com os quais me envolvo completamente. Dessa vez, decidi me afastar. Foi complicado. Sentia o efeito do peso de estudar aquela figura. Procurei fazer uma coisa serena, para não me envolver tanto.

A narrativa acompanha a história de duas irmãs (interpretadas por Bianca Comparato e Karine Teles) que foram vítimas do criminoso, recentemente condenado a mais de 109 anos de prisão por estupro de vulnerável e violação sexual mediante fraude. À frente do projeto, Marina Person se cercou de uma equipe primordialmente composta por mulheres. Não à toa.

— O olhar feminino é importante ao falar sobre abuso de uma forma respeitosa com as sobreviventes — diz a diretora, que se surpreendeu quando Nanini aceitou prontamente o papel. — Todo mundo tinha certo medo dele (risos). Era como se não pudéssemos vacilar com alguém que é referência para todos nós, sabe? Mas ele era sempre muito brincalhão. Mesmo sendo experiente, demonstrou abertura, querendo entender quais caminhos seguir nesse processo de composição do personagem.

Além de série, peça e filme

“Os últimos dias em Abadiânia” é apenas um dos trabalhos engatilhados pelo ator. Para se manter em plena atividade — um desejo que Nanini reforça, repetidas vezes, nesta entrevista ao GLOBO —, os cuidados com o corpo se tornaram mais frequentes. Em sua casa, há um cômodo especialmente preparado com equipamentos para a prática diária de fisioterapia e pilates.

—Agora tenho um limite. Mas trabalhei muito o corpo (ao longo da carreira), então sei lidar com o envelhecimento, consertar o que é preciso e dar um jeito — sublinha. — O corpo é importante porque é o que sustenta e aguenta as emoções. E as emoções não envelhecem. Elas são as mesmas sempre, e têm que seguir comigo.

Também neste ano, Nanini deve estrear “Traidor”, dramaturgia que Gerald Thomas escreveu especialmente para ele (“Ainda não li, porque ele é muito louco, mas já achei o título bonito, forte”, brinca o ator). E há uma miríade de outras ideias “saltitantes”, como o próprio indica, na mente do artista:

— Estou pesquisando alguns espetáculos que poderia fazer, e que estão na minha cabeça. Teria que adaptar à minha idade. Não posso mais fazer o jovem de 30, 40 anos... Estou montando uma listinha. Quero fazer algum texto de Beckett — adianta ele, que voltará a circular pelo país (a partir de 2 março, no Recife, e depois no Rio, em Brasília, Fortaleza, São Paulo e Curitiba) com “As cadeiras”, projeto audiovisual sob direção de Fernando Libonati baseado na peça de Eugène Ionesco, e rodado ao lado de Camilla Amado, que morreu de câncer em 2021.