Não é curiosa a proposta de tirar "tudo que está aí" para colocar apenas o que ele acredita?

Onde estaria a sua liberdade de pensamento se você deve acreditar apenas no que ele diz? Como pensar o mundo a partir de você - e não dele?

Por Jana Viscardi *


Era apenas um tweet sobre a queda de 24% dos homicídios no Brasil. Mas me levou a pensar em boa parte dos tweets do presidente. Você já deve ter ouvido por aí que Bolsonaro governa pelo Twitter. E mesmo quem venha negar essa afirmação não poderá negar que boa parte da comunicação acontece ali - e nas malfadadas lives no Facebook.

.

Nesta mensagem em que o presidente parece “celebrar” a queda dos homicídios, ele dá uma indireta a quem o critica. Não é a primeira vez que isso acontece. Esse é, na verdade, o modus operandi do presidente nas redes: um eterno ressentimento, ou então fúria e hostilidade. Outra possibilidade: condenar e minar as ideias que não são suas próprias - ou aquelas que coadunam com o que ele pensa e vive.

E é aqui que mora um dos problemas deste governo: colocar no topo de sua agenda a desconfiança a todas as instituições. É uma constante paranóia persecutória. Se já vínhamos vivendo essa desconfiança em nossa sociedade há algum tempo, a eleição foi o lugar de colocá-la ainda mais à prova. Tristemente, o presidente parece ainda em campanha, seguindo o projeto de desconfiar de tudo e todos, de qualquer crítica, de qualquer informação que não seja a que ele produz (e reproduz).

É por isso que seu slogan faz sentido às pessoas: ele quer tirar “tudo isso que está aí”. Se você votou em Bolsonaro, faço aqui um convite: não é curioso tirar exatamente tudo que está aí para colocar apenas o que ELE acredita? Onde estaria a sua liberdade de pensamento se você deve acreditar apenas no que ele diz? Se tudo o que não é o entendimento de mundo dele não deveria existir, como é que você vai pensar o mundo a partir de você - e não dele?

Se as pessoas que hoje se manifestam pela manutenção dos recursos da educação são idiotas inúteis, quem são as pessoas úteis? O que é ser útil a este governo e a este país? As respostas para um Brasil melhor são complexas, difíceis.

Para nós, cidadãos que não ocupam cargos públicos e que não conhecem por completo a máquina pública, pode ser muito frustrante não ser capaz de compreender toda a complexidade do nosso país.

É igualmente frustrante ver a violência seguir desenfreada, o desemprego também.

Mas será mesmo que as ideias de uma única pessoa - e de alguns gatos pingados que ele defende e apoia - irão resolver “tudo isso que está aí”? Não seriam as críticas bem importantes para que a gente possa entender o que houve de bom - e de ruim - em outros governos? Apagar toda a história, a educação, as ideias políticas irá nos “salvar do mal”? E ainda: será que existe esse mal único, representado pelo comunismo, diante de todos nós?

Eu acho que esses argumentos nos cegam. E é isto que quer Bolsonaro e sua turma: que você e eu não pensemos, não critiquemos, não façamos críticas. É difícil e doloroso reconhecer - e viver - as dificuldades do nosso país. Mas me parece improvável que esteja na destruição de ideias - e indivíduos - a solução para tudo o que enfrentamos todos os dias.

Um tweet como o que eu trago aqui pode chamar sua atenção e flertar justamente com sua indignação - pode fazer o presidente parecer tão próximo de você. Mas será que ele está mesmo?

Jana Viscardi é doutora em Linguística pela UNICAMP, com passagem pela UniFreiburg, na Alemanha. Professora e palestrante, faz vídeos semanais sobre linguagem e comunicação (e otras cositas más) no canal do Youtube que leva seu nome.


Leia mais:

“Bolsonaro propõe fim de toda estrutura de participação social na gestão estatal”, diz especialista

Fake news e fundamentalismo como formas de ver o mundo


Silenciar a filosofia é silenciar a democracia

A Era da Pós-verdade e seu antídoto

As mudanças propostas ao Enem refletem a invisibilização de questões sociais


Como combater a ideologia em sala de aula?

Brasil, nada obstante, um país plural


* As opiniões expressas neste artigo não necessariamente refletem o posicionamento do Yahoo, da Oath Inc. ou de seus demais parceiros