Não é só seu filho: professores sofrem com problemas de conexão para dar aula à distância

Anita Efraim
·5 minuto de leitura
COLLEGE, UNIVERSITY TEACHER
Acostumados com contato com alunos e aulas presenciais, professores enfrentam dificuldades na adaptação durante a pandemia (Foto: Getty Creative)

Com a pandemia do novo coronavírus, as aulas presenciais foram paralisadas em todo país. Muito se falou sobre as dificuldades de alunos para acessar os novos sistemas, mas professores também enfrentaram dificuldades.

E nos siga no Google News:

Yahoo Notícias | Yahoo Finanças | Yahoo Esportes | Yahoo Vida e Estilo

Desde dificuldade com tecnologia até falta de internet, são vários os motivos pelos quais os professores se viram prejudicados durante o isolamento social. As incertezas causaram ansiedade, medo e insegurança para muitos profissionais que, até então, desconheciam o conceito de “aula online”.

Acostumada com aulas lúdicas e diferentes, Vitória Saryne é professora de Língua Portuguesa em um colégio particular na capital paulista. Sem experiência com aulas remotas, o dia anterior ao início da modalidade foi de ansiedade e insônia. “Nenhum professor foi preparado para dar aula assim, sem a presença dos alunos”, desabafa. “Além de ficar sentado em uma cadeira o tempo todo, mexendo em uma máquina que não tinha habilidade.”

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

A escola na qual Vitória trabalha, o Colégio Cristão da Penha, enviou vídeos explicando o funcionamento da nova plataforma. “Chorei, fiquei febril, nervosa e passou pela minha cabeça desistir”, assume. No entanto, com a ajuda das filhas, ela está conseguindo se adaptar.

“Precisei muito da ajuda das minhas filhas, para mostrarem onde ligava, como fazia. Comecei a aula e, no primeiro dia, fiquei meio sem graça, totalmente dependente das minhas filhas para usar a plataforma. Depois, consegui, fui pegando o jeito”, relata.

Com maior familiaridade, Vitória conseguiu voltar a ser aquela professora das aulas diferentes, com brincadeiras e formas criativas de entreter os alunos. “No fim, acabei virando exemplo de como estimular os alunos. Até festa junina fiz com eles, da minha própria casa. Com jogos, brincadeiras e usando a língua portuguesa”, conta.

Vitória afirma que o apoio da escola foi muito importante no processo de adaptação. “Sempre me apoiaram, não me aceleraram ou cobrara. Deram o apoio e entenderam a limitação de cada professor”, diz.

PROBLEMAS COM A INTERNET

Luiz Felipe Nascimento, de Taubaté, interior de São Paulo dá aulas de Língua Portuguesa para alunos do Ensino Fundamental II e de Redação para Ensino Médio. Quando percebeu que tudo mudaria com a pandemia, correu para se adaptar: comprou diversos equipamentos para que as transmissões das aulas online tivessem qualidade.

Foram quase R$ 1 mil investidos na adaptação. No entanto, nem isso evitou que ele tivesse problemas. Enquanto os alunos podem manter o microfone fechado, o professor não tem o mesmo privilégio. Na casa dos pais havia muito barulho e em diversas ocasiões ele teve de remontar o estúdio na casa da noiva para fazer as transmissões de aulas ao vivo.

Leia também

Nesse meio tempo ele casou e se mudou. E vieram os três piores dias da pandemia, quando ficou sem acesso à internet. “Mesmo gostando de me precaver, teve três dias que fiquei sem internet na minha casa. Fiquei desesperado, porque não conseguia dar aulas, não conseguia postar vídeos. Só tinha o 4G do celular, que não dá para nada”, relata. “Foram dias de pânico.”

Luiz Felipe contou com a compreensão das escolas nas quais trabalha, que o substituíram durante o período. Os alunos também sempre ajudaram. “Foram sempre compreensivos com problemas, às vezes cai a internet, trava, o aluno não consegue acessar a plataforma.”

Além de possíveis problemas com equipamentos, o professor relata que tem trabalho muito mais neste período e que a rotina é bastante cansativa.

AJUDA A QUEM PRECISA

Desde o início da quarentena, Letícia de Jesus Augusto, de 24 anos, ajuda uma professora idosa na adaptação para dar aulas online. A senhora mora sozinha em Boa Esperança, Minas Gerais, longe da família. Sem pessoas próximas para ajudá-la, ela recorreu a Letícia para conseguir lecionar durante o período de distanciamento social. Letícia não queria cobrar pelo auxílio, mas a professora insistiu em pagar.

Sem formação na área de tecnologia, Letícia tenta ajudar como pode. “Foi muito novo tanto para mim quanto para ela. Eu nunca tinha transmitido nada online e nem tinha experiência com sistema de ensino. Eu faço o que qualquer pessoa leiga faz na internet, mas a intenção sempre foi ajudar”, explica.

A senhora se define como “uma professora de quadro” e nunca tinha tido contato com notebook ou celular. “O início foi muito difícil de adaptar. Não dava certo entrar ao vivo, o equipamento que ela tinha, um notebook, não é muito bom e o meu não tinha câmera”, conta. Assim, elas gravavam as aulas e, depois, subiam os vídeos para os alunos dos cursos de graduação nos quais ela leciona.

A professora comprou um celular novo, o que melhorou a condição das transmissões ao vivo. Ao mesmo tempo, ela sentia falta de conseguir ver os alunos. Elas tentavam insistir no notebook, mas áudio e imagem eram precários, o que gerava reclamações dos estudantes.

Letícia relata que levou mais de um mês para que a senhora conseguisse efetivamente dar as aulas.

Professora em duas instituições, ela recebeu apenas um manual com orientações. Para Letícia, a medida foi insuficiente. “Como ela, que não tem conexão com o mundo tecnológico, ia fazer?”, questiona.

Apesar de todas as dificuldades, o período em que Letícia ajudou a professora mostrou o quanto a senhora era apaixonada pelo ofício. “Mesmo ela sendo ‘atropelada’ pela pandemia e pela tecnologia, eu vi muita boa vontade em fazer o melhor para os alunos. Acho que é um reflexo de todos os professores, porque só assim eu vi o quanto o professor tem trabalho e o quanto está trabalhando nesse momento.”

Siga o Yahoo Notícias no Instagram, Facebook, Twitter e YouTube e aproveite para se logar e deixar aqui abaixo o seu comentário.