Não é “só” trabalho: Ambientes tóxicos podem levar a doenças psicológicas graves

Síndrome do burnout é gerada diretamente por situações ligadas ao trabalho (Imagem: Getty Images)
Síndrome do burnout é gerada diretamente por situações ligadas ao trabalho (Imagem: Getty Images)

Você já acordou com pavor de pensar em ir ao trabalho? A noite de domingo virou um momento de ansiedade, por pensar que em algumas horas a semana recomeça? Nada disso é normal e podem ser sinais de que há algo de errado.

Casos recentes de tentativas de suicídio, uma em um escritório de advocacia em São Paulo, outra no prédio do Ministério Público paulista, levantaram um debate importante: como o trabalho pode afetar a saúde mental de um funcionário.

Viver em um ambiente de trabalho considerado tóxico, ou pouco saudável, pode ser o gatilho para doenças psicológicas graves.

“É o tipo de situação onde você passa a conviver muito intensamente com emoções negativas o tempo todo. Você sente vergonha, tristeza, raiva. E você estar exposto a emoções negativas durante o tempo todo, pode te gerar questões psicológicas, em especial a ansiedade”, explica o psicólogo Cesar Guimarães, Professor da Fecap e Doutor em Psicologia Social do Trabalho pela Universidade de São Paulo (USP).

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) tem um manual chamado “Integração da Promoção da Saúde nas Políticas de Segurança e Saúde no Trabalho”, cujo objetivo é alertar para os ricos do estresse relacionado ao trabalho.

“Nos últimos anos, tem sido crescente a atenção prestada ao impacto de fatores psicossociais no local de trabalho, tanto em países desenvolvidos como em países em desenvolvimento. O estresse no trabalho, esgotamento (burnout), assédio moral (mobbing) e outras formas de violência no trabalho são agora geralmente reconhecidos como questões globais, que afetam todos os países, todas as profissões e todos os trabalhadores”, alerta a instituição.

Segundo a OIT, evidências científicas mostram que o estresse relacionado ao trabalho pode gerar diversas doenças, com consequências físicas e psicológicas, desde hipertensão e problemas cardiovasculares até o abuso de drogas, depressão e mesmo suicídio.

A doença ligada ao trabalho tem nome: burnout, conhecida também como Síndrome Síndrome do Esgotamento Profissional.

Flávia Teixeira, psicóloga e mestre em Saúde Coletiva, explica que o burnout leva diretamente a questões emocionais, como alta irritabilidade, mudança de humor com muita facilidade e também perda de apetite. “É preciso checar até que ponto aqueles sintomas estão ligados ao trabalho, se realmente é um burnout para que a pessoa possa tratar as questões físicas, porque tem uma repercussão muito forte no corpo da pessoa”, alerta.

“Aos primeiros sinais de que algo não está indo bem, de sintomas físicos, de mal estar, perda de apetite, falta de vontade de fazer as coisas, falta de vontade de ir ao trabalho, é porque tem algo acontecendo. É importante buscar um clínico, seu médico de confiança e expressar que tem algo acontecendo, conversar com alguém próximo, não se isolar. Sempre buscar a troca com alguém, falar do que está sentindo. O isolamento é um ponto de risco muito grande para alguém adoecer ou aumento do adoecimento”, diz a psicóloga.

Ambiente tóxico

Um ambiente tóxico de trabalho pode se caracterizar por diversos motivos: acúmulo grande de trabalho, abusos verbais, assédio moral, incitação de alta competitividade entre os funcionários, cobranças desproporcionais e até “chantagens” feitas pelos chefes aos funcionários.

“A questão do assédio, existem por exemplo chefias que incitam mais uma competitividade muito grande, diminuem a pessoa, nunca está bom o que a pessoa faz, sempre poderia estar melhor, sempre faz uma pressão muito grande na pessoa, aquela situação meio velada de chantagem, fica aquele jogo de que aquela pessoa vai sofrer algumas punições se ela não conseguir chegar a um determinado objetivo”, explica Flávia Teixeira.

“E a pessoa usando muito do poder, abusando do poder, tem as piadinhas, as indiretas. Quando a pessoa começa a se sentir muito acuada dentro desse ambiente, ela começa a não querer ir ao trabalho, ter dificuldade para dormir ou para acordar, ter uma irritabilidade muito grande dentro do ambiente do trabalho. Ela fica com uma sensação de estar sendo perseguida, são sentimentos persecutórios.”

Quando o ambiente de trabalho causa tamanho nível de estresse, não é necessário ter “algo mais” acontecendo. O ambiente laboral é o motivo de ansiedade e, assim, da síndrome de burnout.

“Só” trabalho

Tanto Cesar Guimarães quanto Flávia Teixeira alertam que o trabalho quase nunca é “só” trabalho e, pelo peso na vida de uma pessoa, este poderia, sim, ser o principal motivo de uma doença psicológica mais séria.

Sem acompanhamento ou tratamento adequado, em casos mais graves, o burnout pode resultar em tentativa de suicídio.

“A pessoa pode se sentir em uma enrascada tão grande no trabalho, se sente mal de abandonar o trabalho, ter consequências na vida dela, não conseguir alimentar mais a família, o trabalho tem uma função econômica e simbólica importantes”, explica Cesar Guimarães. “O trabalho tem uma parte central pela nossa cultura capitalista, existe uma ética do trabalho de que quem não trabalha muito não merece viver”, explica Cesar Guimarães.

Flávia acredita que, cada vez mais, empresas estão mais preocupadas com situações do tipo, em especial pela questão da pandemia.

E é possível reverter o burnout? “Acho difícil dar uma resposta certeira quando estamos falando dessa questão, mas podemos pensar que dependendo do nível, da gravidade, sim, se você logo no início buscar um acompanhamento, as pessoas em volta perceberem mudanças, o próprio ambiente, se tiver pessoas que podem te acolher, te ajudar, acho que sim (é possível reverter). Agora, tem casos que a pessoa precisa se afastar e, em alguns casos, as pessoas não conseguem nem retornar ao trabalho”, explica. A palavra, diz a psicóloga, para enfrentar um quadro de burnout é “acolhimento”.