'Não falavam com o que era feito a inalação', diz filha de paciente morta tratada com nebulização de hidroxicloroquina

Redação Notícias
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Hospital de Itacoatiara (Foto: Reprodução/Rede Amazônica)
Hospital de Itacoatiara (Foto: Reprodução/Rede Amazônica)
  • Um idosa de 71 anos morreu, em decorrência da Covid-19, e família descobriu que ela foi medicada com nebulização de hidroxicloroquina sem autorização

  • A Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, vinculada ao Ministério da Saúde, informou que considera o tratamento experimento clandestino e sem autorização legal

  • Recentemente, o método foi exaltado pelo presidente Jair Bolsonaro

Um idosa de 71 anos morreu, em decorrência de complicações da Covid-19, após mais de um mês internada em Itacoatiara, no interior do Amazonas. Acontece que, depois da morte, a filha da idosa descobriu que a mãe foi tratada com nebulização de hidroxicloroquina — procedimento que não tem eficácia comprovada no combate à Covid-19 — sem autorização dos familiares.

"Eu só me atentei sobre a questão desse medicamento quando eu assisti a uma reportagem falando sobre o uso da hidroxicloroquina, a inalação e quais eram os sintomas que a pessoa sentia, o que provocava isso. Eu me lembrei exatamente de como a minha mãe ficou no hospital", contou a filha, que não quis ser identificada, ao G1.

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Segundo ela, além de realizar o tratamento sem o consentimento da família ou da paciente, o hospital não informava qual era o tipo de inalação que a idosa estava fazendo. Ao serem questionados, os médicos apenas dizem que era "inalação".

"Eles faziam a inalação, mas apenas diziam que era inalação, não falavam com o que era feito a inalação. Falavam que ela tinha que fazer inalação com a máscara de bipap, que iria ajudar o pulmão dela, mas em nenhum momento foi nos informado com o que era feito essa inalação", disse a filha.

A nebulização da hidroxicloroquina, uma variante da cloroquina, á é um tratamento suspeito de ter causado mortes na Região Sul do país. Recentemente, o método foi exaltado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em uma das suas lives semanais.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) ainda ressalta que o tratamento experimental baseado no medicamento ineficaz contra o novo coronavírus pode gerar reações adversas.

A Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), vinculada ao Ministério da Saúde, afirmou que considera o tratamento realizado com cloroquina nebulizada em pacientes internados com Covid-19 em Manaus um experimento clandestino e sem autorização legal. 

Em nota ao G1, o órgão faz menção indireta às pesquisas com cobaias no nazismo.

Aceleração cardíacada deve ser "ansiedade", disse o médico

A idosa ficou internada em uma unidade de saúde da cidade do interiror por mais de um mês. Em seguida, ela chegou a ser transferida para atendimento em Manaus, na capital do estado, onde ficou três dias, mas não resistiu.

Segundo a filha da paciente, a mãe apresentou sintomas da Covid-19 e, até então, o estado de saúde dela não parecia tão grave.

"Um dos médicos falou que ela tinha que se tratar ali mesmo, em Itacoatiara, pois não tinha condições de ir para Manaus. Mas vimos que o caso dela somente piorava", disse a filha.

De acordo com a filha da idosa, um médico chegou a dizer que o batimento cardíaco acelerado era reação "normal" durante o tratamento e que "provavelmente, a paciente estava problema psicológicos, como ansiedade".

"O médico me disse: 'Isso é normal, é por causa da máscara, é super normal. Ela está bem, ela é uma incógnita para gente'. Era o que ele me falava. Mas eu vi a minha mãe com presença de sangue na urina e pensei: 'isso não está certo, o que está acontecendo?'. E insistiam em dizer que estava tudo normal", contou a filha.

Segundo especialistas, medicar pacientes com hidroxicloroquina sem autorização pode levar o profissional a responder processos éticos no Conselho Federal de Medicina (CFM).

Prescrição de nebulização de hidroxicloroquina para paciente internada em Itacoatiara, no Amazonas (Foto: Reprodução)
Prescrição de nebulização de hidroxicloroquina para paciente internada em Itacoatiara, no Amazonas (Foto: Reprodução)

O prontuário da paciente

A filha afirmou ao G1 que não houve autorização da família para esse tipo de tratamento e só descobriu que a idosa recebeu o medicamento após pedir o prontuário médico. O caso foi denunciado para a polícia.

A Secretaria de Saúde do Amazonas informou que "não compactua com a prática de qualquer terapêutica experimental sem comprovação científica. Ao tomar conhecimento, a SES-AM encaminhou ofício ao município solicitando que abra processo administrativo para apurar o caso, tendo em vista que Itacoatiara tem gestão plena em saúde e irá acompanhar o processo."

A reeportagem tentou contato por telefone com o delegado responsável pelo caso, com o prefeito do município para mais detalhes sobre o ocorrido e com a equipe médica responsável pela aplicação do medicamento, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

"Eu nunca me conformei com o estado em que ela ficou, e pelo fato de eu não ter uma resposta do que estava acontecendo com ela. Aqui não tem boletim médico, não explicam como está o paciente, e você ver o paciente morrendo no leito. Foi quando eu resolvi pedir a cópia do prontuário. Olhei o prontuário, vi que em vários dias teve a inalação com hidroxicloroquina, em torno de 10 dias mais ou menos", contou.

Segundo o G1, a denúncia foi feita no dia 23 de abril, última sexta-feira. A filha disse que vai aguardar a investigação policial e vai solicitar ajuda ao Ministério Público (MP) do município.

Nebulização na maternidade e morte 27 dias depois do parto

Não é a primeira vez que uma paciente morre após ser nebulizada com hidroxicloroquina no Amazonas. Após passar por um parto de emergência em meados de fevereiro, Jucicleia de Sousa Lira, 33 anos, seguiu lutando contra a Covid-19 no IMDL (Instituto da Mulher e Maternidade Dona Lindu), hospital público estadual em Manaus. 

Cleisson Oliveira, 30 anos, pai da criança, já apreensivo com a situação da esposa levou um susto ao vê-la recebendo um tratamento inusitado.

De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, que apurou e noticiou a história, Cleisson recebeu imagens da esposa durante uma sessão de nebulização de hidroxicloroquina, procedimento que não tem eficácia comprovada no combate à Covid-19.

Segundo traz o jornal, Jucicleia só piorou depois de receber a nebulização, até que no início de março, a técnica em radiologia faleceu 27 dias após o nascimento do primeiro filho. De acordo com a Folha de S. Paulo, o hospital informou à família que a causa foi infecção generalizada em decorrência da Covid-19.

Brazil's President Jair Bolsonaro listens during a presentation at the Planalto Presidential Palace in Brasilia, Brazil, Monday, Oct. 19, 2020. The Brazilian government announced the results of clinical tests with use of the drug Nitazoxanide for COVID-19 treatment. (AP Photo/Eraldo Peres)
Recentemente, o método foi exaltado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em uma das suas lives semanais (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

Médica ignorou o protocolo

A ginecologista e obstetra paulistana Michelle Chechter é a responsável pela nebulização da hidroxicloroquina. Ela atuou na capital amazonense com o marido, o também médico Gustavo Maximiliano Dutra. A paulistana foi a autora das imagens da sessão de Jucicleia recebeu o tratamento.

O viúvo garante não ter sido avisado, durante as conversas no hospital com a doutora Chechter, sobre a nebulização ou o vídeo.

Ele só descobriu que a esposa havia assinado uma autorização ao ser informado pela Folha, em 8 de abril. São três parágrafos curtos com quatro erros gramaticais e de grafia. No documento, a paciente dá aval ao tratamento e autoriza o uso do depoimento gravado na UTI, além do relato do casa em uma revista científica.

A doutora foi procurada pelo jornal no Centro Médico Mazzei, em São Paulo, onde trabalha. A resposta veio por meio de uma mensagem de uma funcionária que afirmou: "Dra Michelle disse para deixar assim mesmo porque no momento ela está sem tempo”.

Nebulização de hidroxicloroquina na Região Sul

Até março, três pacientes com Covid-19 medicados com hidroxicloroquina inalável morreram em Camaquã, no Rio Grande do Sul. O tratamento experimental, que é feito por meio da nebulização da droga diluída em soro fisiológico, foi defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em uma live na semana passada.

De acordo com o portal gaúcho GZH, o Hopistal Nossa Senhora Aparecida, onde os pacientes estavam internados, ainda não confirma que as mortes têm conexão direta com o tratamento alternativo. No entanto, os enfermos, que tinham estados clínicos graves e estáveis, morreram após o início da nebulização.

"Não verificamos que a nebulização esteja contribuindo para melhorar o desfecho dos pacientes. Os indícios sugerem que está contribuindo para a piora porque todos os casos (de óbito) apresentaram reações adversas após o procedimento", disse Tiago Bonilha de Souza, médico e diretor-técnico do hospital ao GZH.