"Não gosto de definir o mundo em esquerda e direita": dois anos depois, quem é e o que quer Tabata Amaral

Anita Efraim
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(EVARISTO SA/AFP/Getty Images)
Deputada Tabata Amaral está no cargo há dois anos (Foto: EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

Tabata Amaral foi eleita deputada federal em 2018, sendo a 6ª mais votada por São Paulo, com mais de 256 mil votos. Muito conhecida pela pauta da educação e da democratização do conhecimento e filiada do PDT, de Ciro Gomes, Tabata era entendida por muitos como um expoente da nova esquerda.

A parlamentar cresceu na periferia de São Paulo e tem como principal bandeira a educação. Dois anos depois de ter sido eleita, ela continua vendo na área seu grande tema de atuação e não tem medo de se colocar como progressista, já que a diminuição da desigualdade é um dos assuntos mais relevantes para ela. No entanto, pela vivência, ela diminui a relevância da divisão entre esquerda e direita.

“Eu sempre fui muito crítica, e acho que essa crítica tem a ver com eu vir da periferia, a resumirmos o mundo a esquerda e direita. Tem um comentário que eu ouvi durante a campanha, mas me lembro todos os dias, foi o Toni, companheiro da minha mãe, um sergipano super do bem, muito arretado, que me perguntou no final da campanha o que era essa tal de esquerda e direita que eu tanto falava. Porque, para quem está na ponta, isso não leva a nada”, afirma.

É comum nas redes sociais que quem refute a relevância da divisão entre esquerda e direita seja automaticamente chamado de “isentão” ou seja acusado de estar em cima do muro. Tabata nega ser qualquer uma das duas coisas. Ela avalia ter posicionamentos fortes e diz que “isentona” é a última coisa da qual podem chama-la.

Justamente por ter sido compreendida como uma política de esquerda, a deputada foi alvo de duras críticas ao votar pela Reforma da Previdência em 2019 e, mais recentemente, por apoiar o projeto de independência do Banco Central. Pelo apoio a mudança no sistema previdenciário há quase dois, Tabata recebeu ameaças de expulsão do PDT e, recentemente, entrou com um pedido no Supremo Tribunal Federal para sair da legenda.

Sobre o partido, ela garante que vai tentar se reeleger para o posto de deputada federal em 2022, mas por outra legenda. “Entendo que consigo ainda trabalhar muito pela educação aqui [no Congresso], que meu lugar na luta pela educação ainda é no Congresso. Não será pelo PDT por 10 mil razões que eu poderia listar”, diz.

O principal motivo, diz, é ter sentido que o partido colaborou para as ameaças feitas contra ela, especialmente em momentos cruciais de discordância, como a questão da Previdência e do Banco Central. “Não há espaço para construir em um lugar como esse, em que a discordância não é tolerada quando ela vem de uma mulher jovem”, afirma.

Sobre os votos, Tabata explica que constrói seus posicionamentos baseada em estudos, leva horas pesquisando os temas, embasando o voto e tenta fazer um vídeo explicando, de forma simples, o posicionamento. Sobre o Banco Central, ela concorda com tantos que disseram que o tema não deveria ter entrado na pauta em um momento como o que o Brasil enfrenta, mas, a partir do momento em que teria de ser votado, precisou construir uma opinião. Votou a favor por entender que faz parte de uma ideia moderna de economia, entre outros motivos.

Apesar da explicação feita nas redes sociais, nada impediu que ela fosse atacada por opositores. “O que acontece no Twitter em meio a essa polarização toda: você tem expoentes dos dois lados que precisam dessa polarização, que se alimentam desse ódio, que precisam dessa máquina rodando, que mentem, contribuem para essa polarização, mas colocam jargões e são incendiárias e, por trás disso, tem esse efeito manada”, avalia.

Outro aspecto ressaltado pela deputada é que, dada a alta rejeição do governo Bolsonaro, tudo que parte do poder executivo é ruim e tudo que sai da oposição é bom. E ela discorda.

Também favorável à reforma da Previdência, após estudar sobre o tema e formar uma posição, ela assume que não está no espectro da chamada “esquerda clássica” quando o tema é economia. “Sobre a previdência, eu entendi que essas políticas eram importantes para o combate à desigualdade e para o desenvolvimento da economia que, por sua vez, é importante para o combate à pobreza”, argumenta.

A parlamentar classifica a visão econômica que tem como de centro, por isso, acredita que está no espectro da centro-esquerda.

ELEIÇÃO EM 2022

Mesmo com votos a favor de temas propostos pelo governo, Tabata não deixa de se considerar parte da oposição ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Para 2022, ela se diz muito preocupada, mas tem clareza: não quer participar nem do projeto bolsonarista, nem do projeto do PT, cujo candidato pode ser, novamente, Fernando Haddad.

“Acredito que foi essa polarização que nos trouxe até aqui. Então, estou trabalhando para que a gente tenha uma alternativa viável a esses dois projetos”, explica. Essa tentativa de criar uma “terceira via” será determinante para que a deputada escolha para qual partido irá até a próxima eleição. Questionada sobre alternativas, ela diz que não pode apontar sequer duas opções, porque está longe de qualquer definição.

Tabata Amaral apoiou a candidatura de João Campos (PSB), namorado da parlamentar, nas eleições municipais. E também foi “madrinha” política de Malu Molina (Cidadania), durante a campanha para vereadora em São Paulo. Ela nega que essa proximidade com qualquer um dos dois seja motivo para pensar nas legendas das quais fazem parte. “Hoje eu não consigo trazer nada mais concreto, até porque eu acho que pessoas que estão há política há muito mais tempo que eu estão tendo muita dificuldade de entender o que está acontecendo. As coisas estão muito bagunçadas ainda.”

Questionada sobre a possibilidade de Ciro Gomes, do PDT, ser essa terceira via, Tabata afirma que gostaria de algo novo para impedir uma repetição de 2018. Ainda assim, caso fosse uma opção entre Haddad e Bolsonaro, votaria em Ciro Gomes.

EDUCAÇÃO E GOVERNO BOLSONARO

Sobre o governo Jair Bolsonaro, as críticas são focadas especialmente na questão da educação. A avaliação da deputada é que, durante o primeiro ano de governo, o Ministério da Educação foi usado para divulgar pautas ideológicas, não ligadas a educação. Depois, quando o atual ministro, Milton Ribeiro, esse aspecto diminuiu – o que não quer dizer que o trabalho da pasta tenha melhorado.

Tabata acredita que a pandemia expos e aprofundou as mazelas e desigualdades que já marcavam o sistema educacional brasileira. “Nenhum dos problemas que estamos enfrentando, ou as consequências deles, são exatamente novos. Quando a gente fala do aumento da evasão, do desalento que está tomando conta dos nossos jovens, dos problemas relacionados a saúde mental, da desigualdade que fica tão exposta na pandemia, com alunos que não tem acesso à internet, um canto para trabalhar, que tem que ir para rua para ajudar seus pais, tudo isso fica mais exposto e mais profundo”, aponta.

“A frase mais simbólica do ministro atual é quando ele diz em resposta a um requerimento de informação, em uma reunião, que esse problema [da educação na pandemia] não é de responsabilidade do MEC. E eu li isso muitas vezes. Me preocupa muito. Se o MEC entende erroneamente que não é seu papel coordenar os esforços na pandemia, apoiar as redes que mais precisam, de quem é a responsabilidade, então?”, questiona.

Para ela, o Brasil teve muito azar de viver uma situação tão complexa, como a pandemia do coronavírus, com Bolsonaro no poder.

“Eu digo brincando que eu só conheço a experiência de atuar na política de agora, eu não sei como era antes, porque eu sequer tinha uma vida partidária e não participava da política. Mas agora, sendo sincera e sem nenhum tom de brincadeira: é um grande azar para o Brasil, não para mim. Porque eu sou ativista de educação no final do dia. Eu sou muito grata por estar em um lugar em que eu consigo ver o meu propósito avançando. Poxa, ter um trabalho que te move é um privilégio muito grande, como esse trabalho me move. Mas é um azar para o Brasil, um Brasil já tão desigual, com uma educação tão desigual, com alunos que já estavam muito desesperançosos, diante de uma pandemia tem um líder que, se fizermos um paralelo com uma guerra, está disposto a sacrificar parte de sua tropa.”

ATAQUES E REDES SOCIAIS

Entendida por muitos em 2018 como uma jovem de esquerda, a frustração fez com que eleitores de Tabata Amaral, ao lado de opositores, passassem a atacar a parlamentar nas redes sociais.

“Eu faço terapia, faço aula de canto, converso com meus amigos, porque não é simples. Eu tomei um posicionamento técnico [sobre o Banco Central e Reforça da Previdência] e do dia para a noite eu começo a ser ameaçada, inclusive por pessoas que são do meu partido e não tem nem receio de me marcar e falar que eu deveria ser fuzilada, de que estão mandando um veneno para mim, me chamam de puta para baixo”, desabafa. “É muito pesado, porque é na física, é sobre o meu corpo, sobre a minha vida. Você vai aprendendo. O que eu sempre penso: está no pacote de ser deputada federal ser criticada pelas pessoas, mas não deveria estar no pacote que eu receba ameaças de morte, que eu seja ofendida com tanta força, que as pessoas mintam descaradamente sobre mim e sobre meus posicionamentos.”

Em dois anos convivendo diariamente com o ambiente parlamentar, Tabata afirma ter aprendido melhor a lidar, mas continua sem considerar que os ataques sejam normais. A deputada acredita estar mais madura e segura de seus posicionamentos. Se pudesse escolher uma palavra para definir a si mesma, seria resiliente. “E vou continuar achando que as ameaças e os abusos não cabem na política, não tem nada de normal nisso. E a gente vai trabalhar para mudar essa situação um dia.”