"Não Olhe Para Cima" é um live-action de tweets sagazes e memes de WhatsApp

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Adam McKay faz paródia do absurdo ao mesmo tempo que conta fatos históricos de relevância grandiosa. Foi assim com A Grande Aposta, sobre a crise de 2008, e também com Vice, sobre os meandros do governo Bush. 

Agora, pela primeira vez na Netflix, o diretor faz piada com o negacionismo que assola o mundo em "Não Olhe Para Cima", e transforma em caricaturas personalidades da mídia, da população e do governo Trump. Uma pena, porém, que McKay aqui não possua um texto tão atemporal como em Grande Aposta ou ácido como em Vice; a paródia dos absurdos aqui não são mais engraçados do que uma astuta thread no Twitter ou figurinhas de WhatsApp.

A sensação, na verdade, é de que o filme inteiro se baseou em uma constante atualização de timeline de redes sociais, tão previsíveis e exageradas são as tentativas de se parecer crítico e inteligente 100% do tempo. 

E como qualquer coisa em redes sociais hoje em dia, basta o próximo meme para o texto soar datado - e é exatamente isso que acontece com "Não Olhe Para Cima", o problema é que o meme seguinte é o nosso cotidiano. Ainda que seja assustadoramente engraçado ver o perverso personagem de Jonah Hill tratar vidas como um pedaço de papel, não há muito o que tirar do roteiro além da superficialidade dos impropérios desferidos por quase todo o elenco.

À parte esta tentativa de análise do ambiente social atual, o longa se esforça bem para abraçar todo tema possível dentro do âmbito de discussões recentes na internet. Negacionismo, religião, mercado financeiro, nepotismo, tecnologia, big techs e tudo mais que você imaginar, e que pipocará na sua timeline mais próxima. Por isso, mesmo os protagonistas vividos por Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence, parecem perdidos num furacão de assuntos que nem eles mesmos conseguem acompanhar e sempre são engolidos pelo próximo indivíduo egoísta e falso que aparece na tela.

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Se partisse para este lado, onde não há entendimento do que é real ou ficção, talvez Não Olhe Para Cima funcionasse como Grande Aposta, que abraça o teatral para entender a partir de uma crise como o ser humano age em pânico. A escolha de McKay, porém, é apostar mais no sentimentalismo e misturar isso com a vilanização dos óbvios antagonistas, finalizando alguns de seus destinos com cenas dignas de um filme de Adam Sandler e Cia. Dava para fazer mais que isso.

*Thiago Romariz é jornalista, professor, criador de conteúdo e atualmente head de conteúdo e PR do EBANX. Omelete, The Enemy, CCXP, RP1 Comunicação, Capitare, RedeTV, ESPN Brasil e Correio Braziliense são algumas das empresas no currículo. Em 2019, foi eleito pelo LinkedIn como um dos profissionais de destaque no Brasil no prêmio Top Voice

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