Não os vejo, nem os escuto

Foto: EBC

 

Agora observo as ruas vazias

Não há músicas, danças, alegorias

Coreografias

De repente, tão de repente, um silêncio devoluto

Já não os vejo, nem os escuto

 

Onde estão as detenções, as conduções, as coerções, as manifestações?

Subitamente, restaram apenas convicções

E orações

Presunções, suposições, delações, powerpoint e jejum absoluto

Eu não os vejo, nem os escuto

 

Por que se escondem? Por que se calam?

Íntegros, moralistas e legalistas nesta hora apenas param

E já não falam

Todos sumiram, não há ninguém, nenhuma sombra, tampouco um vulto

Não, eu não os vejo, nem os escuto

 

Andavam informados, indignados, revoltados, inconformados

Estão quietos, mudos, fechados, calados

Amuados

Não ouço fogos, não ouço gritos, está tudo muito confuso

Já não os vejo, nem os escuto

 

Desfilavam de verde, de amarelo, hasteavam a bandeira nacional

Símbolo do amor à pátria, de um nacionalismo sem igual

Incondicional

Hoje vendem a terra, a água e o óleo, entregam tudo

Eu não os vejo, nem os escuto

 

Se diziam apartidários, imparciais, desapaixonados

Novos heróis, festa no prostíbulo, na parede seus retratos

Caricatos

Mudam a lei, cortam direitos, transformam o que é justo em injusto

Já não os vejo, nem os escuto

 

Havia panelas, bandeiras, cartazes contra corrupção

Bradavam pela moral, pela ética, clamavam por saúde e educação

Mera ilusão

Já não há vigília, zelo e desvelo,o país está em luto

Ó, meu Deus, eu não os vejo, nem os escuto

 

Onde ficaram a razão, a emoção, a compaixão, a determinação?

Livraram os ratos, as quadrilhas, os bandidos que comandam a nação

Tosca armação

Onde estão as pessoas, os patos, os bonecos? Não há nada, não há ninguém

Não os vejo nem os escuto, mas os conheço muito bem.

 

Tiago Muniz Cavalcanti não é poeta, é um democrata.