"Não parece com nazismo, é nazismo", diz professor sobre "câmara de gás" da PRF

Morte de Genivaldo de Jesus Santos levou a comparações com práticas nazistas, como o uso de câmaras de gás para assassinar vítimas (Foto: Getty Images)
Morte de Genivaldo de Jesus Santos levou a comparações com práticas nazistas, como o uso de câmaras de gás para assassinar vítimas (Foto: Getty Images)

Desde a revelação da notícia de que Genivaldo de Jesus Santos, de 38 anos, foi morto dentro do porta mala de um carro da Polícia Rodoviária Federal, a opinião pública passou a relacionar o caso com a prática nazista de matar pessoas em câmaras de gás.

Um laudo do Instituto Médico Legal confirmou que a morte de Genivaldo, um homem negro com transtornos psiquiátricos, morreu de asfixia mecânica e insuficiência respiratória aguda.

As imagens da fumaça saindo da traseira do carro levaram a comparações entre a política da polícia e o nazismo. Michel Gherman, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da UFRJ, assessor do Instituto Brasil-Israel e professor de sociologia, confirma a percepção e a relação feita entre o passado e o episódio da última quarta-feira (26).

“Não é que parece com o nazismo, em termos de prática de assassinato, é nazismo. Se usou exatamente a mesma forma de matar que o nazismo tinha”, afirma.

Câmara de gás ainda conservada em Auschwitz, na Polônia (Foto: Francois LOCHON/Gamma-Rapho via Getty Images)
Câmara de gás ainda conservada em Auschwitz, na Polônia (Foto: Francois LOCHON/Gamma-Rapho via Getty Images)

Gherman afirma que o nazismo tem como prática o extermínio de uma população não desejável. O professor lembra que, inicialmente, isso era feito com tiros de armas de fogo, o que não dava conta da demanda. O segundo passo foi colocar o escapamento de caminhões para dentro da caçamba, matando as vítimas asfixiadas. No auge da tecnologia nazistas, vieram as câmaras de gás, onde o Zyklon B era usado para matar as vítimas do regime de Adolf Hitler.

“Aqui, não precisamos ter muita imaginação, só precisamos localizar que essa era uma das ferramentas usadas pelo nazismo”, pontua o professor.

Majoritariamente, as vítimas do nazismo foram os judeus. Mas eles não foram os únicos, tampouco os primeiros. Ainda em 1935, os primeiros a serem mortos pelo regime nazista foram aqueles com deficiência física ou mental – levando a mais uma comparação com o caso que ocorreu no Sergipe. A prática só foi interrompida após interveção da igreja católica.

Gramática nazista

Zyklon B era usado por nazistas em câmaras de gás para matar pessoas (Foto: JOHN MACDOUGALL/AFP via Getty Images)
Zyklon B era usado por nazistas em câmaras de gás para matar pessoas (Foto: JOHN MACDOUGALL/AFP via Getty Images)

Michel Gherman adota uma expressão que é a de “gramática nazista”. “Há a construção de uma gramática, uma forma de ler o mundo”, explica. Neste sentido, o professor explica que há uma relação indireta entre o governo de Jair Bolsonaro (PL) com a violência policial ocorrida em Sergipe, que levou à morte de Genivaldo de Jesus Santos.

“Não foi Bolsonaro que decidiu colocar Genivaldo na câmara de gás, mas é um erro acreditar que Hitler estava envolvido em todas as decisões do Holocausto. Em algum sentido, tal qual os comandantes de Hitler, alguns policiais querem ser mais bolsonaristas do que Bolsonaro. Não é que Bolsonaro está envolvido diretamente, mas ele está produzindo uma cultura brutal, que leva a uma câmara de gás em meio a uma grande cidade brasileira”, avalia.

Gherman lembra do caso de Adolf Eichmann, general nazista que teve um dos mais famosos julgamentos após o fim do regime de Hitler. Ele era conhecido como um burocrata. “O líder cria a gramática, Eichmann coloca a gramática em prática.”