"Não vai ser fácil tirar Bolsonaro do segundo turno"

Pablo Kennedy/Futura Press

Por José Antonio Lima (@zeantoniolima)

No último dia 8 de junho, esta coluna discutiu a estratégia de Geraldo Alckmin, candidato do PSDB à Presidência, para roubar votos de Jair Bolsonaro (PSL). O diagnóstico do texto (“Alckmin acerta ao ter Bolsonaro como alvo”) era de que o tucano estava correto ao abandonar a fantasia de ser um “centrista” para se dedicar ao que realmente é: um homem de direita, talvez centro-direita, que disputa muitos eleitores com o extremismo de Bolsonaro. Essa dinâmica será crucial para definir eleições, e Alckmin deve se preparar para a grande força do apoio a Bolsonaro.

Diagnosticar a relevância do candidato do PSL no cenário atual é um trabalho que sociólogos e cientistas políticos levarão anos para concluir. Hoje, parece razoável atribuir a popularidade de Bolsonaro a fatores como o desgaste da classe política, a indignação com a corrupção, a crise na segurança pública e a proeminência recente das Forças Armadas. Tudo isso deriva de uma desilusão com o processo democrático, tema tratado em coluna de 30 de maio (“Intervenção militar é golpe. Mas o que há por trás deste clamor?”), que também discute as repercussões eleitorais deste problema.

Essa desilusão, uma tendência mundial, foi vista na eleição de Donald Trump, nos EUA, e no Brexit, no Reino Unido. Comparar Bolsonaro com o presidente dos Estados Unidos talvez seja fora de propósito em muitas situações, mas em ao menos um aspecto ambos são parecidos: eles conseguem de alguma forma personificar este sentimento difuso de desilusão.

Nos EUA, a grande imprensa se lastima hoje por ter feito uma cobertura sensacionalista de Trump quando ele surgiu, o que ajudou o empresário a se tornar o fenômeno que é. Muitos jornalistas lamentam, também, o fato de terem retratado os eleitores de Trump como um bando irracional de racistas, sem atentar para as demandas legítimas que muitos deles por ventura tinham.

Isso contribuiu para que a imprensa local perdesse interlocução com os eleitores: por mais que houvesse situações negativas contra Trump, a divulgação delas pelos veículos de comunicação simplesmente não surtia nenhum efeito: ele tinha uma espécie de “proteção de teflon” que o tornava imune a críticas diante de seus apoiadores: nada grudava nele.

No caso de Bolsonaro, ainda é cedo para dizer que o mesmo ocorrerá, mas a possibilidade é real, pois seus eleitores parecem ser extremamente fiéis. É fácil verificar isso, por exemplo, acompanhando grupos de WhatsApp de seus apoiadores.

Por motivos profissionais, este autor tem observado quatro desses grupos e ali é possível ver como o candidato do PSL é tratado como um símbolo, não por suas propostas, mas pelo que supostamente representa. “Graças a Deus, muito em breve teremos moral neste país”, escreveu um eleitor do interior de São Paulo após o general Mourão ser indicado como vice na chapa do PSL. “Bolsonaro pensa com a cabeça, e não por apadrinhamento como ocorre hoje, tudo por interesse da organização criminosa”, completa.

“De minha parte quero um presidente honesto e com valores tradicionais e bem sedimentados”, escreveu um homem de São Paulo ao tecer comentários sobre os postulantes ao cargo. Os comentários racistas e machistas feitos por Bolsonaro ao longo de sua carreira, quando não elogiados, são largamente ignorados. O espírito pode ser resumido pelo comentário feito nesta semana pelo músico Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, muito ativo no debate político nas redes sociais: “Não quero casar com Bolsonaro, mas é a única chance de mudar”, disse ele.

Bolsonaro é ainda apresentado nos grupos como vítima da imprensa, que “esconde a real situação do mito” nas pesquisas eleitorais. A tensa participação de Bolsonaro no programa Roda Viva, da TV Cultura, foi recebida entre seus apoiadores com indignação diante das perguntas e da postura “agressiva” dos jornalistas. Ataques aos entrevistadores se tornaram comuns.

Ao participar, na última sexta-feira, de entrevista na GloboNews, Bolsonaro teve novamente seu desempenho elogiado por seus apoiadores. “Bolsonaro botou no bolso esses repórteres canalhas”, escreveu em um dos grupos um eleitor de Mato Grosso.

Naquele programa, Bolsonaro lembrou editorial de Roberto Marinho, fundador da Globo, no qual este elogiava a participação de seu grupo de comunicação no golpe de 1964, que implantou a ditadura militar. No fim do programa, a apresentadora Miriam Leitão leu trechos de editorial do grupo Globo de 2013 no qual a empresa lamentava sua atuação no rompimento da democracia.

Para críticos de Bolsonaro, a leitura foi um momento forte contra Bolsonaro. Para seus apoiadores, um vexame da Globo. “Bolsonaro, o único candidato de fazer a Globo desmentir seu próprio fundador, ao vivo”, diz um “meme” que circulou rapidamente nos grupos. “Bolsonaro, exterminador de jornalistas”, afirma outro, que simula capa da revista Veja.

Situações como essas são comuns ao acompanhar os grupos de apoiadores de Bolsonaro e seus críticos: muitas vezes parece que são dois mundos diferentes. No universo pró-Bolsonaro, ele é de fato como um “mito”, apelido que carrega. Ilustrações mostram Bolsonaro no lugar de heróis do cinema, de filmes de guerra e ficção científica, e até lutando contra um tigre-dente-de-sabre. “Dá que eu te dou outra”, diz o candidato ao animal no desenho.

Essa impressão anedótica dos grupos de WhatsApp, cuja representatividade eleitoral é impossível de se determinar, encontra eco na mais recente pesquisa CNI/Ibope. Divulgado na semana passada, o levantamento mostrou que Bolsonaro é o candidato que, ao menos por enquanto, desfruta de mais identificação com seus eleitores.

Quase metade (47%) dos que pretendem votar no nome do PSL afirmam que o escolhem por gostar dele e das propostas. Com Alckmin, esse índice é de 39%, enquanto Ciro Gomes (PDT) tem 37% e Marina Silva (Rede) tem 31%.

A pesquisa mostrou ainda que a maioria dos eleitores pode trocar de candidato durante a campanha, mas os apoiadores de Bolsonaro são os menos suscetíveis a mudanças – 34% dizem que o voto se trata de escolha definitiva. Ciro tem 26%, Alckmin, 23%, e Marina, 22%.

Outros 29% dos eleitores de Bolsonaro afirmam que a escolha é firme, mas que poderá mudar até outubro. Aqui, Alckmin empata, enquanto Ciro (21%) e Marina (18%) estão bem atrás.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro tem chances de conquistar outros votos, inclusive de potenciais eleitores de Lula. Diante do impasse envolvendo a candidatura do petista, o número de indecisos para este período do ano eleitoral está em patamar histórico, de 33%. Sem o ex-presidente na disputa, Marina herda 16% de seus votos e Ciro, outros 11%, mas Bolsonaro ficaria com 7%.

A esperança de Alckmin e de muitos eleitores contrários a Bolsonaro é de que seu claro despreparo prejudique as intenções de voto ao longo do período eleitoral, e que o extremismo afete negativamente sua imagem no decorrer das próximas semanas. É possível que isso ocorra e o nome do PSL fique fora do segundo turno, mas não convém acreditar que a força de Bolsonaro vai se dissolver facilmente. A crise de representação é profunda e ele sabe surfar a onda.