Narrador Edson Callegares, pai do bordão 'sabe de quem?', morre vítima da Covid

KLAUS RICHMOND E ALEX SABINO
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SANTOS E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Edson Callegares Bortolomasi, 62, foi uma das vozes mais amadas por torcedores do Santos nas últimas décadas. É difícil encontrar um torcedor santista que não reconheça imediatamente o grito de gol do narrador, morto nesta sexta (26) por complicações causadas pela Covid-19, seja pelo timbre de voz ou pelo bordão "sabe de quem?" usado quando o time de Vila Belmiro marcava. A frase se tornou mais conhecida nacionalmente a partir do uso pelo narrador Luis Roberto, da Rede Globo. O grito ecoava como uma espécie de chave de ignição para o torcedor que o ouvia pelo rádio. Em seguida iniciava o hino do clube seguido com a conclusão "é do Peixe", de Callegares. O narrador estava internado na UTI do hospital Ana Costa, em Santos, desde a última semana, com sintomas provocados pelo coronavírus. Nascido em São Paulo, ele entrou na Rádio Cacique de Santos, em 1978, como escuta, passando os demais resultados da rodada. Passou para plantonista, repórter e narrador, posição em que se tornaria conhecido na Baixada Santista. Também fez trabalhos esporádicos para a Rádio Jovem Pan, em São Paulo. Transmitiu jogos do Santos também nas rádios Atlântica, Clube e Cultura. Trabalhava ao lado do irmão Guido Bortolomasi, repórter de campo e depois comentatista. "Ele e o Victor Moran [comentarista] tinham discussões memoráveis. O Moran com aquele sangue espanhol e o Edson o italianão. O Edson, muitos não sabem, chegou a fazer vários jogos pela Jovem Pan, substituindo narradores que haviam ido para a Copa do Mundo. Mas ele falava: o meu projeto é não ser funcionário, quero ser empresário, um vendedor de propagandas. Ele poderia, brincando, ter sido muito mais", conta o assessor de imprensa Walmir Lopes, com quem trabalhou na Rádio Cacique, Rádio Clube e Hits FM. Edson também ficou conhecido por dar oportunidades a diversos repórteres em início de carreira. Em sua equipe, contava com o sobrinho Alessandro Nunes, além de nomes como Moran, Pinheiro Neto e outros jornalistas que marcaram a rádio do litoral. "O Edson abriu as portas para mim e para muitos. Mesmo depois que saí da equipe e fui para a ESPN era um cara sempre preocupado, que perguntava como estava, que pedia para que ficasse atento. Queria saber se estava bem. Era um ser humano sensacional, um profissional incrível", relata o jornalista Fellipe Camargo, da Rádio Nova FM. Edson comandou por mais de duas décadas o programa Baixada Esporte, da Santa Cecília TV, emissora local ligada à Universidade Santa Cecília. "Transbordava carisma, cativava todo mundo. Tinha todas as credenciais", conta Paulo Soares, com quem trabalhou nas Rádios Cacique e Guarujá, no início da década de 1980. O bordão de Callegares seguirá vivo. Há alguns anos, o narrador que levantava a galera fez duras críticas ao uso dele por Luis Roberto na Globo. "Ele jamais teve a humildade de dizer que copiou de mim", se queixou. O narrador havia trabalhado na Rádio Cultura, enquanto Callegares estava na Atlântica. Luis Roberto admitiu, tempo depois em entrevistas, ter se inspirado no narrador santista. Hoje, é comum creditar a Callegares a autoria das palavras. "Ele era uma voz única nas transmissões e jogos do Santos, era um dos heróis sobreviventes da imprensa local. Era adorado pela torcida do Santos, tinha um jeito próprio cativante", afirma o sambista e radialista Ricardo Peres. O Santos Futebol Clube lamentou e postou uma de suas narrações memoráveis em suas redes sociais: "uma das vozes mais marcantes da nação santista nos deixou nesta sexta, vítima do Covid-19. Muito obrigado por todos os momentos inesquecíveis que vivemos juntos, Edson Callegares". Callegares deixa a esposa, duas filhas e três netos. O sepultamento acontecerá às 9h deste sábado (27), em São Vicente, cidade onde morava.