'Nas favelas estão escondidos muitos Machados de Assis', diz carnavalesco da Beija-Flor

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RIO — A Beija-Flor de Nilópolis levou para a Avenida a história dos negros e a luta contra o racismo. O carnavalesco da escola da Baixada Fluminense, um artista branco, conta que “é preciso criar uma nova consciência e contar a verdadeira história do povo africano”. O artista lembra que “a África é o berço da humanidade” e o negro “não deve ter vergonha de sua raça”.

— A África é muito mais que isso, mais do que homens brancos contam. No nosso enredo fazemos uma provocação à História. Damos exemplos para que os pretos possam se orgulhar de seus ancestrais, de seus antepassados. Temos vários artistas pretos, como Aleijadinho, mestre Valentim, os irmãos Rebouças, mestre Didi. É preciso despertar essa consciência no negro. Nas favelas estão escondidos muitos Machados de Assis. São essas as provocações que levamos para a Sapucaí.

Trinta negros e negras - influentes em diversas áreas - foram convidados para desfilar na antiga ala da diretoria, renomeada para “ala da resistência”.

— Eu estou com o coração na mão. Se a minha irmã (Marielle Franco) estivesse aqui, ela estaria comigo, porque isso representa a nossa luta. Resistimos diariamente — disse Anielle Franco, que participou da ala.

A porta-bandeira da Beija-Flor, Selminha Sorriso, que completou 30 anos de Sapucaí, desfilou careca pela primeira vez. Mas ao contrário da rainha de bateria da Mocidade, Giovana Angélica, ela não raspou a cabeça. Usou uma prótese que esconde sua cabeleira, representando a deusa egípcia Isis.

Neste ano, quatro cadeirantes saem na velha guarda da Beija-Flor. O objetivo é elevar a auto-estima de mulheres que estão sobre a cadeira de rodas. A aposentada Maria Rita Silva dos Santos, de 75 anos, é uma das cadeirantes. Ela conta que é a primeira vez desfilando pela escola da Baixada.

— Este é o primeiro ano meu aqui na velha guarda. A minha nora é diretora e agora estou aqui. A gente fica um pouco triste, porque não pode andar. Mas, com essa inclusão, acaba aumentando a nossa auto-estima. Tomara que a gente ganhe. Vamos empretecer a Avenida — celebrou Maria Rita.

O intérprete da escola, Neguinho da Beija-Flor, destacou que a agremiação trouxe à baila a história de negros que fizeram a História, mas não são lembrados.

— Vamos exaltar os negros que fizeram a História sem terem visibilidade. A Beija-Flor terá esse privilégio de contar — destacou.

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