Nas praias do Rio, 80% das amostras de areia têm alta contaminação por coliformes

Nas praias do Rio, areias aparentemente limpas escondem bactérias, fungos e parasitas. É o que mostra o boletim de monitoramento das areias das praias, divulgado no último dia 19 pela Secretaria municipal de Meio Ambiente. Nele, 19 dos 24 pontos de amostras coletadas em 19 praias da Zona Sul, da Ilha do Governador e de Paquetá — em algumas praias, houve mais de um ponto de coleta — foram classificados como ruins e não recomendados, o que representa 80% do total. No processo de avaliação, a qualidade da areia pode ser classificada como ótima, boa, regular e ruim.

A análise das areias era divulgada a cada 15 dias até maio de 2019, quando terminou o contrato da prefeitura com a empresa que realizava o serviço. Após três anos, essa rotina foi retomada: o primeiro boletim já mostra que praias muito frequentadas por cariocas e turistas, como Leme, Copacabana e Leblon, não passaram no teste, apresentando níveis muito altos de coliformes totais e a bactéria Escherichia coli.

Apenas três pontos de coleta alcançaram o nível ótimo: Praia do Flamengo, Praia de Ipanema (altura da Rua Maria Quitéria) e Praia de São Conrado (altura do Hotel Nacional). Ainda em São Conrado, a areia do trecho da Asa Delta foi considerada boa. A Praia da Moreninha, em Paquetá, recebeu nota regular. Em relação à análise de 2019, as praias de Ramos, Vermelha, Leblon e Paquetá (Imbuca) tiveram piora na qualidade, enquanto Flamengo, Ipanema (Maria Quitéria) e São Conrado melhoraram. As demais não mudaram.

As avaliações de balneabilidade feitas pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea), entretanto, indicam que nem sempre a qualidade da água está de acordo com a situação encontrada na areia: no mesmo período, enquanto as praias de São Conrado e Flamengo apresentaram bons indicadores relacionados à areia, suas águas estavam impróprias para banho. O mar da Praia Vermelha, por sua vez, mostrou bons índices ao longo de todo o ano, enquanto suas areias foram reprovadas pela prefeitura no último boletim.

Egon Daxbacher, coordenador do Departamento de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Sociedade Brasileira de Dermatologia, explica que, além de dermatites, as principais doenças de pele decorrentes do contato com a areia contaminada são infecciosas: micoses, contaminação bacteriana de ferimentos, frieira e até os famosos bichos geográficos, vermes encontrados em fezes de animais.

— A contaminação pode vir da presença de animais, de lixo e de restos de alimentos, principalmente na faixa de areia mais distante da água, que não é lavada pelo mar e fica perto dos quiosques, onde muitas vezes não bate sol: lá, os microrganismos, principalmente os fungos, tendem a se proliferar mais em razão de uma maior umidade — afirma.

O perigo de se contaminar é maior no trajeto de entrada e saída da praia do que propriamente no local onde o banhista costuma ficar, mais perto do mar, alerta o dermatologista:

— À noite, num luau, por exemplo, por questão de segurança, as pessoas tentam ficar mais perto do calçadão, onde a areia é mais contaminada. É preciso ter cuidado com o contato direto da pele com a areia.

O programa Areia Carioca voltou por meio de um convênio com a concessionária Águas do Rio, responsável pelo saneamento das zonas Norte e Sul da cidade. O monitoramento, portanto, inclui somente 24 dos 37 trechos compreendidos até 2019, uma vez que 13 deles ficam na Zona Oeste, onde o serviço de água e esgoto é controlado pela Iguá.

Bernardo Marconi tem o costume de ir à praia do Leme quase todo fim de semana e não sabia da má qualidade da areia onde pisa.

— Não sabia que se media a (qualidade) da areia também. Nunca peguei nenhuma doença de pele e espero continuar assim. Vou tomar mais cuidado — afirma.

Aluna de uma escolinha de futevôlei há cerca de quatro anos, Selma Amarante treina, ao menos, três vezes por semana na praia de Ipanema, em frente à Rua Maria Quitéria, um dos poucos trechos de areia aprovados:

— Ipanema é bem movimentada, então não imaginava que a medição daria um resultado legal. É bom saber disso, a gente fica mais tranquila em relação a doenças, se sente mais protegido e seguro.

O contato com a areia poluída também pode causar problemas gastrointestinais, ainda que a pessoa não apresente sintomas imediatos, acrescenta o secretário municipal de Meio Ambiente, Lucas Padilha. A orientação é que se evite botar a mão na boca, assim como as recreações infantis de contato direto com a areia.

— Os dados revelam que a presença de animais e o descarte inadequado de alimentos tornam praias que poderiam ter situações sanitárias razoáveis em não recomendadas. As pessoas devem sempre usar canga, toalha e cadeiras para evitar o contato direto com a areia — diz ele.

Segundo a secretaria municipal de Meio Ambiente, a presença de roedores, aves e fezes de cachorros é o fator principal para a classificação “ruim”. O mesmo se aplica a restos de comida dispensados na praia.

Até setembro de 2019, cães eram proibidos de circular nas areias das praias do Rio, mas uma lei promulgada pela Câmara Municipal naquele ano autorizou o acesso desses animais, desde que o seu responsável porte certificado de vacinação que contenha etiqueta semestral de vermifugação. O animal deve estar na coleira, e o responsável por ele tem de recolher os dejetos do cão.

A lei também abre a possibilidade de a prefeitura “delimitar faixas de areia nas praias para permanência e circulação de cães”. Quase três anos após a norma entrar em vigor, porém, a prefeitura ainda não a regulamentou.

A Guarda Municipal informa que, como a legislação não foi regulamentada, os agentes atuam somente na orientação dos cidadãos quando veem cães nas praias. A prefeitura não respondeu se ainda pretende regulamentar a lei.

A Comlurb, por sua vez, afirma que o serviço de limpeza das praias da Zona Sul é feito por 361 garis e “está sendo incrementado com os novos veículos e equipamentos que começaram a chegar, como tratores de praia e o equipamento de peneiramento de areia, implemento que é acoplado ao trator para peneirar e revolver a areia, realizando uma limpeza mais minuciosa, fazendo sua higienização e contribuindo para reduzir ainda mais as impurezas, chegando a alcançar 20 centímetros de profundidade. O revolvimento da areia é realizado com a máquina saneadora que retira resíduos de menor tamanho”.

Ainda segundo a Comlurb, “há seis anos que o equipamento de peneiramento não era usado na limpeza das praias. Com a nova aquisição deles, a companhia volta a ter o padrão de limpeza de praias que existia até 2016”.

Questionada se pretendia analisar a areia das praias da Zona Oeste, a Iguá, empresa responsável pelo saneamento da região, disse que está sempre aberta a parcerias na busca de soluções que gerem impacto positivo à população”.

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