A Nasa quer ir ao infinito e além, mas com um empurrão de Musk

Há razões de sobra para desconfiar da seriedade de Elon Musk na já longa negociação para a compra do Twitter. Mesmo que o acordo seja fechado, não será o fim dos questionamentos. Ninguém tem como afirmar se serão benéficas as mudanças programadas para a rede social.

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Por outro lado, no setor espacial, explorado pelo homem mais rico do mundo desde a fundação da SpaceX há 20 anos, Musk é sinônimo de algumas certezas. A principal delas é que o empreendedor, que também controla a marca de carros elétricos Tesla, influenciará os planos da Nasa, a agência espacial americana, de levar seres humanos à superfície lunar e de organizar viagens a destinos mais remotos.

O retorno à Lua após cinco décadas sem visitas — a última foi da Apollo 17, em 1972 — poderá revolucionar a astronáutica ao indicar o futuro de missões tripuladas para lugares jamais visitados. Assim como Marte, a Nasa espera um dia alcançar Europa, a lua de Júpiter que pode conter um imenso oceano capaz de abrigar vida.

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E os americanos têm pressa para seguir em frente, já que seus principais concorrentes, os chineses, correm por fora e têm uma capacidade nada desprezível.

“Não vamos voltar à Lua para uma série de missões isoladas, mas sim para construir uma comunidade no solo e na órbita da Lua, capaz de provar como é possível viver em outros mundos” — foi com essa premissa que a Nasa apresentou, em 2016, o programa Artemis, nome da deusa grega da caça e irmã gêmea de Apolo.

O Artemis é um enorme guarda-chuva que abriga a operação de um foguete lançador, o pouso na Lua, as atividades na superfície e na órbita lunar, com uma estação espacial chamada de “Gateway”, e o retorno seguro à Terra. Se esse plano for bem executado, estará dado um grande passo, avalia o físico e engenheiro da Nasa Ivar Gontijo.

— Todo o desenvolvimento das viagens para a Lua serve para que ocorra a viagem tripulada para Marte no futuro — explica o cientista de Moema (MG), que hoje trabalha em missões não tripuladas no Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa e é um dos responsáveis pela SuperCam do jipe Perseverance, que percorre o planeta vermelho.

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Ele complementa:

— No plano das missões robóticas, dentre elas a em que eu mesmo trabalho em Marte, vamos coletar material do solo. Mas precisamos trazer esse material para cá. Quando isso for possível, a tecnologia para ir a Marte, descer no planeta e depois decolar e voltar para a Terra, pelo menos para missões não tripuladas, estará demonstrada. Depois, essa tecnologia precisará ser melhorada e aumentada para volumes maiores. Isso é essencial para permitir mandar humanos, que também precisarão de suprimentos de alimentos e oxigênio.

Até chegar lá, no entanto, um longo caminho deverá ser percorrido, e os desafios são tecnológicos e financeiros. É justamente esse binômio dinheiro/tecnologia que faz da Nasa e da SpaceX parceiros vitais e, ao mesmo tempo, grandes competidores.

Passagem de ida e volta

O roteiro da próxima viagem tripulada para a Lua, marcada para 2025, depende da evolução do arranjo que combina, de forma inédita no espaço, integração e competição entre o público e o privado. Em 2016, a Nasa previu que os astronautas partiriam da Terra a bordo de um novo foguete gigante, de 98 metros de altura e 2,6 mil toneladas, batizado de Space Launch System (SLS) e classificado pela agência como “o mais poderoso foguete já construído”.

A tripulação passaria seus dias nas viagens de ida e volta dentro da cápsula Orion, desenvolvida ao longo das últimas duas décadas com intensa colaboração da Agência Espacial Europeia (ESA).

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O problema é que o SLS, o“foguetão” da Nasa, não faz todo o percurso. Uma vez chegando próximo à Lua, será preciso um outro equipamento para, digamos assim, fazer o traslado: pousar na superfície e depois retornar ao SLS. A resposta para esse desafio está sendo dada por Musk.

Nada descartável

Em abril de 2021, a Nasa contratou a SpaceX por US$ 2,1 bilhões para cumprir essa “etapa lunar” da viagem, negócio confirmado no final do ano passado após o fim de uma disputa nos bastidores com a Blue Origin, de Jeff Bezos, criador da Amazon, que também se credenciou para fazer o mesmo serviço.

A missão será dada a uma versão da revolucionária Starship, uma nave ainda maior que o SLS, com 120 metros de altura e nove metros de diâmetro, montada sobre o poderoso foguete Falcon Heavy, com uma tecnologia arrebatadora.

Essa supernave, que mais parece uma gigantesca bala de canhão, será reutilizável e poderá ser reabastecida no espaço. Musk se apoia na tecnologia de reaproveitamento do veículo para tornar seu custo de operação muito menor na comparação a potenciais concorrentes, entre eles a própria Nasa.

— A Starship agrega o que os atuais veículos espaciais vêm trazendo para o setor. Existe uma simplificação de todo o processo e de peças. A Starship está mais alinhada com essa visão — explica Lucas Fonseca, mestre em engenharia de sistemas espaciais e empreendedor em projetos que buscam no espaço soluções para os problemas aqui da Terra.

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É nesse ponto que Nasa e SpaceX passam a se encarar como competidores. A Starship terá essa versão lunar, batizada de Human Landing System (HLS), mas também — e principalmente — é desenvolvida para fazer o mesmo serviço do SLS, ou seja, o trajeto Terra-Lua-Terra e, no futuro, o trecho Terra-Marte-Terra.

Portanto, o veículo projetado pela Nasa, bilhões de dólares mais caro e com tecnologia de outra época, poderá perder a utilidade. Se esse cenário se confirmar, como apontam especialistas no setor, o constrangimento para a Nasa será profundo, considerando que já foram aplicados US$ 40 bilhões no programa Artemis, com o aval do Congresso americano, que prioriza a manutenção dos milhares de empregos gerados.

— O SLS, da Nasa, talvez seja utilizado em algumas missões. Porém, como é muito mais caro, é difícil que esse seja um programa que vá durar por muito tempo — analisa o professor da Universidade Columbia (EUA) Sidney Nakahodo, sócio-fundador da Seldor Capital, fundo de investimentos em start-ups no segmento espacial.

E quando será possível descobrir quem vencerá essa corrida? O primeiro voo orbital da Starship, sem tripulação, já deveria ter ocorrido em março, mas foi sistematicamente adiado à espera de autorização da Agência Federal de Aviação (FAA, na sigla em inglês), a agência reguladora de transportes aéreos dos EUA. Parte dos obstáculos já foi superada, mas ainda há ajustes obrigatórios antes da realização desse primeiro e decisivo teste que, segundo Musk, está em condições de ocorrer ainda em julho.

Já o lançamento do Artemis 1, o primeiro SLS programado para ir até a órbita da Lua, deveria ocorrer em uma janela entre julho agora e junho de 2023. Porém, os cronogramas têm sido postos à prova.

Um teste fundamental, com o foguete abastecido de oxigênio líquido e hidrogênio, foi concluído esta semana. Houve um pequeno vazamento, porém, ontem, e a Nasa informou ser possível seguir adiante e preparar o tão aguardado lançamento do Artemis 1.

Os resultados dessas primeiras missões serão cruciais para projetar quem sairá na frente na competição que definirá os próximos passos da presença humana no espaço.

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