'Nasci de seis meses por causa de uma violência doméstica', revela o modelo Pablo Morais

A inquietude e a intensidade de Pablo Morais, de 29 anos, parecem atravessar a tela do computador em uma hora de entrevista feita por videochamada. Modelo, ator, cantor de rap e artista plástico — não necessariamente nessa ordem —, Pablo está em campanhas de grifes brasileiras e internacionais, como Reserva, Movado e Costa Brazil, é um dos protagonistas de um ensaio da série “Black towel”, assinada pelo badalado fotógrafo Mario Testino, que movimentou as redes sociais no início de janeiro, e integra o elenco do filme “Poliana”, que será lançado este semestre.

A imagem sexy e glamurosa dos personagens da TV e do cinema, porém, não o define. Goiano de alma carioca e radicado em Nova York, ele quer falar. “Vim da periferia de Goiânia. Tive uma infância difícil. Nasci prematuro de seis meses e duas semanas por causa de uma violência doméstica. Meu pai deu um chute no baço da minha mãe”, dispara. “Naquela época, na década de 1990, era muito difícil uma mulher sair desse ciclo de violência”, lamenta. “Foi muita sorte eu ter sobrevivido, uma verdadeira luta.”

alvez isso explique sua fome de viver. Com a mãe já separada do pai, o ator, que tem três irmãos mais velhos, cresceu em um ambiente extremamente violento e começou a trabalhar aos 8 anos. “Tinha que ajudar em casa.” Foi servente de pedreiro, vendedor de R$ 1,99, funcionário de lava-jato, empurrou carrinho em feira. Mas os perigos da realidade que o cercava entravam pelas frestas, apesar do esforço hercúleo da mãe. Para afastá-lo do crime, ela acatou o conselho de uma psicóloga do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) e colocou o adolescente numa aula de tecido acrobático. “Lá eu conheci uma menina que falou que eu poderia ser modelo. Resolvi tentar. Na sequência, essa mesma psicóloga convenceu minha mãe a me emancipar aos 16 anos e deixar que eu morasse no Rio, no apartamento de modelos da agência 40 Graus.” Pablo foi e nunca mais voltou.

Logo depois, passou a dividir um apartamento no Vidigal, fazer aulas de teatro no Nós do Morro e modelar. Nessa época, conheceu o cineasta Candé Salles, que abriu a sua mente, e o apresentou a amigos e artistas, como a cantora Marina Lima, a quem Pablo considera “uma irmã”. “Conheci a Marina bem novinho, ela me ajuda, dá dicas. Hoje em dia a gente faz shows juntos. Marina é minha família”, declara. A cantora retribui: “Tenho alguns poucos amigos, e com esses sei que posso contar até debaixo d’água. Pablo é um deles. Somos muito próximos; solitários, quietos, leais, quase carentes. O que nos salva no dia a dia é justamente essa certeza”, diz a cantora. O documentário “Uma garota chamada Marina”, dirigido por Candé Salles, é dedicado aos grunkies, palavra inventada por Pablo na adolescência (“não sabia falar grunge”, diz) e que significa “amigos alternativos, loucos e inteligentíssimos.” Candé faz coro: “É o homem mais lindo e autêntico que conheci. Seu talento vem de dentro.”

Com 15 anos de carreira como modelo, nove como ator — com oito novelas no currículo —, e música em parceria com Seu Jorge, Pablo procura exercer a gratidão todos os dias. “O maior orgulho que tenho é da minha superação. Todo o mundo me olha como se eu fosse privilegiado. Mas agora bati o martelo, quero contar a minha história, estou ficando cult, mas sou muito povão”, comenta o modelo, que escolheu Nova York para viver por tempo indeterminado. “É a minha cidade, só perde para o Rio, mas quero me abrir para o mundo, miro em uma carreira internacional.”

Enquanto elabora as vivências, ele não para. “Acabei de aparecer em uma campanha de relógio em todas as TVs da Times Square”, comemora. Também filma “Poliana” e vai grava um EP. O fotógrafo Mario Testino destaca a energia contagiante: “Ter pessoas para fotografar, que, além de serem amigas, têm outros talentos é um presente da vida. Elas fazem a foto. Nós capturamos a energia. Pablo é assim.”

Ex-namorado da cantora Anitta e da atriz Agatha Moreira, e amigo de ambas, Pablo está solteiro no momento. “Estou totalmente focado no meu trabalho, com um monte de coisas para fazer, namorar envolve responsabilidade afetiva”, explica, concluindo: “A arte me salvou”.