Nascido em ambientes LGBTs, termo ‘lacração’ sofre apropriações e perde força nas redes

Eduardo Vanini
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MC Carol já foi chamada de lacradora, mas não se identifica com a maneira como o termo é usado nas redes

Os relógios ainda marcavam as primeiras horas do dia 13 de dezembro de 2013 quando uma bomba musical explodiu na internet. Beyoncé pegou o mundo inteiro de surpresa ao lançar, sem anúncio prévio, um álbum de inéditas que levava o seu nome. Como tudo que cai na rede é meme, as reações mais inusitadas pipocaram imediatamente. Entre elas estava o vídeo “Novo álbum da Beyoncé lacrou o c... de todas as inimigas!”, em que Romagaga aparecia exaltando, aos berros, o feito da diva pop. “Beyoncé samba, tá querida? Beyoncé reina! Beyoncé... lacra”, dizia ela, adicionando, a partir daquele momento, a expressão “lacrar” e suas derivações ao vocabulário de muitos brasileiros. Depois de anos sendo utilizado à exaustão, porém, tanto o termo quanto a sua carga simbólica deixam, aos poucos, de interessar aos jovens e a seus milhares de seguidores nas redes sociais.

A origem dessa expressão, segundo Carlos Mendonça, professor e pesquisador do Programa de Pós-graduação de Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais, remonta ao ambiente LGBT. “Era usado em lugares como casas de festas para expressar algo absolutamente diferente e arrebatador. Podia referir-se a uma performance muito bem executada no palco ou a produções de moda e maquiagem impactantes”, ilustra.

Mas isso começou a mudar, segundo ele, a partir do momento em que o termo foi apropriado midiaticamente e ganhou lugar na cultura pop para se referir a produções musicais assinadas por artistas LGBTs, chamados, muitas vezes, de “geração do lacre”. Conforme esse uso se propagou, o significado de origem foi embaçado e começou a ser desvalorizado em vários aspectos. “Em termos comportamentais, a abordagem nas redes sociais passou a ser feita indiscriminadamente e, com isso, ganhou um significado muito amplo e fora do ambiente de origem. Então, associar-se a esses novos valores tornou-se algo esvaziado.”

Com 125 mil inscritos em seu canal, o youtuber Spartakus Santiago, de 25 anos, reconhece a verdadeira origem do termo mencionada por Carlos e lamenta as apropriações feitas ao longo do anos. Seus vídeos, nos quais costuma abordar temas como discriminação e política, são frequentemente rotulados como “lacração”. Mas essa definição, de acordo com ele, que também é apresentador do Canal Futura e colunista no GNT, vem embalada numa aura pejorativa para se referir à sua militância. “Dizem que estou de ‘lacração’, inventando coisas ao falar de racismo e homofobia para ganhar likes”, comenta ele, destacando que o termo aparece frequentemente ao lado de outras expressões, como “vitimismo” e “mimimi”. “Muitas pessoas distorcem e tiram de contexto o que falo. E isso gera muito ódio gratuito, com muita gente me rotulando dessa maneira.”

Spartakus também identifica nessas falas uma certa confusão em relação ao seu trabalho. Ele acredita fazer parte de uma geração especialmente interessada em encontrar um ofício com impactos positivos na vida das pessoas, o que nem sempre é assimilado pelo público em geral. “Sou um criador de conteúdo que fala de questões sociais. Sempre busquei atuar em algo com um propósito e encontrei esse emprego. Na geração anterior à minha, todo mundo queria ser milionário. Tem muita gente que não consegue entender isso e fala como se eu tivesse interessado apenas em ganhar dinheiro.”

Para o especialista em comportamento digital Marcelo Coutinho, que é coordenador do Mestrado Profissional da Fundação Getulio Vargas em São Paulo, a “lacração”, como ficou difundida nas redes sociais, passou a se referir ao reconhecimento de um comentário ou postagem na qual o autor “mandou bem”. E o uso do termo nesse sentido, como ele acrescenta, está muito ligado a um comportamento que sempre existiu entre os jovens e foi potencializado pela internet: a busca por inserção e reconhecimento por terceiros, quando eles passam a ter referências além do círculo familiar. “Hoje, um comportamento que era sinalizado apenas para os amigos passa a ser exibido para vários outros grupos.”

Mas estaria mesmo a lacração em xeque? “Ainda é cedo para decretar o seu fim”, afirma Marcelo. Porém, na opinião dele, o auge já passou, a partir do momento em que esse comportamento começou a ser questionado por muita gente. “Isso ficou muito associado à ideia dos influenciadores que ‘lacravam’ por dinheiro ou pessoas que queriam ser influenciadoras a todo custo, algo malvisto entre grupos especificamente ligados às temáticas sociais”, teoriza.

A professora de comportamento do consumidor da ESPM-Rio Karine Karam observa que a palavra “lacração” e suas derivações andam realmente sumidas das hashtags e das postagens nas redes sociais. “Essa coisa do ‘lacrei’, de precisar sempre produzir frases de efeito em busca de likes, passou a ser usada também pelas marcas, na procura por engajamento. Afinal, o mercado de consumo é sempre direcionado ao jovem, porque é quem dita as tendências”, comenta a professora, ponderando que, no meio desse caminho, surge um paradoxo. “Quando esse jovem percebe que uma geração com a qual não se identifica está usando as mesmas expressões e produtos, ele muda o comportamento. É como sair do Facebook após a entrada dos pais.”

Por outro lado, o abandono dessa expressão também revela uma mudança de atitude, na opinião de Karine. Segundo ela, as novas gerações já começaram a dar sinais de cansaço em relação a uma exposição midiática exagerada e distante da realidade: “Eles olham as redes sociais de uma maneira diferente em relação a cinco anos atrás. Sabem que não se trata de um mundo real e não querem ser tão deslocados da realidade. Entenderam que, mais do que impactante, o ‘lacre’ é efêmero.”

É exatamente essa reflexão que faz a influenciadora digital Lizandra Souza, de 25 anos, se considerar uma “lacradora em tratamento”. Moradora de Santos, ela fala diariamente para 65 mil pessoas em seu perfil @legalizandra, no Twitter, onde mudou o tom das suas postagens nos últimos anos. “Acho que o que ficou conhecido como lacração nas redes tem muito mais a ver com debochar, pelo prazer de zoar e fazer piadas”, diz ela. “Mas o meu ponto de vista mudou. Talvez, antes eu não me aprofundasse tanto em questões importantes, porque estava mais interessada em viralizar. Agora é diferente. Ainda sou muito desbocada, mas tenho mais cuidado com o que vou dizer, procuro saber mais sobre os assuntos abordados. Acho que fiz parte de uma geração que amadureceu na internet. Entendemos que, se ficarmos só na zoeira e na busca por likes, acabamos afastando as pessoas de debates sociais importantes.”

Muitas vezes chamada de “lacradora” quando faz uma música “mais provocante”, MC Carol também não se sente atraída pelo termo e afirma que esse tipo de reconhecimento jamais foi a finalidade de seu trabalho. “Escrevo e posto sobre o que acho interessante de verdade. Não faço isso para ‘lacrar’”, comenta a cantora com 247 mil seguidores no Instagram e 278 mil no Twitter. Ela também faz uma crítica a quem ainda persegue essa lógica. “Boa parte das postagens de pessoas focadas em ‘lacrar’ e chamar atenção está machucando os outros. Acho perigoso. Já vimos até jovens se matando por causa disso. O fato de estarmos atrás de uma tela não nos dá liberdade de falar qualquer coisa sobre alguém.”

E para quem ainda duvida de que o termo esteja sofrendo um “cancelamento”, palavra usada pelos jovens para decretar o fim de alguma coisa, a reação do estudante de relações públicas Lucas Paiva, de Curitiba, ao ser abordado para essa entrevista é um tanto sintomática. “O tempo dessa expressão já passou. É tipo chamar alguma coisa de ‘supimpa’”, afirma o jovem, de 22 anos, que tem 278 mil seguidores na conta @LwithP, no Twitter, e reconhece já ter perseguido a tal “lacração” ao fazer comentários em sites de notícias e redes sociais no passado. Mas existiria, então, uma nova palavra para esse comportamento? “Olha, se existe, eu desconheço”, diz Lucas, rindo.