Natal em países diferentes, alfabetização em casa: as histórias de pais que adotaram durante a pandemia

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Vanessa, Júlio e Pedro ganharam uma nova integrante na família durante a pandemia - Foto: Arquivo Pessoal
Vanessa, Júlio e Pedro ganharam uma nova integrante na família durante a pandemia - Foto: Arquivo Pessoal
  • Pandemia transformou as relações entre candidatos a pais via adoção e os jovens

  • Vanessa e Júlio estavam nos Estados Unidos quando receberam e-mail avisando que havia uma criança disponível para conhecê-los

  • Cida precisou se transformar em professora das duas irmãs que ela e Thiago adotaram

A pandemia transformou histórias de casais que buscaram na adoção uma forma de ampliar a família e que finalmente foram agraciados com um filho neste momento tão difícil. Se a Covid-19 impediu que a chegada do novo integrante acontecesse da forma esperada, rendeu histórias que mostram o vínculo imediato destes novos pais com as crianças.

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Todos eles tiveram que se adaptar aos novos protocolos de saúde. As visitas nos acolhimentos se transformaram em conversas por vídeo. Os poucos contatos presenciais, sempre realizados de máscara. E viagens para encontros em outras cidades – e até países – ficaram comprometidas.

“As coisas foram mudando, os aparelhos de segurança foram aparecendo. Em um primeiro momento, ninguém usava máscara. Depois, fomos entendendo que ela era um recurso. Entendemos os procedimentos de lavar a mão, álcool, distanciamento social”, conta Ana Rita, psicóloga da Vara da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).

Ana Rita destacou que o distanciamento pode gerar
Ana Rita destacou que o distanciamento pode gerar "perdas" para as crianças - Foto: Reprodução

Ana explica que desenvolveu um método para que as crianças e os candidatos a pais pudessem se ver sem máscara, à distância, nos encontros presenciais. “Medimos o prejuízo deste contato, de ver as pessoas só do nariz para cima. E isso tem uma perda enorme, porque impede outras observações que vão além só da fala.”

Sobre a utilização de chamadas de vídeo ou envio de gravações para apresentação dos envolvidos, Ana considera um “recurso”, mas avisa: “A gente percebe que o vídeo tem um limite, as crianças querem sair dele. Dizem: ‘Que horas vou encontrar e abraçar’?”.

Família nos Estados Unidos, criança no Brasil

Para algumas famílias, porém, o vídeo foi justamente o recurso disponível durante a pandemia. Vanessa, de 39 anos, o marido Júlio, de 40, e o filho Pedro, de 8, estavam bem longe do Brasil quando receberam o esperado e-mail avisando que havia uma criança esperando para conhecê-los e, possivelmente, ser adotada.

Pesquisadores da área da saúde, Vanessa e Júlio foram convidados no ano passado para um período de trabalho na Universidade de Stanford, na Califórnia. Cadastrados para a adoção desde 2014, checaram seu lugar na fila e, certos de que ainda demoraria para serem chamados, aceitaram a proposta.

“Em outubro, recebemos o e-mail avisando que tinha uma criança de 3 anos, uma menina, e perguntaram se queríamos saber mais da história dela”, conta a mulher. O casal iniciou contatos por vídeo com a garota e contou com a disposição dos funcionários do acolhimento em que ela estava para fazer dar certo.

“A gente avisou que estava preso nos EUA por causa da pandemia, que precisávamos de dois meses para nos organizarmos e voltar. As técnicas conversaram entre elas e acharam que neste tempo, em virtude da pandemia e como o processo de aproximação já aconteceria remotamente, poderia começar a aproximação, mesmo com a gente fora”, relata.

Família estava nos Estados Unidos quando a criança ficou disponível - Foto: Arquivo Pessoal
Família estava nos Estados Unidos quando a criança ficou disponível - Foto: Arquivo Pessoal

Vanessa lembra que o processo foi lento. Os primeiros vídeos sequer mostravam o rosto da família. Aos poucos, foram se apresentando e sentiram a aproximação da menina, com as filmagens que também recebiam do acolhimento.

O problema é que ela e o marido seguiam presos nos Estados Unidos por conta do trabalho. Para piorar, os voos estavam sendo cancelados pela pandemia. Em meio à incerteza, a criança iniciou os contatos presenciais com o que viria a ser sua nova família. Mas, antes dos pais, conheceu os tios e os avós.

Primeiro, foi o irmão de Vanessa que buscou a garota no acolhimento para um piquenique com ele e suas filhas. Com a aproximação das festas de fim de ano, a pesquisadora questionou se seria possível que a criança passasse o Natal e o ano novo com a família, e obteve uma autorização da Justiça.

“Tentamos marcar várias vezes o voo, mas tivemos problema por causa da Covid-19”, recorda. “Meu irmão foi no acolhimento, imediatamente ela quis entrar no carro. Passaram o Natal, o ano novo juntos. Foi muito especial. E eu pude estar presente, de alguma forma, porque tinha acesso livre ao celular da minha mãe.”

Vanessa explica que expor os parentes ao risco de contaminação pelo coronavírus foi uma questão debatida, mas uma conversa franca com a mãe foi fundamental para que o processo seguisse. “Ela disse: ‘Essa adoção é nossa, também. Já é sua filha, minha neta. E o que a gente faz por neto? Qualquer coisa.’”

O esperado encontro dos novos pais com a filha finalmente aconteceu no dia 30 de janeiro e, desde então, não se separaram. “Nasceu uma nova criança na nossa família”, resume.

Viagem a Pernambuco e alfabetização em casa

Se Vanessa e Júlio estavam em outro país, Thiago e Cida superaram as fronteiras estaduais para adotar duas irmãs. Residentes em São Paulo, foram a Pernambuco, terra natal da mulher, para o primeiro contato com as garotas.

O casal de administradores estava no processo de adoção há quatro anos, mas foi apenas em 2020, no meio da pandemia, que recebeu o aguardado e-mail avisando que duas garotas, irmãs, de 7 e 9 anos, estavam prontas para conhecê-los, mas a 2.700 km de distância. Após um contato inicial por vídeo, viajaram em junho para encontrá-las.

“Foi tudo muito rápido. Numa situação normal, a gente teria de respeitar alguns processos burocráticos até conhecer as meninas. Como estávamos em restrição, demos o aceite para conhecê-las de manhã, e à tarde já estávamos falando com elas por vídeo. No mês seguinte, fomos para Pernambuco e ficamos com elas por nove dias, antes de elas retornarem ao abrigo”, conta Thiago.

O administrador de empresas conta que um mês após a chegada no Nordeste, voltaram para São Paulo já com as crianças. E foi aí que começaram os maiores desafios. Ele havia recém-saído de um emprego de 10 anos, em busca da oportunidade de empreender. A pandemia, porém, “mudou 80% do planejamento”.

Thiago e Cida adotaram duas garotas (Getty Images)
Thiago e Cida adotaram duas garotas (Getty Images)

Além disso, Thiago e Cida se viram com duas crianças e um cachorro em um apartamento de 45m². “Então, juntamos as malas e viemos para o interior”, conta a mãe. O destino foi Espírito Santo do Pinhal, cidade com cerca de 45 mil habitantes, a 200 km de São Paulo.

Lá, Thiago montou um escritório. A casa, bem maior e com quintal, permitiu que as crianças tivessem mais espaço para brincar e se desenvolver em meio ao distanciamento social. O local também se transformou em escola, onde a “professora Cida” ensinava lições básicas às garotas antes da reabertura dos colégios.

“A Cida foi ensinando, porque elas têm hoje 10 e 8 anos, mas não eram alfabetizadas”, relata Thiago. “Veio o desafio de exercer uns dez papéis diferentes: mãe, professora, tia, avó, amiga. Eu tenho que vestir uma camisa diferente a cada minuto. Isso, como mulher, é desafiador, porque tem hora que não consigo separar. Mas, hoje, a gente pode falar que as meninas estão alfabetizadas, sabem ler tudo”, celebra Cida.

O casal conta que a implementação de uma rotina regrada, com horários para acordar e escovar os dentes, por exemplo, foi um desafio. Mas não esconde o orgulho das filhas, que deram-lhes um “presente” especial recentemente.

“Elas são extraordinárias. A gente teve muita sorte com elas. Estamos muito felizes, realizados. Agradecemos todos os dias pela oportunidade. Aprendemos muito com elas”, considera Thiago. “Agora, elas já chamam a gente de ‘pai’ e ‘mãe’”, comemora Cida.

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