Natal na pandemia: alta nos casos de coronavírus impõe novas regras para as tradicionais festas de fim de ano em família

Bruno Alfano e Renato Grandelle
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Na casa de Norma Ferrone, o Natal é levado a sério. A árvore decorada tem dois metros, com espaço na base para os presentes. Na sala, há um Papai Noel de 1,80m, que, acionado por controle remoto, canta em inglês e espanhol. Em 2020, no entanto, em meio à alta dos números da Covid-19, a festa será diferente. Em sua casa, Norma receberá apenas dez pessoas. Outros 30 parentes, muitos que já foram infectados, vão participar da confraternização por videoconferência. São as novas estratégias de quem não quer perder as tradições de fim de ano, mas precisa se proteger do vírus.

— Tenho um filho que mora no Chile e que não poderá vir, porque houve restrições a voos internacionais. Outro mora em Porto Alegre e é grupo de risco, já teve câncer e infarto — revela a niteroiense de 69 anos: — Entendo que as pessoas queiram se distanciar. É um momento de respeito e reflexão. Quando pensamos que um vírus pararia o mundo?

Ontem, o Estado do Rio registrou 91 mortes e 5.412 novos infectados pelo novo coronavírus, chegando a um total de 22.539 vidas perdidas e 352.760 diagnósticos positivos. A média móvel, que já vinha numa crescente expressiva, passa a ser de 81 mortes por dia. Foram dez dias de aumento contínuo na média móvel de casos, um dia de queda e um novo crescimento neste sábado (28). Em nível nacional, segundo o boletim do consórcio de imprensa divulgado às 20h deste sábado, o país registrou 639 mortes pela Covid-19 nas últimas 24 horas, chegando ao total de 172.637 óbitos desde o começo da pandemia. Com isso, a média móvel de mortes no Brasil nos últimos sete dias foi de 517. A variação foi de 5% em comparação à média de 14 dias atrás, indicando tendência de estabilidade nas mortes por Covid, quando não há aumento ou queda significativos.

Em casos confirmados, desde o começo da pandemia 6.290.160 brasileiros já tiveram ou têm o novo coronavírus, com 52.084 desses confirmados no último dia. A média móvel nos últimos 7 dias foi de 34.002 novos diagnósticos por dia. Isso representa uma variação de 19% em relação aos casos registrados em duas semanas, o que indica tendência de alta nos diagnósticos. Sete estados apresentaram alta na média móvel de mortes: RS, SC, RJ, AM, RO, CE e SE.

A menos de um mês do Natal, a principal festa de reunião familiar que temos, o Brasil se vê em meio a uma escalada de casos, o que preocupa especialistas. Márcio Bittencourt, epidemiologista do Centro de Pesquisa Clínica da USP, afirma que dezembro pode ser um dos piores momentos da doença no país.

— O principal é a gente ter em mente que a pandemia não acabou e tem sinais de que estamos claramente com um aumento no número de casos — diz.

Algumas medidas são indicadas para minimizar o risco quando houver reunião de famílias que não morem na mesma casa. Testes, períodos de quarentena rígida que antecipem o encontro ou medidas de distanciamento social durante a festa (veja detalhes abaixo) podem fazer com que um grupo reduzido de pessoas se reúna com alguma segurança.

— Mas evento com alimentação tem sempre algum momento em que as pessoas não vão usar máscara. Então, nunca dá para dizer que não tem risco nenhum — diz Bittencourt.

Na casa de Luiza Alves da Silva, de 55 anos, o Natal vai ter regras. Três núcleos familiares vão se reunir. Entre eles, estão quatro idosos entre 79 e 83 anos. Por isso, eles escolheram uma casa com espaço aberto e deixarão as mesas espaçadas.

— Além disso, todos vão usar máscaras, e vai ter álcool em gel espalhado — avisa ela.

Quem precisa encontrar a família em outro país, no entanto, vai ter mais dificuldade. A chef de cozinha Estela Barroca, de 32 anos, que mora em Amsterdã, pretendia apresentar ao pai a sua filha recém-nascida, Eva. No entanto, devido à pandemia, a companhia aérea escolhida por Julio Barroca, de 63, que mora em Cali, na Colômbia, cancelou os voos para a Europa.

— Demorou a cair a ficha dos holandeses sobre a gravidade da pandemia. Os jovens saíram para o bar no verão e os casos subiram — diz Estela: — O ano passou rápido, e não conseguimos nos acostumar a essa realidade.

Rogério Panizzutti, psiquiatra e professor da UFRJ, diz que o isolamento social tem causado traumas na população, a ponto de crescer a incidência de doenças como ansiedade, síndrome de fadiga crônica e depressão.

— Vai ser uma crise no Natal. Isso me remete àquela história da Primeira Guerra em que os soldados dos dois lados saíram da trincheira e se cumprimentaram. A gente vê uma situação análoga, de isolamento e sofrimento — afirma Panizzutti: — Temos visto bons resultados com pessoas no CTI que ficam em contato com a família pelo celular. Tem horas em que fazer encontros virtuais é melhor do que não ver ninguém, e isso vale no Natal.

A Anvisa afirmou que não tem regras para ambientes domésticos.

Quem convidar?

Passe as festas com pessoas de convívio próximo, aquelas que estariam vivendo os mesmos padrões de isolamento que você, mas não reúna um número muito grande de pessoas. “Não é recomendado fazer natal com 30 pessoas em circunstância alguma. Precisam ser eventos do menor porte possível, evitando viagens por transporte público, como ônibus e avião, que têm potencial de contaminação. O ideal é que seja até dez pessoas”, diz Márcio Bittencourt, da USP.

Onde realizar a festa?

Priorize locais abertos e de ventilação constante. Milena Ponczek, doutora em ciências atmosféricas na USP, explica que uma pessoa contaminada falando em ambiente fechado vai aumentando a concentração de vírus no ar, o que piora o risco de contaminação de quem está respirando. “Quando tem ventilação, dilui isso”, afirma a especialista, que completa: “E é preciso ter atenção porque os aparelhos de ar-condicionado no Brasil não fazem a troca de ar do ambiente com o ar exterior. Por isso, não fazem o ar circular e devem ser evitados”.

O que fazer antes de ir à festa?

Qualquer pessoa com o menor sintoma não deve comparecer. O infectologista Edmilson Migowski, da UFRJ, ressalta que nem uma dor de cabeça ou na garganta deve ser ignorada. “As pessoas têm que entender os sintomas e não botar a culpa da dor de garganta no sorvete, da dor nas costas”, explica.

Como servir a comida?

A pneumologista da Fiocruz Patricia Canto afirma que não é uma boa ideia colocar todos sentados à mesma mesa para comer. É mais seguro dispor várias mesas pequenas, espaçadas, para, na hora da ceia, ficarem juntos apenas os que morem na mesma casa.

Testes dão segurança?

Não, mas ajudam. Márcio Bittencourt afirma que só pode ser feito o PCR e que, mesmo ele, não é perfeito — ou seja, uma pessoa pode estar infectada e mesmo assim a doença não ser identificada no teste. Além disso, Patrícia Canto lembra que, após fazer o exame, a pessoa tem que ir para casa e ficar de quarentena rígida até a hora da festa — para minimizar ao máximo o risco de ser infectado nesse período.

E se fizer uma quarentena rígida antes da festa?

O especialista da USP afirma que esta é uma boa medida, caso todos possam passar pelo menos duas semanas em casa antes do evento, com mínimo contato com outras pessoas que não morem com você. Isso inclui, por exemplo, não ir a mercados e farmácia — e ter contato apenas com o entregador, com máscara e distanciamento.

Se não tomar essas medidas, como deve ser o contato com as pessoas?

Mantenha uma distância segura, utilize máscara cobrindo o nariz e a boca e não compartilhe talheres ou copos. Higienize constantemente as mãos com álcool em gel ou água e sabão. Mas lembre-se de que segurança completa é impossível garantir.

Tive a doença. Preciso ter os mesmos cuidados?

Sim. “Ainda não temos certeza da duração da imunidade e sabemos que algumas pessoas podem se infectar novamente, ainda que o risco seja menor”, diz Bittencourt.

Muda alguma coisa para o réveillon?

Não. A pneumologista Patricia Canto alerta que se evite o consumo excessivo de álcool, o que pode levar ao abandono das medidas de segurança.

Como vai ser o Natal dos especialistas?

Márcio Bittencourt e Milena Ponczek ainda estão analisando o crescimento dos números para decidir se encontram suas famílias. Já Patrícia Canto vai passar com uma amiga, que está em uma quarentena parecida com a dela.