Natal na pandemia: os planos de quem decidiu passar a noite do dia 24 em isolamento

Eduardo Vanini
·3 minuto de leitura

Na noite da próxima quinta-feira, Agatha vai tocar violão, Marcella assistirá a filmes e Rafael planeja avançar algumas páginas na tese de doutorado. Cada um na sua casa. Eles não se conhecem, mas estarão conectados por uma atitude que mudou os planos natalinos de muitas famílias neste ano. Por causa da pandemia, gente à beça preferiu abrir mão da companhia de parentes a correr o risco de contaminá-los com o vírus.

“Nunca tinha passado essa data sozinho, mas os meus pais já são idosos, assim como a minha avó. É melhor preservá-los agora e encontrá-los mais adiante, quando for possível, do que correr o risco de não tê-los mais”, pondera o professor universitário Rafael Saldanha. Ele mora em Juiz de Fora, em Minas Gerais, onde dá aulas presenciais uma vez por semana. Para não deixar a data passar em branco, comprou presentes para os parentes pela internet e pretende falar com eles por chamada de vídeo. Fora isso, como diz, será um “dia normal”. “Vou aproveitar para adiantar a minha tese de doutorado, já que os últimos dias têm sido muito corridos.”

O clima será menos desapegado das tradições no apartamento da cantora e cineasta Agatha Mandarino, em Copacabana. Ela também optou por poupar os pais e a avó, mas planeja uma pequena ceia. Vai preparar um prato especial (“talvez um salpicão vegetariano”), abrir um vinho, além de fazer uma chamada de vídeo “para dar risada e abstrair” e tocar violão. Sem melancolia, a jovem admite que a experiência a fez valorizar mais a data. “Banalizamos essas reuniões até sermos impossibilitados de tê-las. Estou há nove meses sem ver a minha família, e o Natal é o fechamento de um ciclo, sobretudo num ano esquisito como este.”

Professor titular de psiquiatria da Universidade Federal de Minas Gerais, Humberto Correa reconhece que o período das festas de fim de ano representa naturalmente um momento de difícil travessias, independentemente da pandemia. “É quando muitas pessoas questionam projetos e objetivos não alcançados. Juntamente com essa reflexão, podem vir a culpa, a baixa autoestima, e a tristeza se torna inevitável. De forma inconsciente, a data pode ser associada também a momentos traumáticos, desavenças familiares e rejeições”, descreve. Portanto, segundo ele, pode ser um momento ainda mais delicado para quem está fragilizado psiquicamente pela crise mundial. “A regra mais importante é: não se cobre tanto!”, recomenda Humberto, antes de elencar outras dicas para evitar o sofrimento.

Vale tentar um encontro com um amigo ou um parente — respeitando as regras de distanciamento — ou mesmo optar pelas versões virtuais, ao passo que o consumo exagerado de bebidas alcoólicas deve ser evitado. “O álcool, além de ser um depressor do nosso cérebro, aumenta a impulsividade e favorece a atos autodestrutivos.”Dar-se um presente também pode cair bem nesse momento, indica o professor, assim como programar uma lista de atividades agradáveis.

A fotógrafa e designer de ambientes Marcella Fernandes já fez a dela. “Separei (os filmes) ‘Anastasia’ e ‘O Grinch’ para assistir, porque é uma tradição desde quando era criança. Também vou comprar um queijo diferente e tomar espumante com suco de laranja”, planeja. “Passarei a noite com os meus cinco gatos e faremos o nosso próprio banquete.”Marcella é casada, mas, diferentemente dela, seu companheiro cedeu aos apelos da família para “furar” a quarentena no Natal. “Eles são muito dramáticos, e meu marido é meio frouxo”, brinca a fotógrafa, que mora em Belo Horizonte. Os familiares dela bem que tentaram fazer o mesmo. Mas a moça se manteve implacável: “Sinto aquela dorzinha por estar machucando alguém, porque nunca passei o Natal longe deles. Mas não quero ser responsável por colocá-los em risco”.