Falsos profetas têm soluções rápidas que a ciência não apresenta, diz Natália Pasternak

Pessoas “frustradas pela falta de respostas rápidas”, que a ciência não é capaz de produzir, se voltam a “falsos profetas” com soluções erradas. O alerta é da bióloga e pós-doutora em microbiologia Natália Pasternak, 44, pesquisadora do Instituto de Ciências Biológicas da USP e presidente do Instituto Questão de Ciência, que reconhece esse cenário no Brasil em meio à pandemia do novo coronavírus.

“Nossa curva de casos e mortes continuam crescendo de uma forma assustadora. Era isso que a gente deveria estar discutindo. A gente deveria estar preocupado com a quantidade de gente morrendo e não se devemos ou não liberar a hidroxicloroquina”, disse Pasternak, em entrevista ao HuffPost Brasil. 

Divulgar a ciência e buscar possíveis respostas para a pandemia são missões da bióloga, intensificadas nos últimos 3 meses — após o Brasil se deparar com a escalada da doença e também da anticiência e do negacionismo. Seu rosto se tornou comum em jornais e em uma coluna semanal do jornal O Globo.

“A gente ainda tem uma parcela da população que elegeu o Bolsonaro e não se arrependeu, e que continua confiando cegamente no que ele fala, no que o governo preconiza. E isso é um problema. Porque o que o presidente fala hoje é que a gente não precisa de isolamento social, e que existe um remédio milagroso”, afirma.

Na escalada da pandemia, o Brasil, com um novo recorde de mortes, superou a Itália nesta quinta-feira (4) e se tornou o terceiro país com mais vítimas fatais de covid-19. Ao todo, são 34.021 mortes e 614.941 casos confirmados no país até agora, segundo dados do Ministério da Saúde.

Natália Pasternak critica "falsos profetas" com suas soluções milagrosas para problemas complexos. (Photo: Paulo Vitale/Divulgação)

O desequilíbrio na distribuição de incentivos financeiros para pesquisas científicas não só no Brasil, mas no mundo, é uma das razões pelas quais a pandemia não foi evitada, segundo Pasternak. “Esses investimentos deveriam ser prioridade de qualquer governo no mundo. A gente precisa de vacinas versáteis, de antivirais genéricos, adaptáveis. Se a gente não investir nisso, vamos continuar extremamente vulneráveis para qualquer nova pandemia.”

Em entrevista ao HuffPost, a cientista afirma que falta aos governantes conhecimento de como a ciência funciona, o quanto é preciso investir em pesquisas e, também, conta como foi ganhar visibilidade e exposição como divulgadora científica neste momento de pandemia.

 “Eu tenho uma filha e fico pensando o quão legal é para ela crescer nesse ambiente tão diferente do que eu cresci. Porque pra ela é normal a mãe dela estar na TV falando sobre ciência e ter tantas outras mulheres presidindo países à frente da pandemia. É normal. Na minha geração, não era assim.”

Leia a entrevista completa:

HuffPost Brasil: Com a SARS (infecção respiratória mais grave) em 2003, a MERS (vírus respiratório detectado no Oriente Médio), em 2012, alguns cientistas pelo mundo já previam que uma pandemia poderia acontecer. A pandemia poderia ter sido evitada? 

Natalia Pasternak: Eu não só concordo com essa afirmação, como tenho falado muito isso. Não é novidade para a gente que existem coronavírus respiratórios que provocam síndrome respiratória grave e também não é novidade que poderia aparecer mais um, assim como estávamos esperando mais uma influenza. Existem diversos cientistas que já diziam que se um dia chegasse um vírus grave e de fácil transmissão, estávamos ferrados. Isso não é novidade. A novidade é que a gente esperava mais que fosse uma influenza e não um coronavírus. Mas até aí, deveríamos estar preparados para ambos.

No caso de SARS e de MERS, havia vários grupos que estavam pesquisando vacina, que estavam pesquisando medicamentos e pararam suas pesquisas por falta de financiamento, por falta de interesse público. Isso é uma característica muito humana: depois que passou, que resolveu, o interesse e o financiamento acabam. E talvez, se a gente tivesse continuado com muitas pesquisas que foram descontinuadas, já teríamos uma vacina para o novo coronavírus.

Alguns pesquisadores apontam que um fator para que a disseminação do vírus não tenha sido controlada seja a complacência e a falta de investimento na saúde e em pesquisa. Você concorda? 

A própria vacina de Oxford, que é a que está mais avançada, está assim porque era um grupo que estava fazendo uma vacina para MERS. Eles estavam com uma vacina pronta, já estavam testando em animais. Esse grupo não parou a sua pesquisa. E essa foi a nossa sorte. Daí, talvez, a gente tenha uma vacina mais rápida. Muitos grupos pararam suas pesquisas nos últimos anos por falta de financiamento e de interesse público. E não é só no Brasil, é no mundo. Por que a nossa vacina da dengue, do Instituto Butantan, por exemplo, ainda não está pronta? Basicamente por falta de investimento. E, sabe, não dá pra dizer que dengue não é algo importante no Brasil. Então, cadê o investimento?

Se a gente tivesse continuado com muitas pesquisas que foram descontinuadas, já teríamos uma vacina para o novo coronavírus. Natália Pasternak, microbiologista e pesquisadora do Instituto de Ciências Biológicas da USP

Profissionais da saúde têm sido atacados neste momento por defenderem o isolamento social e serem contra a defesa da hidroxicloroquina. Em alguma medida, ataques como estes também aconteceram com você?

Ah, isso acontece desde a época da fosfoetanolamina [pílula do câncer, defendida em 2016 pelo então deputado Jair Bolsonaro], a gente acostuma. Eu acho que existem dois lados disso. Todo mundo que está na linha de frente neste momento em determinada medida sofre esses ataques. Mas uma coisa é ser xingada no Twitter. Outra coisa é alguém derrubar seu site, você sofrer ameaças de morte, como aconteceu com o grupo da Fiocruz de Manaus, por exemplo. Então, tem níveis disso. E eu acho que as pessoas estão reagindo muito fortemente ao primeiro nível, que é a rede social. Eu recebo todo dia mensagem de pessoas me xingando. Mas eu também recebo muita mensagem legal, de gente elogiando, de mulheres que falam que se sentem muito representadas vendo uma mulher cientista aparecendo tanto na mídia...

A gente não tem que combater quem xinga a gente no Twitter. Isso a gente não tem nem que responder. Mas a parte organizada disso é preocupante. Porque esses ataques coordenados, eles derrubam sites, eles fazem estragos que são mais complicados. E tem outro nível, que nunca aconteceu comigo, mas aconteceu com os meus colegas de Manaus, como falei. Sofrer ameaça de morte por causa da publicação de um artigo científico, sofrer investigação de órgãos públicos... É com isso que a gente tem que se preocupar, com ataques coordenados que ganham legitimidade e com órgãos públicos envolvidos. O resto? A gente tira de letra.

Frustrada pela falta de respostas rápidas, uma parte da população se volta facilmente para falsos profetas. Porque falsos profetas têm respostas rápidas. E erradas. Natália Pasternak, microbiologista e pesquisadora do Instituto de Ciências Biológicas da USP

Farmacêutico examina pílula de hidroxicoloquina, medicamento que mesmo sem comprovação médica chegou a derrubar dois Ministros da Saúde no Brasil.  (Photo: GEORGE FREY via Getty Images)

Você comentou que recebe comentários de mulheres falando sobre sua visibilidade no universo da ciência. Isso é tão comum quanto você esperava?

Olha, eu acho fantástico. Eu acho muito bom ver outras mulheres falando, se colocando, eu sou muito mais hoje comunicadora da ciência do que propriamente cientista, né? E acho fantástico poder dar o exemplo para as nossas jovens, as nossas meninas, de que é perfeitamente normal ter uma mulher falando na TV sobre ciência - sobre diversos assuntos, claro, não só sobre ciência. Mas também sobre ciência. E tem mulheres líderes de países que estão se saindo muito melhor do que a maioria nessa pandemia.

Eu tenho uma filha e fico pensando o quão legal é para ela crescer nesse ambiente tão diferente do que eu cresci. Porque pra ela é normal a mãe dela estar na TV falando sobre ciência e ter tantas outras mulheres presidindo países. É normal. Na minha geração, não era assim. A gente sempre soube que as mulheres eram totalmente capazes de fazer tudo isso. Mas não era normal, não era corriqueiro. E está se tornando corriqueiro. E eu acho isso fantástico. A partir do momento que isso normaliza na cabeça das pessoas, o preconceito diminui. Elas vão crescer em um ambiente em que isso é normal. Eu realmente acho que as próximas gerações vão conseguir crescer em ambientes em que essa diferença de gêneros vai ficar cada vez menor.

Nesse contexto, você já ouviu comentários machistas por ser mulher e falar de ciência, por exemplo?

Pois é. Ao mesmo tempo eu ainda vejo algumas reações muito engraçadas quando eu me coloco em público, que eu acho que ainda são resquícios dessa sociedade patriarcal, machista, na qual a gente cresceu. Não tem como escapar disso. Muitas vezes eu recebo comentários de pessoas falando: “ai, essa mulher é muito brava”, “nossa, ela nunca sorri”. E eu acho engraçado porque eu não vejo ninguém falar isso dos meus colegas homens. E eles também estão sempre bravos e nunca sorriem por um motivo bastante simples: as pessoas estão morrendo. Não vamos falar disso sorrindo. É um absurdo esperar isso de mim só porque eu sou mulher. Ou comenta que eu estou com o cabelo desarrumado, que eu não sei me maquiar direito... Eu fico pensando se eles recebem alguma coisa desse tipo: “será que ele não sabe fazer a barba?”.

Isso te incomoda?

Não, isso não me incomoda, mas é curioso que ainda aconteça. Eu acho que é resquício de pessoas que ainda enxergam a mulher dentro de um pseudo “papel feminino”, sabe? Para elas, a mulher tem que se comportar de uma certa maneira e o homem não, ele é livre, fala grosso, é forte etc. E a mulher que fala forte é brava, histérica... Eu acho que isso já diminuiu muito. Mas ainda vejo esses resquícios. Eu realmente vejo as mulheres ocupando muito mais espaço de uma forma mais natural do que antigamente. Sou otimista. Eu acho que a gente está caminhando para uma mudança que vai absorver isso com muita naturalidade. Eu acredito que no futuro esses papéis vão sumir.

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Eu tenho uma filha e fico pensando o quão legal é para ela crescer nesse ambiente tão diferente do que eu cresci. Pra ela é normal a mãe dela estar na TV falando sobre ciência.

Mulher realiza trabalho com vacinas em laboratório da África do Sul. (Photo: MUJAHID SAFODIEN via Getty Images)

Retomando ao momento atual e a pandemia... É possível que uma outra situação como a que vivemos agora volte a acontecer?

Se a gente pode tirar uma lição de tudo isso que seja esta: da importância da continuidade das pesquisas em saúde no Brasil e no mundo. A gente precisa ter vacinas versáteis, moleculares, que consigam produzir uma resposta rápida no caso de uma nova epidemia. E são essas vacinas que são pesquisadas a toque de caixa. Agora, no susto, chove investimento, financiamento, cerca de 100 grupos estão pesquisando vacina agora e isso não pode parar depois da pandemia. Esses investimentos deveriam ser prioridade de qualquer governo no mundo. A gente precisa de vacinas versáteis, de antivirais genéricos, adaptáveis.

Se a gente não investir nisso a gente vai continuar extremamente vulnerável para qualquer nova pandemia. Ou mesmo epidemias locais. Não é porque a SARS e a MERS não foram pandemias que elas não causaram estrago. A gente precisa desses estragos, mesmo que sejam localizados? Eu acho que está na hora de definir as nossas prioridades: se é construir estádios para a Copa do Mundo ou investir em pesquisas que permitam que a gente ainda realize um evento como este.

Como você vê a cruzada anticiência e o negacionismo por parte de governantes e de parte da população no Brasil? A política está atrapalhando a ciência neste momento?

Eu penso que, por parte dos governantes, existe uma total incompreensão de como a ciência funciona. E, nesse sentido, vejo que a população fica dividida entre também não compreender e confiar cegamente nos governantes. A gente ainda tem uma parcela da população que elegeu o Bolsonaro e não se arrependeu e que continua confiando cegamente no que ele fala, no que o governo preconiza. E isso é um problema. Porque o que o presidente fala hoje é que a gente não precisa de isolamento social, que existe um remédio milagroso. Isso acaba encorajando as pessoas a não observar medidas de segurança, e a nossa curva de casos e mortes continua crescendo de uma forma assustadora. Era isso que a gente deveria estar discutindo. A gente deveria estar preocupado com a quantidade de gente morrendo e não se deve ou não liberar a hidroxicloroquina.

Mas eu vejo o movimento anticiência de uma forma muito curiosa. Ao mesmo tempo em que a população se interessa pela ciência, ela espera dessa mesma ciência respostas rápidas que não existem. E, então, frustradas pela falta de respostas rápidas, uma parte da população se volta facilmente para falsos profetas. Porque falsos profetas têm respostas rápidas. E erradas. Mas a população se sente confortada e amparada; foi assim também com a pílula do câncer. É fantástico acreditar que existe uma cura tão fácil para uma doença tão complexa. E mesmo que isso não fosse verdade, o conforto que isso trazia para as pessoas é muito grande. E agora acontece a mesma coisa.

Essa nossa incapacidade de lidar com a realidade nos leva pra esses mundos fantasiosos onde existem essas curas milagrosas. Isso é uma característica humana, mas a gente precisa trazer as pessoas de volta para a realidade porque ela vai sobressair. Uma hora elas vão perceber que não existe cura milagrosa e que é preciso fazer a nossa parte para lidar com a doença. 

É possível que a vacina contra o novo coronavírus saia ainda este ano?

É chute. Todo mundo pergunta isso. Eu estou até fazendo o meu chute. Mas encare isso como um bolão entre amigos [risos]. Porque não há um compromisso, de fato, de acertar. Depende muito de como os testes vão se desenvolver. Se a gente pensar assim: “Se tudo der certo, se todas as etapas funcionarem, se não tivermos nenhum problema no caminho”, no final do ano a gente tem [a vacina]. Mas qual é a probabilidade de tudo dar certo? Pouca. Eu acho melhor esperar. Mas acredito que até o final do ano teremos boas respostas sobre quais serão as mais promissoras, e o passo seguinte é a produção. E aí são outras questões: como cada país vai produzir? As empresas vão abrir patente? E aí já sai da esfera da ciência e entra na esfera comercial.

O remdesivir é promissor. Mas é preciso cuidado porque ele também não é um milagre. Cura milagrosa a gente não vai ter. Não tem bala de prata, isso é importante deixar claro. Natália Pasternak, microbiologista e pesquisadora do Instituto de Ciências Biológicas da USP

(Photo: KOEN VAN WEEL via Getty Images)

Esta é uma questão significativa para o Brasil: a distribuição...

Mas aqui a gente tem sorte. A gente tem uma tradição muito forte de distribuição e produção de vacinas, então eu acho que nesse quesito o Brasil está em vantagem: a gente sabe fazer vacina e a gente sabe distribuir. A gente tem a Fiocruz, a gente tem o Butantan, a gente tem Biomanguinhos, eu acho que a gente está bem equipado para encarar o desafio. É isso: vai ser um desafio. Já está sendo. Mas acho que o Brasil consegue encarar. 

Além do hype em torno da hidroxicloroquina, fala-se de outro medicamento, o remdesivir...

Olha, o remdesivir é promissor. Mas é preciso cuidado porque ele também não é um milagre. Cura milagrosa a gente não vai ter. Não tem bala de prata, isso é importante deixar claro. Ele se mostrou promissor porque ele reduziu o tempo de recuperação dos pacientes de 15 dias para 11 dias; então, isso não é cura, mas é uma ótima notícia porque ele está ajudando a reduzir o tempo de recuperação. Quer dizer que as pessoas vão se recuperar mais rápido, vão parar de transmitir mais rápido, teremos menos hospitalização, então tudo isso junto, mesmo que ele não cure, ele ajuda.

E isso é algo semelhante que a gente tem com o Tamiflu, para a gripe. Não são remédios que curam, mas ajudam na recuperação e isso, para uma doença que envolve um período longo de hospitalização, é muito importante. Agora, o problema dele é o custo. Ele é um remédio caro para produzir e no Brasil nós não temos. Então, eu fico me perguntando o quanto ele sendo um remédio promissor vai conseguir influenciar aqui no Brasil.

Hoje fala-se muito do conceito ‘novo normal’ para explicar o que a pandemia pode trazer de mudanças. O que o coronavírus pode mudar, em termos de comportamento?

Eu acho que tudo isso vai trazer mudanças de comportamento que são essenciais: a gente nunca mais vai esquecer de lavar as mãos quando chegar em casa, eu espero. A gente vai usar muito álcool em gel, inclusive na rua. Os restaurantes terão mais pias e álcool em gel disponíveis para que as pessoas lavem as mãos com frequência, as mesas serão mais espaçadas… São mudanças que serão inevitáveis. E isso pode trazer também mudanças em como vamos frequentar lugares fechados e sem ventilação, procurar novas formas de como frequentar cinemas, teatros, fazer viagens internacionais. Será que a forma como as poltronas se distribuem nos aviões terá que ser mudada? É o que veremos quando tudo isso passar. 

E é importante lembrar que esta não é a primeira vez que mudanças de comportamento acontecem. Para olhar para a nossa História recente, depois do 11 de setembro, por exemplo, a rotina de aeroportos, de entradas em prédios comerciais mudou. Também houve o tal do “novo normal” ali. As pessoas também tiveram que se adaptar. A gente se adapta, a gente vai se adaptar a isso também. A gente vai ter que tomar medidas de segurança e adaptação. Mas não vejo com desespero. A vida não vai acabar. A vida social vai voltar. 

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