Nathalia Dill defende maternidade da vida real: 'A sociedade não acolhe as puérperas'

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Na primeira cena de “Um casal incompatível”, comédia romântica que chegou aos cinemas de todo o Brasil nesta semana, Manu, a protagonista vivida por Nathalia Dill, aparece jogando vôlei de praia com uma camisa de gola alta e manga longa, daquelas com proteção UV, e short larguinho. “Pode parecer um detalhe, mas é uma conquista. É muito importante a mulher poder ter autonomia sobre seu corpo, e poder se sentir à vontade em quadra ou em cena.”

Em meados de julho, a atriz carioca de 35 anos levou a filha, Eva, então com 6 meses, à praia pela primeira vez. Em seu perfil no Instagram, relatou a complexa logística que envolvia a “aventura” na legenda de uma foto das duas com o mar ao fundo. Parte dos seus mais de quatro milhões de seguidores ficou encantada com a fofura da bebê; parte das fãs se sentiu representada pela barriga real do pós-parto. “Até que enfim uma recém-mãe de biquíni normal na praia.Quebrando padrões”, escreveu uma. “Gente como a gente”, postou outra. “Acho lindo uma mãe se mostrar como ela é, fugindo das cobranças em relação a estar perfeita”, exaltou uma terceira. “Estava tão preocupada com as tralhas que teria que levar, se a Eva ia dormir no caminho ou se o sol estava quente demais que não pensei se meu corpo estava o.k. ou não para ir à praia. E ainda bem que não pensei, né? Isso não não deveria ser uma questão para ninguém.”

Em uma hora e meia de entrevista por Zoom, a atriz que está celebrando 15 anos de carreira na TV, no teatro e no cinema reflete ainda sobre as mudanças no corpo e mente com a maternidade, o casamento com o músico Pedro Curvello, o sucateamento das universidades públicas e a descriminalização do aborto. Confira, a seguir, os melhores trechos da conversa.

CORPO LIVRE

“Estou questionando mais os estereótipos. Por que a mocinha tem de ser sempre magrinha? Por que quando a gordinha é protagonista a questão do peso é tema central da trama? Nos Jogos Olímpicos do Japão, falaram muito que o corpo da Rebecca (Cavalcante Barbosa da Silva) não era de jogadora de vôlei de praia. Então qual é? Eu sou mais atleta do que ela porque sou um pouco mais magra? A sociedade está se abrindo, mas a questão é muito estrutural. Ainda não teríamos uma atriz com o corpo da Rebecca como protagonista de um filme. Infelizmente.”

MUNDO REAL

“O corpo do ator tem que servir ao personagem, e não a um padrão estético. Às vezes isso pode se confundir. Há alguns anos, havia uma patrulha muito forte. Toda vez que ia à praia, sites mostravam ‘Nathalia e suas celulites’. Não sou uma máquina, e me sentia muito desconfortável, pois era uma forma de depreciação, em que colocava-se a celulite como defeito. De uns tempos para cá, a celulite não esta mais nos títulos. Felizmente.”

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PÓS-PARTO

“Eva acabou de completar 8 meses, e as minhas calças ainda não cabem em mim. Isso é chato. Agora que voltei a fazer exercício, aos poucos. Mas não sei se quero ficar apegada ao corpo antigo. É um novo corpo. Vejo meu braço mais gordinho, a barriga estufadinha. Estou mais presente. Tinha aquela fantasia de que a mulher saía maravilhosa do parto normal, pronta para correr uma maratona. Pode até ser para algumas, mas comigo não foi bem assim. O meu pós-parto foi muito difícil. Tive laceração e precisei levar pontos. Fiquei duas semanas com dor. Minha irmã, que fez cesárea, teve a recuperação muito mais tranquila. Não que eu esteja defendendo a cesariana, imagina, mas acho que não podemos romantizar.”

LIBIDO

“É preciso olhar com atenção e respeitar os ciclos naturais da mulher, inclusive o menstrual. Somos cíclicas e não podemos estar servindo ou produzindo sempre na mesma frequência. Por que ainda é tabu a libido ser fluida? E se a mulher está ótima, com a vida sexual ativa, é porque ela não está se conectando com o filho? A sociedade não acolhe as puérperas. Em determinado momento, eu e Pedro nos olhamos e falamos: ‘Cara, acho que acabou a nossa vida’. Agora, que Eva conquistou um pouquinho mais de autonomia, ela passa os domingos com meus pais. Quando estávamos no meio do furacão, não imaginávamos que seria possível voltar a ter momentos a dois.”

CASAMENTO

“Eu e Pedro nos conhecemos em 2018, em um show de jazz em São Paulo. Ficamos noivos no ano seguinte, mas até hoje não fizemos uma festa de casamento. Ele é meu marido, óbvio, assinamos a união estável, mas a aliança ainda ficará na mão direita até o dia da festa. É um plano antigo, adiado pela pandemia, gravidez, mudança de casa. Queremos reunir nossas famílias. Meu irmão não me viu grávida nem conhece a Eva. E meus cunhados não conhecem meus irmãos.”

LEITE E VACINA

“Fiquei muito desesperada quando a Eva nasceu e não havia previsão de a vacina chegar no Brasil (olhos enchem d’água). Cheguei a pensar em viajar para tentar ser vacinada em outro país, mas o risco de encarar o avião era muito grande. Desisti. Quando fui tomar a vacina por ser lactante na minha cidade (em junho), senti que era um presente da Eva (emociona-se). Foi uma conquista enorme as lactantes entrarem na lista de prioridades no Rio, e confesso que militei para isso, escrevendo direto no Twitter e no Instagram do Eduardo Paes... Eva ainda mama no peito, mas está gostando muito das frutinhas. Acho que o amamentar, hoje, é mais para mim do que para ela. Às vezes, a coloco no peito e ela me empurra. Me sinto um lixo. Fico arrasada... Nos seis primeiros meses, vivi uma paranoia, não queria dar fórmula. Mas devia ter dado, porque foi um estresse. No discurso, falei que faria a amamentação possível, mas, na prática, me pressionei muito. Apoio o movimento do aleitamento materno pois vivemos uma cultura do desmame precoce, mas acho que não pode virar sofrimento.”

EDUCAÇÃO

“Sou formada em Direção Teatral pela UFRJ e sou filha de professores universitários, que relatam o sucateamento das universidades públicas. Minha mãe me falou que, este ano, o valor de investimento para pesquisa científica na universidade federal onde ela trabalha foi literalmente zero. Se quebrar algo, não tem dinheiro para consertar. Há degradação física de ambientes intelectualmente incríveis. A situação é desesperadora porque a única forma de mudarmos o país é pela educação. É triste priorizarem apenas o que é de capital privado. Não estou dizendo que tudo tem que ser público, mas o básico tem que ser. Precisamos garantir saúde e educação para todos. Por isso postamos tanto ‘Viva o SUS’. Alguns dizem ‘ah, mas ela não usa a rede pública...’. Não, mas queria usar. Não queria ter que pagar plano de saúde e escola caros.”

CULTURA PRESENTE

“A pandemia veio para provar que a arte e cultura salvam vidas. Acredito que a comédia romântica, que traz alívio, leveza e amor, tem um papel tão importante quanto um filme que traga uma crítica mais frontal à sociedade. Lançar um filme agora, num momento de tamanho descaso com a cultura por parte do governo federal, é um ato de resistência. É uma prova que vamos continuar criando. E espero que essa nuvem carregada evapore em breve.”

POLARIZAÇÃO POLÍTICA

“Já fui mais radical, de não aguentar os neutros, mas acalmei. As pessoas têm de ir até onde conseguem. Cada um tem seu corre, e há quase uma causa para militar por dia. Digo isso por uma questão de saúde mental, não de crença. Na gravidez e no puerpério, fiquei muito angustiada. Antes, gostava de falar, ajudei a criar o Xota Power (coletivo feminista que começou com atrizes e funcionárias da TV Globo). Chegamos a um lugar tão bizarro que tudo fica mais complexo. Mas ficar pensando no que o outro tem de fazer não é a minha. Não sou a favor do cancelamento brutal e radical da internet.”

DESCRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO

“A descriminalização do aborto independe se eu faria ou não. Passei pela gravidez e senti a complexidade do processo, e acho que obrigar uma mulher a seguir uma gestação pode ser uma tortura tremenda. De que vida estamos falando, afinal? Se a mulher foi estuprada pode abortar, mas se teve prazer na relação não pode? A criminalização do aborto é muito mais sobre o prazer da mulher do que sobre o feto em si.”

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