Aldeias de norte-coreanos no Sul sonham com reunificação há gerações

Andrés Sánchez Braun.

Sokcho (Coreia do Sul), 26 abr (EFE).- Os refugiados norte-coreanos que se estabeleceram em aldeias ao sul da fronteira aguardam ansiosamente pela cúpula da próxima sexta-feira entre as duas Coreias, enquanto tentam manter viva a esperança cada vez mais agonizante da reunificação.

A aldeia de Abbai, hoje um pequeno bairro na região portuária da cidade de Sokcho, 150 quilômetros ao nordeste de Seul, é considerada o reduto do exílio forçado pela Guerra da Coreia.

As ruas labirínticas da aldeia, mais estreitas que as vielas do Sul, e os tradicionais telhados coreanos de ardósia fazem com que ainda se respire o profundo sentimento de comunidade e de respeito pelos velhos costumes trazidos pelos primeiros refugiados que se assentaram após a assinatura do cessar-fogo em 1953.

Eles se mudaram para um dos pontos mais ao norte da Coreia do Sul, para ficarem o mais perto possível das famílias que deixaram do outro lado de uma fronteira situada a apenas 50 quilômetros e que acreditavam ver aberta novamente em breve, o que ainda não aconteceu.

"Eu tinha três anos quando fomos evacuados. Tudo o que lembro é a dureza de viver na Coreia do Norte sendo tão pobre", relatou Park Kyung-soo, que aos 71 anos é proprietária de um restaurante em Abbai que serve pratos típicos de sua terra natal, Hamgyong, no litoral nordeste norte-coreano.

Assim como ela, a maioria dos primeiros moradores de Abbai foram levados de Hamgyong, palco da que provavelmente foi a maior evacuação de civis norte-coreanos durante a guerra, coincidindo com a chegada do exército de voluntários chineses no final de 1950, até as proximidades da cidade de Busan.

Dos mais de 6.400 refugiados que acabaram se mudando para Abbai (que significa "patriarca" no dialeto de Hamgyong), todos os que eram adultos morreram.

Os únicos norte-coreanos ainda vivos, espalhados em uma centena de casas do bairro, pertencem à chamada "Geração 1.5". Isso significa que, como Park Kyung-soo, eles eram pequenos demais e não se lembram de quase nada do país onde nasceram.

"Nós, os mais velhos - da Geração 1.5 - continuamos querendo a reunificação de qualquer forma. A segunda geração nasceu sul-coreana, não tem nenhuma lembrança do Norte, nem da evacuação, então obviamente não têm o mesmo interesse no fim da divisão", afirmou Park, cujo marido também faz parte dos "1.5".

Embora o desejo de voltar a unir a península seja cada vez menos popular no Sul (especialmente entre os jovens, segundo as pesquisas), Park diz acreditar que o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, fará todo o possível na cúpula com o líder norte-coreano para que os dois países, tecnicamente ainda em guerra, se aprofundem na aproximação.

Moon é filho de norte-coreanos de Hamgyong e nasceu no campo de refugiados da ilha de Geoje (justamente onde Park e sua família foram evacuados). Sendo assim, é grande o vínculo do presidente da Coreia do Sul com o conflito e a divisão da península.

"A minha mensagem para Moon é que ele está indo bem. Tenho fé que fará o melhor possível. Só desejo mais diálogo e a reunificação", comentou Park.

Ela lembra que os pais, apesar de sempre insistirem que não sentiam saudades, sempre falavam da vontade de voltar ao povoado de origem, Goseong, desejo que nunca realizaram (morreram há mais de uma década) e que ela gostaria de tornar realidade.

"Claro seria o primeiro lugar ao qual iria na Coreia do Norte se pudesse", disse, convicta.

Pouco mais de 40 quilômetros ao norte de Abbai fica Myeongpa-ri, o município mais ao norte da Coreia do Sul, situado a apenas quatro quilômetros da zona desmilitarizada que divide ambos os países e onde 50 famílias de refugiados se assentaram em 1958 com a idêntica esperança de que a fronteira voltasse a ser aberta.

Embora mais de 80% dos habitantes fossem norte-coreanos antigamente, atualmente essa população caiu pela metade (cerca de 300 pessoas) e restam apenas alguns refugiados originais e poucos norte-coreanos da segunda geração, já que muitos emigraram, segundo o prefeito local, Chang Sok-kwon.

"Os poucos que restam já estão muito velhos e se imaginam caminhando outra vez à Coreia do Norte se houver a reunificação. Mas já são tão velhos...", lamentou o governante. EFE