Nazismo em escolas reflete naturalização de práticas autoritárias, dizem especialistas

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Diversas escolas do país registraram episódios de apologia do nazismo nas últimas semanas -os casos incluem desde troca de mensagens entre estudantes com menções ao tema até alunos que foram para a escola fantasiados do ditador alemão Adolf Hitler.

Para especialistas, os episódios são um reflexo do desconhecimento histórico da população mais jovem e da naturalização de práticas autoritárias por parte do governo de Jair Bolsonaro (PL). São citados como exemplos os elogios do presidente ao regime militar, o desrespeito a grupos mais vulneráveis e a propagação de fake news por alguns de seus apoiadores.

"Tudo isto contribui para minimizar o que aconteceu durante os regimes fascista de [Benito] Mussolini e nazista de Hitler", analisa Ana Maria Dietrich professora da Universidade Federal do ABC.

"A máquina de propaganda a favor do Bolsonaro usa símbolos muito semelhantes à Alemanha nazista, como 'Brasil Acima de Todos' [que emula o brado nazista 'Deutschland Über Alles', ou seja, Alemanha Acima de Todos], entre outros. Isto facilita a identificação entre os dois governos, o de Hitler e o de Bolsonaro", diz ela.

Para além do slogan, outros episódios durante o governo Bolsonaro reforçam a tese de Dietrich. Um dos mais conhecidos foi o vídeo no qual o então secretário da Cultura, Roberto Alvim, imitava o ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels.

Ainda deputado, Bolsonaro defendeu alunos de um colégio militar de Porto Alegre que elegeram Hitler como personalidade histórica. E posou para foto ao lado de um "sósia" do ditador nazista.

Apesar dessas associações, Bolsonaro já repudiou o nazismo em suas declarações. Após o youtuber Monark defender a existência de um partido nazista no Brasil, o presidente disse que "a ideologia nazista deve ser repudiada de forma irrestrita e permanente".

Um dos casos recentes aconteceu entre alunos de uma unidade do Colégio Porto Seguro no interior de São Paulo. Após o resultado das eleições, um grupo de WhatsApp foi criado intitulado "Fundação Antipetismo", em que jovens compartilharam stickers de Hitler, se autointitularam "neonazistas do Porto" e ironizam a câmara de gás.

Em Presidente Prudente (a 511 km da capital paulista), um aluno de uma escola particular foi fantasiado de Hitler durante um evento de Halloween da escola. Uma situação similar aconteceu em outro colégio em Aracaju (SE). Em junho deste ano, um aluno do colégio Avenues, que tem a mensalidade mais cara da capital paulista, citou uma frase de Adolf Hitler no anuário.

Os episódios são repudiados pelas escolas, que pediram desculpas e disseram que medidas serão tomadas. Na Avenues, exemplares distribuídos foram recolhidos. No Porto Seguro, o caso resultou na expulsão de oito alunos.

Antropóloga e pesquisadora de grupos neonazistas há mais de 20 anos, Adriana Dias diz que essas escolas estão "respondendo a toda uma narrativa social nazista e hitlerista construída por Jair Bolsonaro nos últimos quatro anos".

Segundo monitoramento realizado por ela, o número de células neonazistas no Brasil saltou de 75 para 530 de 2015 a 2021. "Os quatro primeiros anos [de Hitler no poder] são marcados pelo uso das igrejas, empresas e da eugênia", diz.

Para a pesquisadora, um cenário comparável aconteceu no Brasil nos últimos anos. "Isso cria uma narrativa social que usa do ressentimento, do machismo, das minorias e uma narrativa social propícia que provavelmente chegou nesse colégio e criou o antissemitismo no grupo de WhatsApp, em que se criou essa aberração", diz.

Uma pesquisas feita pela ONG americana Claims Conferece aponta ainda que a geração Z e os millennials conhecem pouco sobre o Holocausto

O estudo mostra que a maioria dos jovens americanos desconhecem que 6 milhões de judeus foram mortos pelo regime nazista. Além disso, 12% admitem não saber nada sobre o assunto, e 23% disseram acreditar que o Holocausto é um mito ou não tem certeza que a afirmação é falsa.

Para Milena Gordon Baker, advogada criminalista e autora do livro "Criminalização da Negação do Holocausto no Direito Penal Brasileiro", há um desafio em se ensinar este período histórico hoje em meio ao alto negacionismo somado a existência de poucos sobreviventes do período.

A advogada afirma que é preciso de atenção para o período que a humanidade passa agora de pós-pandemia somada a grande insatisfação e polarização da sociedade. "Isso é a base para o ódio se proliferar."

Já Dietrich explica que o nazismo se baseia em dois principais elementos: o terror e a sedução. "Os que fazem apologia só conhecem bem a segunda fase e ficam deslumbrados com a simbologia, o uso da política como religião, os comícios com archotes de fogo, o cinema, os discursos eufóricos de Hitler."

Especializado no Holocausto, o historiador Michel Gherman diz que não há como dissociar o governo Bolsonaro dos episódios recentes registrados nas escolas. "O Brasil tem o maior crescimento de nazismo no mundo e isso não tem a ver com o mercúrio retrógrado. Tem a ver com o Bolsonaro."

Ele comenta ainda que o atual mandatário utiliza desde sempre uma linguagem das redes sociais, que atinge não só as crianças e adolescentes, como seus pais. Assim, jovens têm essa base tanto pela internet, quanto dentro de casa.

Segundo ele, o nazismo é mais uma linguagem do que uma ideologia e um de seus elementos fundamentais é a dimensão conspiracionista. "Tudo é uma conspiração. A derrota dele nas eleições, por exemplo, não existiu, foi uma conspiração."

Ele considera que o Brasil falhou na educação do Holocausto e cita um caso que aconteceu no Colégio Israelita de Porto Alegre. Ao menos três alunas fizeram uma live no TikTok na qual fizeram falas de caráter xenofóbico contra quem apoiou o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e contra nordestinos.

Nas redes sociais, a instituição de ensino se solidarizou com aqueles que "foram e se sentiram ofendidos" e disse que "o discurso de ódio não será tolerado."

Gherman diz que essa aluna "provavelmente foi a[o campo de concentração de] Auschwitz e provavelmente ficou muito ofendida com o que fizeram. Mas, não consegue fazer conexões entre aquilo que aconteceu e aquilo que está acontecendo."

Por isso, ele defende a necessidade do que classifica como uma educação antifascista. "Se vincularmos só a tragédias, campo de concentração e extermínio, não percebermos como esse cara [Adolf Hitler] chegou onde chegou. Ele não chegou produzindo câmaras de gás, mas com discursos de ódio".