Negócios dão o tom da paz entre Israel e os Emirados Árabes Unidos

·5 min de leitura

DUBAI E ABU DHABI, EMIRADOS ÁRABES UNIDOS (FOLHAPRESS) - No segundo andar da reluzente torre Almas, em Dubai, um enorme diamante de mentira recebe os visitantes à porta de um das maiores bolsas de comércio de pedras preciosas do mundo, no DMCC (sigla inglesa para Centro de Múlti Commodities de Dubai).

A composição kitsch tira atenção do maior escritório de representação no saguão, logo à direita: o de Israel, país que até 15 de setembro passado nem era reconhecido oficialmente pelos Emirados Árabes Unidos. "Há um ano, nunca pensei ver isso aqui", disse o segurança Hassan.

Nem ele, nem o presidente do DMCC, o efusivo Ahmed bin Suleyam, que acaba de ser eleito embaixador do Conselho Mundial de Diamantes -um reconhecimento ao trabalho que tirou os Emirados do nada ao terceiro lugar no comércio mundial da pedra, com US$ 21 bilhões anuais negociados.

"Estamos numa posição privilegiada", afirmou ao receber empresários numa missão comercial do governo paulista, na semana passada, encontro no qual buscou afastar as críticas sobre práticas monopolistas como inveja de europeus. E o antigo adversário do outro lado da Península Arábica, o Estado judeu, é parte dos planos de expansão.

Desde que os chamados Acordos de Abraão, pretensioso nome bolsado pelo governo Trump para simbolizar a união das três fés conflituosas com origem comum na região, entraram em vigor, a velocidade dos negócios tem impressionado analistas.

Com Donald Trump mancando rumo à derrota para Joe Biden, os acordos foram sacados como um trunfo de política externa. Depois de décadas apenas em paz com Jordânia e Egito, Tel Aviv de uma só vez se acertava com duas monarquias do Golfo Pérsico, Bahrein e Emirados Árabes.

Entre os sete emirados que compõem o último Estado, o entusiasmo é maior nos mais vistosos, Abu Dhabi e Dubai. No primeiro, o dinheiro do petróleo é preponderante, assim como a musculatura de seus fundos soberanos: o Mubadala comprou por US$ 1 bilhão um campo de gás natural em Israel em junho.

No segundo, que foca em serviços, comércio e turismo, os negócios estão em todos os cantos.

Instalado na cidade desde junho, o cônsul israelense Ilan Sztulman Starosta é figura fácil em eventos comerciais e sociais --parte inata ao espírito comercial emirati, com as famosas festas dadas por Suleyam, como a oferecida às margens da Expo Dubai 2020 na semana passada.

A mão contrária é verdadeira: o DMCC instalou-se na Bolsa de Diamantes de Tel Aviv, e a gigante Emirates anunciou seu voo diário para a cidade na quinta (4), unindo-se a duas empresas de baixo custo locais e à Etihad (Abu Dhabi), além da Arkia israelense, na rota entre os dois países.

A estatal IAI (Israel Aerospace Industry) anunciou que abrirá um centro para um de seus negócios mais rentáveis, a conversão de grandes jatos como o Boeing-777 em cargueiros, em Abu Dhabi até o ano que vem.

Analistas de ambos os países apontam Dubai como o entreposto perfeito para incrementar o comércio com a Índia, que já tem forte presença num mercado imobiliário na cidade que impressiona por seu gigantismo e vazio de ocupação de unidades.

Hoje, cerca de 500 empresas de ambos os países se uniram no Conselho de Negócios Emirados-Israel. Segundo o governo árabe, neste primeiro ano houve US$ 700 milhões em negócios concretizados e bilhões em promessas futuras -ante míseros US$ 200 mil de lado a lado, por meios indiretos, até 2019.

O plano de Abdulla bin Touq, o ministro da Economia, é que em uma década o volume bilateral chegue a US$ 1 trilhão.

Tal pujança, claro, sustenta planos mais ambiciosos. Os EUA montaram a sequência de acordos de paz de árabes com Israel, completada após os dois primeiros por Sudão e Marrocos, visando diminuir o isolamento do aliado e formar uma frente ampla local contra o Irã.

Em comum, todos os árabes em questão têm a proximidade com a Arábia Saudita, centro do islamismo do ramo majoritário sunita. Teerã é o foco do xiismo, e geopoliticamente luta com Riad e também Ancara por influência regional, com o fomento a grupos como o Hizbullah libanês ou o Hamas palestino, por exemplo.

Que a proximidade com a máquina militar israelense se encaixe nesse cenário, é inevitável. Na semana passada, o comandante da Força Aérea emirati, Ibrahim Muhammed al-Alawi, visitou pela primeira vez Israel.

Perto de Eliat, acompanhou 80 caças da Aeronáutica local e mais sete países convidados executarem as manobras Blue Flag 2021.

Chamou especial atenção sua presença numa instrução americana específica para os modernos aviões de quinta geração F-35, que Israel opera e os EUA querem vender para os Emirados, que querem substituir seus 78 F-16 americanos e 59 Mirage-2000 franceses.

Esse tipo de padronização, incomum na região, significa também bons negócios para os patrocinadores da paz, os EUA. Quem não está satisfeito são os palestinos, deixados de lado nos acordos e com seu sonho de Estado viável cada vez mais distante.

Na Expo Dubai, primeira grande feira mundial pós-pandemia, Israel estava presente com um pavilhão vazio, quase um galpão, enquanto a Palestina exibia uma estrutura mais robusta, adornada com imagens de Jerusalém que deseja como capital.

A realidade, contudo, não poderia ser mais díspar, apesar das promessas do emir de Abu Dhabi, o presidente dos Emirados, de apoio aos palestinos. Nem mesmo os graves distúrbios ocorridos este ano em Jerusalém, Gaza e outras áreas conflituosas foram capazes de abalar a disposição comercial no Golfo.

O jornalista Igor Gielow viajou a convite da InvestSP

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos