A negação da derrota de Trump, um cálculo eleitoral de muitos republicanos

Elodie CUZIN
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O Capitólio, sede do Congresso dos Estados Unidos, em 20 de janeiro de 2017, dia da posse de Donald Trump

A negação da derrota de Trump, um cálculo eleitoral de muitos republicanos

O Capitólio, sede do Congresso dos Estados Unidos, em 20 de janeiro de 2017, dia da posse de Donald Trump

A grande maioria dos legisladores republicanos até agora se recusou a reconhecer a vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, uma ruptura histórica com a tradição política que demonstra, acima de tudo, a alta popularidade que Donald Trump mantém entre seus eleitores.

"Os republicanos no Congresso estão deliberadamente colocando as nossas eleições em dúvida por razão nenhuma além do medo de Donald Trump", disse o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, nesta quinta-feira (12).

Por trás dessas declarações há uma realidade muito concreta: não há dúvida de que a derrota de Trump foi selada no sábado, mas também é verdade que o presidente em exercício deixou clara sua persistente popularidade nas fileiras republicanas.

Enquanto um punhado de congressistas do partido rapidamente reconheceu a vitória do candidato democrata, como o senador Mitt Romney, muitos outros permaneceram em silêncio ou apoiaram publicamente as alegações infundadas de fraude ou "roubo" do presidente.

"Isso faz sentido porque Trump ainda mantém a lealdade de pelo menos oito em cada dez republicanos, que disseram nas pesquisas que não acreditam que [a eleição de] Biden seja legítima e acham que Trump deveria continuar lutando", explicou à AFP David Barker, professor de Ciência Política na Universidade Americana de Washington.

Os deputados republicanos "temem uma reação hostil de seus eleitores se adotarem um ponto de vista contrário" a Trump, ponderou.

"Não podemos negar que este presidente será o líder de nosso partido nas próximas décadas", afirmou a porta-voz da Casa Branca, Kayleigh McEnany, na quinta-feira.

Muitos líderes estrangeiros já parabenizaram Joe Biden por sua vitória, mas até esta quinta-feira o presidente dos Estados Unidos se recusava a reconhecer sua derrota.

O ex-vice-presidente de Barack Obama, no entanto, ultrapassou os 270 votos eleitores necessários para chegar à Casa Branca e tomará posse, aos 78 anos, em 20 de janeiro de 2021.

Após lembrar que os ex-presidentes republicanos George Bush e Gerald Ford foram "muito corteses" ao entregar o poder aos democratas que os derrotaram, Bill Clinton e Jimmy Carter, respectivamente, o cientista político Miles Coleman, da Universidade da Virgínia, observou que a atual posição da campanha republicana "é um testemunho da lealdade do partido" ao ex-magnata do setor imobiliário.

Trump "manterá uma influência considerável sobre o partido" no futuro e, ao ecoar suas acusações, os parlamentares buscam "destacar sua solidariedade com a base" republicana, avaliou Coleman.

- "Ruptura" inédita -

Um deles, o senador Lindsey Graham, chegou a afirmar, dois dias antes do anúncio da vitória de Biden, que poderia questionar a legitimidade da eleição.

"Estou aqui esta noite para apoiar o presidente Trump, como ele me apoiou", disse ele na quinta-feira passada, após vencer sua própria reeleição na Carolina do Sul, ao contrário do que previam as pesquisas.

"Graham se definiu nos últimos anos como um dos mais leais partidários de Trump e talvez ele esteja constatando que valeu a pena eleitoralmente", apontou o cientista político.

Os advogados do presidente entraram com ações judiciais em vários estados-chave para contestar os resultados, embora até agora não tenham obtido sucesso.

"O objetivo parece ser minar a confiança dos eleitores na legitimidade das eleições e arrecadar fundos", disse Joshua Douglas, professor da Universidade de Kentucky.

De fato, o Partido Republicano lançou um apelo online por doações com o título "Os democratas tentarão roubar esta eleição!".

As dúvidas plantadas sobre a vitória de Biden "também podem servir em parte para galvanizar a base republicana antes das eleições parciais na Geórgia" para o Senado, marcadas para 5 de janeiro e cruciais para determinar a maioria na câmara alta.

Os republicanos hoje controlam o Senado, mas os democratas esperam conquistar as duas cadeiras disponíveis nesse estado do sudeste. E a mobilização dos eleitores de ambos os partidos será fundamental.

A recusa em reconhecer a vitória de Joe Biden "marca uma ruptura com os padrões democráticos absolutamente sem precedentes", afirmou Douglas.

Porém, "a probabilidade de que algum dos recursos judiciais [movidos pelos republicanos] altere o resultado é extremamente baixa", concluiu.

elc/iba/dg/rsr/ic/am