Negacionismo bolsonarista sobre vacinas tem ataques à Coronavac, mentira sobre relação com Aids e acusação de infanticídio

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Descrédito à Coronavac, desinformação sobre efeitos adversos das vacinas, pressão pública sobre a Anvisa, com exposição de dados de integrantes da agência, e, agora, a classificação da imunização de crianças como “infanticídio”. Seja vindo do próprio presidente Jair Bolsonaro ou de aliados, a campanha retórica contra a vacinação vem desde antes da compra de imunizantes. Ontem, uma série de postagens do pastor Silas Malafaia no Twitter com conteúdo negacionista sobre as vacinas contra a Covid-19 foi removida pela plataforma.

Em uma das 11 publicações, ele chamou de “infanticídio” a vacinação infantil contra a doença. Além da remoção dos tuítes, a conta do pastor teve as atividades suspensas por 12 horas. Na tarde de ontem, Facebook e Instagram também tiraram do ar sua principal publicação sobre o tema. O posicionamento de Malafaia se soma a uma série de declarações que, desde 2020, marcaram a postura negacionista de Bolsonaro e de seus apoiadores.

“Vacinar crianças é um verdadeiro infanticídio. Os números provam que não há necessidade de fazer isso”, publicou, sem apresentar provas, o líder evangélico.

O Twitter informou que constatou que “o conteúdo da mídia compartilhada e replicada em alguns tweets violou nossa política de informações enganosas sobre a Covid, por isso foi solicitada a remoção de mais de um tweet”. Há a possibilidade de recorrer contra a decisão. Já o grupo Meta disse que suas políticas “não permitem conteúdos alegando que as vacinas matam ou causam danos graves às pessoas”.

Histórico

Ao GLOBO, Malafaia criticou o rito adotado pela rede.

— Eles mandam remover os tuítes e mandam você se defender. O que é o processo legal? Você é acusado, você se defende, alguém julga quem está com a razão. Eles fazem o contrário. Tem pressão? (O Twitter) Tira a sua conta e aí manda você se defender. Por que vou me defender, se já suspenderam a minha conta e mandaram eu tirar os tuítes? — disse o pastor. — Falam em democracia, em liberdade de expressão, mas só vale a deles.

Malafaia é um aliado próximo de Jair Bolsonaro, que acumula declarações contrárias à vacinação. Desde 2020, as críticas passaram por um descrédito inicial ao desenvolvimento dos imunizantes, pelos problemas na compra de doses e até pela associação da vacina à Aids — o que determinou a abertura de um inquérito no Supremo Tribunal Federal para investigar o presidente.

Ainda em julho de 2020, Bolsonaro já ironizava a vacina CoronaVac, desenvolvida pelo instituto Sinovac, de forma velada. Ele se referiu ao imunizante como “vachina” e disse que os brasileiros não seriam “cobaia de ninguém”.

A postura de Bolsonaro se manteve nos meses seguintes, mesmo com o início da vacinação na Europa e nos Estados Unidos, já no fim de 2020, e ao longo do ano passado. O presidente já havia afirmado que não tomaria a vacina porque foi infectado, o que comprovadamente não impede uma reinfecção. Após críticas por não fechar um acordo inicial com a Pfizer, ele disse que quem fosse imunizado poderia “virar um jacaré”, ao questionar o contrato oferecido pela farmacêutica britânica, que dizia não se responsabilizar por qualquer efeito colateral.

A falsa afirmação de que pessoas imunizadas estariam desenvolvendo Aids foi uma das mais recentes, antes da vacinação infantil se tornar tema central entre os bolsonaristas e novo passo no negacionismo em torno da vacina.

Uma das vozes mais críticas à imunização obrigatória de crianças, a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) disse ao GLOBO que não é contra a vacinação, mas luta pela “liberdade de escolha de cada indivíduo sobre o que inocular ou não em seu corpo”.

Para o cientista político e professor da PUC-MG, Malco Camargo, há duas razões para o posicionamento de Bolsonaro sobre vacinação: suas crenças e o entendimento de que investir na imunização da população significa o desperdício de recursos financeiros. De acordo com ele, o debate, para o bolsonarismo, é “moral e econômico, só não é de saúde”.

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