Negacionistas da extrema direita chegam mais perto do poder nas eleições de meio de mandato nos EUA

O potencial para os republicanos de extrema direita reformularem os sistemas eleitorais dos principais estados decisivos está se tornando cada vez mais uma realidade. À medida que se aproxima a metade de um ano de eleições de meio de mandato, onde os republicanos têm boas chances, eleitores do partido nomearam dezenas de candidatos que espalharam mentiras sobre a disputa presidencial de 2020 e semearam desconfiança na democracia americana.

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A única maneira de restaurar a confiança, dizem esses candidatos, é os elegendo. Em Michigan, Pensilvânia e agora em Nevada, eleitores republicanos deram voz a candidatos que devem sua ascensão política à divulgação de mentiras sobre a vitória de Joe Biden e que agora disputam eleições para governador, secretário de Estado e procurador-geral – cargos que seriam significativos para influenciar as eleições presidenciais de 2024 em estados decisivos.

A ascensão desses "negacionistas das eleições" está longe de terminar. As eleições primárias que acontecem no fim deste mês, no Colorado, e no início de agosto, no Arizona e Wisconsin, darão mais clareza sobre o desejo dos eleitores republicanos em apoiar candidatos que se dedicam a espalhar à falsa ideia de que a eleição de 2020 foi roubada do ex-presidente Donald Trump.

Como os republicanos provavelmente terão vitórias significativas nas eleições de meio de mandato, em novembro, é possível que 2023 traga novos nomes da extrema direita dispostos a exercer sua influência para afetar os resultados das eleições e uma possível decisão da Suprema Corte, que possa dar às legislaturas estaduais poder irrestrito sobre as eleições federais.

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Mesmo alguns candidatos e funcionários republicanos que por um tempo defenderam os resultados de 2020 como legítimos começaram a questionar se a vitória de Biden é mesmo real.

— Estamos em um lugar perigoso no momento — disse Ben Berwick, conselheiro do Protect Democracy, um grupo apartidário dedicado a resistir ao autoritarismo. — Há uma facção substancial de pessoas neste país que chegou ao ponto de rejeitar a premissa de que, quando temos eleições, os perdedores reconhecem o direito do vencedor de governar.

Na terça-feira, os republicanos de Nevada escolheram como candidato a secretário de Estado Jim Marchant, organizador de uma coalizão de candidatos de extrema direita inspirada em Trump, unidos pela insistência de que a eleição de 2020 foi fraudada. Marchant, ex-deputado estadual de Las Vegas, disse aos eleitores durante um debate em fevereiro que “seu voto não conta há décadas”.

Na votação de novembro, Marchant se juntará a Doug Mastriano, o candidato republicano a governador da Pensilvânia, que venceu as primárias no mês passado depois de vários esforços para cancelar os resultados de 2020; e o procurador-geral Ken Paxton, do Texas, que em dezembro de 2020 tentou na Justiça derrubar a vitória de Biden, bem como figuras semelhantes em outros estados, incluindo Novo México.

Mentiras enraizadas

O número de "negacionistas das eleições" que ganharam indicações republicanas vem aumentando rapidamente nas corridas parlamentares e estaduais em todo o país. Pelo menos 72 membros do Congresso que votaram para tentaram derrubar as eleições de 2020 avançaram nas primárias, de acordo com uma contagem do New York Times.

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E na Geórgia, Pensilvânia, Carolina do Norte e Texas — quatro estados competitivos que já realizaram primárias — 157 legisladores estaduais que tomaram medidas concretas para derrubar ou minar a eleição de 2020 estarão nas urnas em novembro.

Os resultados ocorrem quando as audiências da seleta comissão da Câmara sobre o ataque de 6 de janeiro ao Capitólio revelaram como quase todas as figuras importantes na órbita de Trump, exceto o próprio presidente, acreditavam que Biden havia vencido a eleição, apesar das alegações do ex-presidente. Ainda assim, suas mentiras, reverberadas por seus seguidores, continuam ameaçando perturbar a ordem democrática do país quase 18 meses depois.

Para muitos desses candidatos, a vitória está longe de ser garantida. Alguns dos mais proeminentes, como Mastriano, enfrentam duras campanhas nas eleições gerais, e seu sucesso pode depender de fatores como suas redes pessoais de captação de recursos, a saúde da economia e debates políticos que nada têm a ver com o fator eleitoral. E os eleitores às vezes hesitam em abraçar candidatos cujo eixo central são as eleições.

Ainda assim, primária após primária, os "negacionistas das eleições" vêm crescendo, sinalizando que as mentiras de Donald Trump sobre a eleição de 2020 estão profundamente enraizadas na base republicana.

Eleições politizadas

Em particular, as disputas para secretário de Estado — antes pouco notadas —que elege o principal funcionário eleitoral na maioria dos estados, tornaram-se extraordinariamente importantes e politizadas.

— Não conheço um único funcionário eleitoral competente que diga: 'Nossa, mal posso esperar para estar na primeira página' — disse Pam Anderson, uma republicana candidata a secretária de Estado no Colorado. —Porque geralmente isso é uma coisa muito ruim.

Anderson está concorrendo em uma primária republicana contra Tina Peters, funcionária do condado de Mesa, acusada de ter adulterado equipamentos eleitorais após a eleição de 2020. Peters se tornou uma espécie de heroína para a base de extrema direita, andando no tapete vermelho em uma exibição de um documentário em Mar-a-Lago e discursando em eventos republicanos em todo o país.

A promoção de mentiras sobre 2020 também reforçou as perspectivas de candidatos a secretário de Estado que não têm experiência em administrar eleições, como Kristina Karamo, a provável candidata republicana em Michigan depois de ganhar o maior número de delegados na convenção estadual do partido.

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Em uma entrevista a um podcast na segunda-feira com Steve Bannon, ex-assessor de Trump, Karamo fez uma série de alegações falsas sobre uma eleição “roubada” de 2020 em Michigan. Mark Finchem, um dos principais candidatos republicanos a secretário de Estado no Arizona, que também falou no podcast, disse que a disputa foi “roubado de várias maneiras”.

— Se não tivermos sucesso em novembro vamos perder nosso país — disse Karamo a Bannon.

Preocupações com candidatos que defenderam posições antidemocráticas também motivaram eleitores democratas em alguns lugares, embora pesquisas mostrem que muitos eleitores de ambos os partidos estejam mais focados em questões econômicas como inflação e preços da gasolina.

Maggie Toulouse Oliver, a secretária de Estado no Novo México, democrata, afirmou que estava concorrendo à reeleição para ajudar a manter o cargo sob controle democrata — sua oponente do Partido Republicano, Audrey Trujillo, chamou a eleição de 2020 de “golpe”.

— Vamos ver pelo menos um, se não mais, negacionistas eleitorais chegarem a esses cargos em 2022 — disse em entrevista. — E acho que precisamos ter medo e preocupação com cada um deles.

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