Negro Muro: projeto eterniza personalidades negras nas ruas do Rio

Muito antes de o MMA virar modinha, o baiano Waldemar Santana (1929-1984) se tornou um dos mais famosos lutadores de vale-tudo no país. Conhecido como o Leopardo Negro, enfrentou seu mestre Hélio Gracie em luta histórica, no dia 24 de maio de 1955. Após um longo round marcado por três horas e 45 minutos de duração, o confronto terminou com vitória de Santana, por nocaute, sobre o patrono do jiu-jítsu brasileiro. A história deste pioneiro das artes marciais foi eternizada na 36ª criação do projeto Negro Muro, idealizado pelo produtor cultural Pedro Rajão e pelo artista urbano Cazé, dedicado a exaltar personalidades negras da nossa história com obras de arte urbana que se espalham por muros da cidade.

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A homenagem ao Leopardo Negro foi inaugurada nesta sexta-feira, na Rua da Lapa 49, no Centro do Rio. Fica em frente à sede da Associação Cristã dos Moços (ACM), palco da vitória histórica de Waldemar Santana.

— Estou muito emocionada. Este homem, meu pai, foi um negro de origem humilde que venceu seus desafios, se superou e alcançou, dentro dos limites possíveis daquela época, um espaço dentro da sociedade carioca. A família está muito feliz com esse resgate e reconhecimento da história de Waldemar Santana — disse Mara Santana, filha do lutador.

O projeto Negro Muro, iniciado em 2018, nasceu de uma necessidade pessoal.

— O primeiro mural foi uma homenagem ao músico nigeriano Fela Kuti. Depois disso, figuras sobre as quais eu já sentia um apagamento gritante foram pintadas. São escolhidas de acordo com uma pesquisa pessoal minha, enquanto cria do subúrbio e produtor cultural preocupado com a memória social negra — explica Rajão.

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A lista é dominada por personalidades brasileiras, com a exceção do africano Fela Kuti e de Lil Nas X — o rapper americano, ícone da comunidade LGBTQIA+, tem seu rosto estampado no número 2.941 da Avenida Presidente Vargas.

Essa galeria a céu aberto já celebrou do mangueirense Cartola, também na Lapa, à cantora Elza Soares (no bairro de Água Santa), passando por personalidades como o abolicionista Luiz Gama (no Centro), o marinheiro João Cândido (Coelho da Rocha), o escritor Lima Barreto (no Lins, em 2018, e depois em Todos os Santos, este ano) e o fotógrafo Januário Garcia, morto no ano passado, vítima da Covid — agora imortalizado na Avenida Chile, no Centro. No mês passado, o bamba Paulinho da Viola foi retratado na Rua Conde de Irajá, em Botafogo, bairro onde cresceu.

Apagamento histórico

Quatro trabalhos desapareceram nos últimos quatro anos.

— Uns foram por conta de obra emergencial, em outro o proprietário decidiu pintar o muro de bege, mas também tivemos casos de intolerância, como no muro de Lima Barreto, mas o refizemos — lembra o produtor Pedro Rajão.

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A escolha dos locais que os personagens ocupam no Rio não é aleatória.

— No muro está presente a ponta do iceberg, a raiz daquela pessoa, quase sempre ligada ao território. Os trabalhos do Paulinho da Viola e do Waldemar Santana mostram isso de forma clara — diz Cazé, antes de arrematar: — O grafite é democrático, desperta curiosidade e proporciona uma pausa no dia a dia. Se conseguirmos realçar vínculos perdidos entre raça e território, nossa atuação é coroada.

*Estagiária sob supervisão de Leila Youssef

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