Com poucos negros em cargos políticos, sociedade desperdiça talentos, diz pesquisador

Giorgia Cavicchioli
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Marielle Franco foi e ainda é representatividade negra importante. Foto: Reprodução/Facebook
Marielle Franco foi e ainda é representatividade negra importante. Foto: Reprodução/Facebook

“A sociedade está desperdiçando talentos”. Isso é o que diz o pesquisador Osmar Teixeira Gaspar, doutor pela faculdade de direito USP (Universidade de São Paulo), quando se fala sobre a falta de pessoas negras nos espaços de poder político no Brasil. Em sua tese de doutorado, o especialista estudou a representatividade da população negra dentro da Assembleia Legislativa e da Câmara Municipal de São Paulo.

Em sua pesquisa, Gaspar chegou à algumas conclusões sobre a presença de pessoas negras dentro das casas legislativas. “Nós constatamos que, primeiro, os negros não estão alocados como diretores ou dirigentes dos partidos. Sendo assim, eles não são aqueles que têm as rédeas da distribuição de verbas. Assim já começa a primeira dificuldade”, explica.

De acordo com o pesquisador, outro problema enfrentado logo de cara por pessoas negras que querem se candidatar é a falta de recursos financeiros e tempo. Isso, segundo ele, faz com que muitos não tenham como se dedicar à corrida eleitoral como gostariam. “Do ponto de vista da renda, os candidatos brancos mais ricos têm um patrimônio, em média, três vezes maior do que o dos negros mais ricos”, constata.

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“Isso faz toda a diferença. Dessa forma, você vai fazer uma disputa já em desvantagem estrutural. Isso irá impedir o negro de ter uma mobilidade política e social. E isso que eu estou falando dos negros mais ricos. O tempo também é um fator extremamente prejudicial para os candidatos negros”, afirma.

Gaspar explica que a maioria dos candidatos negros precisa cumprir sua jornada de trabalho durante o dia para poder ter um tempo livre no final do dia para dar atenção à candidatura. “Ao mesmo tempo, seus concorrentes brancos dispõe de um tempo maior”, diz o pesquisador.

Porém, as dificuldades para a pessoa negra que está participando de uma eleição continuam mesmo depois de conseguir emplacar uma candidatura. “Dados estatísticos da nossa pesquisa demonstram que os filhos da população negra, em razão da origem escravocrata, tiveram pouca educação formal de qualidade. Essa formação impede que eles façam uma leitura adequada do jogo político no Brasil”, argumenta.

Sendo assim, Gaspar diz que, muitas vezes, candidaturas negras são usadas apenas para impulsionar ainda mais pessoas que não representam os interesses dessa parcela da população. “Os partidos, no entanto, sabem fazer essa leitura de quantos candidatos negros servem para eleger os homens brancos. Eles, muitas vezes, serão úteis para eleger ainda mais candidatos brancos e ricos”, explica.

Mesmo otimista em relação às eleições deste ano em relação à candidaturas negras, o pesquisador afirma que é preciso que essas pessoas tenham uma estrutura profissional para poder concorrer de igual para igual com candidaturas de pessoas brancas. “Na nossa pesquisa, a gente perguntou para os candidatos negros quais deles tinham comitês eleitorais em via pública e acho que dois ou três responderam que tinham. Todos os outros tocavam suas campanhas em suas casas”, ilustra.

De acordo com o pesquisador, o problema da falta de representatividade negra dentro das casas legislativas traz problemas para toda a sociedade, que perde talentos que poderiam trazer soluções eficientes para questões que afligem toda a população brasileira. “Quando não se vê pessoas negras no parlamento, você vê que está faltando democracia”, diz.

Segundo Gaspar, uma possível solução para o problema passaria por um sistema de cotas parecido com o que temos para mulheres. “Na nossa pesquisa, nós sugerimos que se estabelecesse um percentual de vagas para que se possa estabelecer um número de negros e indígenas. Eu acredito que a adoção de cotas raciais iriam minimizar esses prejuízos”, finaliza.