Negros terem mais risco de morrer de covid até entre os ricos mostra inegável desigualdade racial

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RIO DE JANEIRO, BRAZIL â SEPTEMBER 7: People stage a protest against the government of President Jair Bolsonaro, in the city center during the Independence Day of Brazil, on September 07, 2021 in Rio de Janeiro, Brazil. Demonstrators ask for the president's impeachment, because of the lack of vaccine, the high prices of food, gas of kitchen, and deaths due to the new type of coronavirus (Covid-19). (Photo by Fabio Teixeira/Anadolu Agency via Getty Images)
Foto: Fabio Teixeira/Anadolu Agency via Getty Images
  • O risco de morrer vítima da Covid-19 é maior entre os brasileiros negros, mesmo no topo da pirâmide social, aponta novo estudo

  • No grupo de advogados, a chance de um homem negro morrer de covid é 43% maior que um branco. Entre arquitetos e engenheiros, as chances da vítima ser negra é 44% maior

  • Durante a grave crise de emprego e cenário de inflação, a estabilidade financeira do negro na pandemia também está bem mais vulnerável

Texto: Juca Guimarães 

A condição social não é o único elemento a representar um risco maior de morte por Covid-19 no Brasil, onde já são cerca de 594 mil mortes em um ano e meio de pandemia. O racismo estrutural e institucional impõe aos negros uma posição de destaque entre os contaminados e mortos, mesmo nas faixas de renda e prestígio social com mais acesso à saúde. 

Entre os advogados, a chance de um homem negro morrer de Covid-19 em comparação a um branco é 43% maior, segundo a pesquisa da Rede Pesquisa Solidária e do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). com base nos dados de 2020. 

O estudo coordenado pelo sociólogo Ian Prates, doutor pela USP (Universidade de São Paulo), mostra ainda que entre arquitetos e engenheiros a chance do homem negro morrer vítima do coronavírus é 44% maior do que a do homem branco na mesma profissão.

A pesquisa da Rede Solidária analisou os dados do (SIM Sistema de Informação sobre Mortalidade). Em 2020, foram 1,56 milhão de mortes, sendo 206.646 (13,2%) por Covid-19. 

Na faixa etária entre 18 e 65 anos, que tinham a atividade profissional indicada no SIM, foram 67,5 mil mortes, sendo 32,7% de Covid. Com base nesses dados, foi feita a análise de estimativa da chance de morrer por Covid, com recortes de raça, cor e gênero.

Entre administradores e contadores, as chances de um homem negro morrer de Covid-19 é 48,5% maior do que a de um homem branco. Entre profissionais da área de saúde, exceto médicos, as chances de morte são maiores 49,9% para o homem negro. 

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A desigualdade racial nas chances de morte por Covid-19 entre os homens é transversal a todo o mercado de trabalho, independentemente do tipo de atividade, do setor, de se tratar de ocupações que se encontram no topo ou na base da pirâmide social, aponta o estudo. 

Os motivos para esse padrão podem ser encontrados em dois fatores principais. Em primeiro lugar, nas diferentes formas de inserção laboral. Mesmo exercendo as mesmas ocupações, negros tendem a uma inserção significativamente mais precária, seja em razão do tipo de vínculo (formal x informal) e da natureza dos estabelecimentos (mais ou menos estruturados). Essa precariedade acaba por implicar, também, condições mais vulneráveis de exercício das atividades e exposição ao vírus, mesmo que aconteça nas mesmas ocupações. 

O segundo motivo é por conta das desigualdades de acesso a recursos que se somam a fatores ambientais. Além de estarem, eventualmente, mais expostos a fatores ambientais que afetam as condições de saúde (moradias mais insalubres, acesso inadequado à água, dieta com baixa qualidade nutricional, espaços que afetam o estado psíquico, entre outros), homens negros também tendem a registrar um acesso mais escasso aos serviços de saúde.

Um levantamento feito pelo jornal Folha de S.Paulo para identificar parâmetros de desigualdade racial no Brasil, chamado Ifer (Índice Folha de Equilíbrio Racial), divulgado este ano com dados de 14 estados, aponta que entre os 10% dos brasileiros mais ricos, 30,4% são negros (soma de pretos e pardos), no entanto, entre a população em geral, com referência-base o ano de 2019, eram 54% dos brasileiros. O mesmo levantamento projetou que em 2046 a participação dos negros entre os 10% mais ricos do país deve cair dos 30,4% para 24%. 

Se considerarmos a composição do topo da pirâmide social brasileira, nota-se que ainda assim há um forte fator de desigualdade no recorte racial. A diferença de renda entre os 10% de brancos mais ricos e os demais 90% de brancos era de R$ 6.111. Já entre os negros, a diferença de renda entre os 10% mais ricos e os demais 90% era de R$ 3.076. 

O racismo estrutural impacta as condições de renda do negro e as chances de melhores salários ou uma recolocação mais rápida no mercado de trabalho em caso de desemprego. Durante uma pandemia, com grave crise de emprego e cenário de inflação, a estabilidade financeira do negro está bem mais vulnerável.

Diante desses dados, de renda e do risco de morte por coronavírus, o argumento de que o “vírus é democrático” se mostra mais uma vez refutável. A desigualdade racial no Brasil é histórica e se reflete também no período pandêmico, o que a faz inegável mais uma vez.

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