Nelson Freire: artistas repercutem morte de um dos maiores pianistas do mundo

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RIO— Artistas, políticos e personalidades do mundo da cultura repercutiram a morte do pianista Nelson Freire. Chamado de “um dos maiores pianistas desta ou de qualquer outra geração”, o mineiro radicado no Rio morreu aos 77 anos, em sua casa na Joatinga.

O maestro e pianista João Carlos Martins disse que o mundo perdeu "o maior pianista da atualidade":

— O Nelson dignificou o Brasil em todos os continentes — afirmou.

Martins também lembrou de um caso trágico ocorrido em 1966, quando um ônibus caiu em uma ribanceira em Minas Gerais, matando os pais de Freire. A notícia de que o pianista também havia falecido no acidente chegou até Martins, que se apresentaria em um concerto na mesma noite.

— Dediquei o concerto a ele - contou Martins. - Só no dia seguinte soube que ele não havia morrido. Duas semanas depois liguei para ele e lamentei tudo que ocorreu, mas disse que a música venceria através dele.

A cravista e pesquisadora musical Rosana Lanzelotte é outra que lamentou a morte de Freire.

— Nelson é insubstituível — disse Lanzelotte. — Mas fico feliz que ele tenha deixado tantas gravações, um legado com tantas obras importantes do seu repertório. Ele deixa essa inspiração para outros jovens brasileiros: sejam músicos! Ele saiu do interior de Minas, de uma família que não tinham recursos para proporcionar uma carreira, e se tornou o maior artista brasileiro da sua área.

Em 2003, a rotina de turnês e a memória dos primeiros acordes ao piano foram tema do documentário "Nelson Freire", dirigido por João Moreira Salles. Disponível no Globoplay, o filme acompanha o maior pianista do Brasil.

Com sequências filmadas no Rio, São Paulo, na França, na Bélgica e na Rússia, o doc chegou a ter 68 mil espectadores, um número consideravelmente alto para documentário sobre música clássica e venceu o Grande Prêmio de Cinema Brasil 2004 na categoria. João Moreira Salles seguiu Nelson por dois anos e obteve 70 horas de material gravado.

— Os documentários que eu vinha fazendo até então tratavam de desordem, de violência e de desagregação. Tive vontade de filmar o contrário daquilo e Nelson foi o caminho. Ele encarnava valores de um humanismo essencial a todo projeto de civilização decente – a transmissão da beleza, o imperativo moral do trabalho bem feito, a recusa a toda vulgaridade e espalhafato. Um presidente que tira a máscara de um bebê e força uma criança a fazer uma arma com as mãos é uma imagem verdadeira e poderosa do país. Mas não é a única — disse João. — Nelson Freire (o pianista, não o filme) representava e representa (nos discos, nos registros dos concertos, na vida discreta que levou) uma outra face do Brasil, o lado capaz de nos salvar. Seu talento não está ao alcance de maioria de nós, mas a honradez, sim.

Diretor da Sala Cecilia Meireles, João Guilherme Ripper disse: "Perdemos nosso grande pianista, um artista generoso e genial! Jamais esquecerei um recital no Teatro Châtelet em Paris, em que Nelson tocou um programa dedicado a Chopin. Ovacionado, retornou nove vezes ao palco para tocar de bis toda 'A prole do bebê', de Villa-Lobos. Com Nelson, desaparece mais um pedaço daquele Brasil que encantou o mundo."

No Instagram, o produtor, jornalista, compositor e colunista de O GLOBO Nelson Motta escreveu: "Menino prodígio de raro talento, não teve infância nem juventude nem tempo para nada com sua vida inteiramente dedicada ao piano - e à criação de beleza e arte para o mundo à custa de enorme sacrifício pessoal com horas e horas de estudo diário que não terminam nunca. Amo especialmente seus discos de Debussy e de Villa Lobos e autores brasileiros. Obrigadissimo, xará. Vai em paz."

“Guardaremos as sua interpretações das obras de Chopin, Brahms. Ele impôs um Rachmaninoff e um Liszt transcendentes. Mas sempre houve volúpia, um jogo voluptuoso, como um grande vinho da Borgonha”, elogiou o pianista francês Philippe Cassard. “Nelson Freire é alguém que deixou a sua marca, o seu estilo, a sua classe. Foi um artista de uma classe muito elevada, absolutamente não narcisista, desafiando todas as modas e egoísmos. destacou-se por sua pureza, sua integridade musical Uma extraordinária classe, humildade e maestria que fizeram de Nelson Freire um dos maiores pianistas da segunda metade do século XX."

Para o maestro Fabio Mechetti, Diretor Artístico e Regente Titular da Filarmônica de Minas Gerais, a musicalidade de Nelson Freire "o distinguiu no cenário da música clássica internacional, celebrado que foi em todo o mundo pela hipnotizante maneira com que se utilizava de seu melhor amigo, o piano, para expressar os mais profundos sentimentos, fossem eles de alegria, como nas suas legendárias interpretações de Ravel ou nas inúmeras obras de Villa-Lobos, que tanto ajudou a popularizar, quanto na mágica intimidade sonora que conquistava nas suas leituras de Chopin, Schumann e Beethoven."

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