Nelson Freire herdou tradição da escola romântica do piano e se tornou unanimidade

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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 28.11.2017- O pianista Nelson Freire em seu concerto beneficente em prol do Centro Israelita de Apoio Multidisciplinar em 2017. (Foto: Mastrangelo Reino/Folhapress
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 28.11.2017- O pianista Nelson Freire em seu concerto beneficente em prol do Centro Israelita de Apoio Multidisciplinar em 2017. (Foto: Mastrangelo Reino/Folhapress

FOLHAPRESS - Conta-se que certa vez uma admiradora disse a Pablo Casals que daria a vida para tocar com o maestre, ao que o grande violoncelista catalão teria respondido: "Na verdade foi exatamente o que eu fiz".

A história poderia bem se referir ao pianista brasileiro Nelson Freire, que morreu no Rio de Janeiro na madrugada desta segunda, aos 77 anos, completados havia duas semanas.

A causa da morte não foi informada até o momento. Uma fratura no braço direito resultante de queda no calçadão da Barra da Tijuca, no Rio, no fim de 2019, o forçou a cancelar compromissos e permanecer fora de ação durante uma temporada, o que se prolongou por causa da suspensão das atividades artísticas advinda da pandemia em 2020.

Seu retorno chegou a ser anunciado para 2021, o que incluiria um recital na Sala São Paulo no próximo dia 30 pela temporada Cultura Artística, mas a série teve de ser cancelada após a segunda onda da Covid no Brasil, no início do ano.

Entre os fatores que o levaram a se estabelecer como um dos maiores nomes do piano mundial e um dos mais importantes artistas brasileiros em atividade estavam a sua escolha para integrar um dos volumes da coleção de cem CDs duplos lançada pela Philips em 1999, "Great Pianists of the 20th Century" --ele é o único representante do país.

Também contribuíram para isso as gravações em duo com sua amiga, a pianista argentina Martha Argerich, o documentário "Nelson Freire", lançado em 2003 por João Moreira Salles, e a série de CDs premiados que lançou pela gravadora Decca entre 2001 e 2017.

Para os pianistas, o nome "Nelson" --assim, sem sobrenome-- significava, mesmo para quem nunca o conheceu pessoalmente, algo íntimo, como se fosse um amigo próximo, uma referência capaz de fazer a mediação entre cada um de nós e a própria música.

Essa relação, que ele imprimia em suas interpretações, era proporcional ao contato --igualmente intimista-- que desenvolveu com as partituras dos compositores que mais tocou ao longo da vida, entre eles Schumann, Chopin, Brahms, Bach, Beethoven, Debussy e alguns outros.

Seu repertório não era aberto e variado, mas introspectivo, seleto, particular. Os programas não partiam, como é comum, de uma ideia exterior que pudesse conduzir à escolha e preparação das obras, mas funcionavam como encontros, como se tocar fosse conversar com um amigo querido, partilhar generosamente com o público relações sonoras desenvolvidas ao longo de muitas décadas.

A missão de Freire parecia ser cuidar da música que amava. Suas performances não deixavam passar nada gratuitamente. Cada nota escrita tinha um brilho, um corpo, um polimento. A equalização das vozes --a mixagem que o músico clássico faz em tempo real na nossa frente-- era sutil, plena de detalhes e planos.

Todo esse capricho se dava sem nenhuma perda no controle do tempo --não importa se o trecho fosse muito rápido ou lento, a qualidade do som nunca sofria. O "cantabile" de Nelson jamais interrompia a continuidade do discurso.

O pianista nasceu em Boa Esperança, região imortalizada em uma bela canção de Lamartine Babo. Começou a tocar aos três anos, e seu desenvolvimento foi prodigioso, o que fez com que a família, humilde, arriscasse se mudar para o Rio de Janeiro para que ele pudesse estudar com bons professores.

Foi então orientado por Nise Obino e Lúcia Branco --esta última uma discípula brasileira do belga Arthur de Greefe, por sua vez um aluno direto de Franz Liszt, o que permite traçar uma linha direta do mineiro com a escola romântica de interpretação pianística.

Ao participar, aos 12 anos, do Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro em 1957, ganhou uma bolsa para estudar com Bruno Seidlhofer em Viena. O júri que o recomendou era composto por celebridades como Marguerite Long, Lili Kraus e pela grande pianista paulista Guiomar Novaes, a quem ele sempre rendeu incondicional admiração.

Dessa época é possível o ver em vídeo, aos 15 anos, tocando com virtuosismo extremo o "Estudo Op. 72 Nº6" de Moszkowski. A partir de 1964 vieram as primeiras premiações e uma carreira internacional --concertos com a Filarmônica de Berlim, Concertgebouw de Amsterdã, Sinfônicas de Viena e Londres, e com as orquestras de Nova York, Chicago, Filadélfia, Boston e Los Angeles.

Embora cultuado por especialistas já nos anos 1970, ele não gostava de gravar, e seu reconhecimento por um público maior se deu tardiamente, a partir da década de 1990.

De fato, sua arte atingia o ponto máximo diante do público. Não saem da memória recitais na Sala São Paulo como os de 2016 --diálogo formidável entre as sonatas "K. 331" de Mozart, "Op. 110" de Beethoven e "Sonata Nº 3" de Chopin ou a inesquecível "Balada Nº 4", também de Chopin, que fez na Sala São Paulo em 2014.

Mas nada se compara ao transcendental recital de 19 de dezembro de 2011 no Theatro Municipal de São Paulo, uma daquelas experiências capazes de mudar a essência daquilo que se entende por música. Ele tocou Schumann, Liszt, Prokofiev e Granados.

Freire era uma figura bonita, seu rosto tinha um brilho especial. O olhar emanava certa tristeza, talvez a condição para a arte ser uma necessidade imperativa. Caminhava na direção do piano com passos incertos, indeciso, como querendo que chegasse logo a hora de tocar o instrumento.

Entre seus álbuns mais antigos destacam-se uma incrível integral dos "Prelúdios" de Chopin, relançada a partir de um LP gravado em 1970, e um recital gravado ao vivo no Municipal do Rio de Janeiro em 1980, com uma espetacular versão de dois prelúdios de Rachmaninov antecedidos por Bach e Schumann, e seguidos por Scriabin e Albéniz.

Felizmente ele começou a gravar regularmente neste século, e esses álbuns ficam, agora, como a parte mais palpável de seu legado. Ele iniciou a série para a gravadora Decca com dois álbuns contendo Chopin, e se seguiram outros CDs monográficos dedicados a Schumann, Beethoven, Brahms e Debussy. Aos 60 anos de idade, Nelson Freire se tornou uma unanimidade internacional da música clássica.

A integral dos "Noturnos" de Chopin, de 2010, traz a realização de um antigo projeto do pianista. Sucederam, na segunda década, outros álbuns dedicados a Liszt, Bach, Brahms, Chopin, Beethoven --a derradeira "Sonata Op. 111" e o "Concerto Imperador", este com a Orquestra Gewandhaus de Leipzig dirigida por Riccardo Chailly, e um importantíssimo álbum de música nacional, "Brasileiro: Villa-Lobos & Friends", de 2012.

Freire era tímido e reservado --o documentário de Moreira Salles tem longas passagens dele em silêncio--, e assim é seu círculo de amigos.

A morte do pianista que quase não falava é hoje noticiada em todo o mundo. Com sua perda cala-se também, para sempre, um pouco da arte de Schumann, Chopin, Brahms e Beethoven.

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