Até onde vai o "alinhamento completo" de Nelson Teich com as vontades de Bolsonaro?

Jair Bolsonaro e o novo ministro da Saúde, Nelson Teich. Foto: Adriano Machado/Reuters
Jair Bolsonaro e o novo ministro da Saúde, Nelson Teich. Foto: Adriano Machado/Reuters

A demissão de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, na quinta-feira (16), eliminou, como num paredão de reality show, o último auxiliar da primeira prateleira do governo que tinha lastros com a política partidária.

Filiado ao DEM, mesmo partido de Onyx Lorenzoni, afastado em fevereiro da Casa Civil, Mandetta abriu espaço para Jair Bolsonaro reorganizar as peças mais importantes do seu tabuleiro. Neste entorno, apostam seus apoiadores mais fanáticos, não cabem pretensões eleitorais. Apenas quadros técnicos, eles dizem.

Sergio Moro, ministro da Justiça e Segurança Pública, veio da magistratura.

Paulo Guedes, da Economia, do setor financeiro.

Na Casa Civil, quem ocupa o posto desde fevereiro é Braga Netto, um general da ativa.

Com a pandemia, o ministro da Saúde foi alçado ao primeiro pelotão.

O traquejo político de Mandetta à frente da pasta, demonstrado em coletivas e entrevistas exclusivas, irritou o presidente, que parece sentir o tempo todo o cheiro de rivalidade política na caminhada até 2022. Por muito menos ele havia cortado as asas de Sergio Moro após uma entrevista ao Roda Viva.

Com avaliação mais de duas vezes superior à do (agora ex) chefe na condução da crise, Mandetta virou nome forte em qualquer palanque ao fim da quarentena. Se disputasse o governo do Mato Grosso do Sul, onde já foi secretário da Saúde, dava para apostar que seria eleito com um pé nas costas.

Nas redes sociais, virou meme uma montagem da página do presidente avisando que havia aberto uma vaga para ministro da Saúde. Nos requisitos, o presidente avisava que o candidato deveria ser médico, negacionista, seguidor do Olavo, não pode contrariá-lo, e tolerante com crianças (“tenho 4 filhos”, dizia a montagem).

A brincadeira deixava no ar a possibilidade de Bolsonaro instalar um terraplanista sanitário em um posto estratégico no momento mais delicado, até aqui, da pandemia.

Não foi o que aconteceu.

Embora tenha reiterado que existe “um alinhamento completo” com o presidente e o governo, Nelson Teich, o novo ministro da Saúde, assume prometendo que não dará cavalo de pau no que estava sendo feito pelo antecessor. Isso significa que ele não abraçaria tão rapidamente as teses bolsonaristas relacionadas ao afrouxamento da quarententa e o uso indiscriminado do hidroxicloroquina e da cloroquina como remédios para todos os males.

Como escreveu o jornalista Josias de Souza, em seu blog no UOL, o alinhamento do novo ministro só durou até a primeira live com o presidente. Na transmissão, foram inúmeras as intervenções do tipo “não é bem assim” diante do açodamento do presidente em apresentar as soluções mágicas para a crise.

O novo ministro chegou ao disparate, vejam só, de dizer, a certa altura, que existem indicações de que a cloroquina é questionável sob o ponto de vista da “eficácia e da toxidade”.

Em outro momento, Bolsonaro já falava sobre a vida pós-pandemia, e recebeu como resposta que era preciso ter neste momento um foco grande na coleta de dados.

Teich também deixou claro que prefere falar em discussão da vida do que em discutir economia e emprego, para não dar nenhuma conotação “marcada”.

Na posse do novo ministro, Bolsonaro insistiu no receituário de sempre. Sem evidências, disse acreditar que “muita gente está tendo consciências de que tem de abrir o comércio (“é um risco que eu corro, se agravar vem para meu colo”) e que, em sua opinião, as fronteiras precisam ser abertas.

Ele aproveitou a deixa para criticar também a atuação dos governadores na pandemia.

À primeira vista, quem tem acompanhado a capacidade bolsonarista de produzir inimigos pode pensar que, a seguir neste ritmo, a colisão entre o presidente e o novo ministro é qustão de tempo.

Pode não ser.

Médico oncologista, Teich não tem a mesma desenvoltura política do antecessor para ignorar as ordens do chefe e capitalizar a obediência em público, com recados e indiretas ao presidente que perdia apoio conforme a pandemia avançava.

Mesmo que rejeite qualquer pressão sobre medidas de isolamento e uso de medicamento de eficácia ainda não comprovada, Teich provavelmente não terá o mesmo traquejo nas entrevistas de Mandetta, que ousou contrariar Bolsonaro não só nos corredores, mas também em entrevistas em voo solo — inclusive para a “inimiga” TV Globo. Quanto mais falava e aparecia, mais irritava o presidente.

Não é à toa que Bolsonaro se livrou, um a um, dos aliados que traziam experiência política no currículo.

Se não detectar concorrência à própria sombra, poderá sonhar tranquilamente com 2022 enquanto vê, ou finge ver, obediência restrita dos auxiliares mais próximos de sua cadeira. Até lá, pode se distrair com seu passa-tempo favorito: comprar briga no playground.

Na mesma noite em que demitiu Mandetta, Bolsonaro encontrou em Rodrigo Maia (DEM-RJ) um novo traidor para chamar de seu, acusando o presidente da Câmara de sabotar os interesses nacionais e insinuando que ele criava dificuldades para vencer facilidades nas negociações do Executivo com o Congresso.

O deputado preferiu não bater palma para o interlocutor dançar. Prometeu responder as pedradas com flores. A ver.